livro, diz o escritor Duque Estrada: “Aqui está um real e autêntico poeta que, embora sem a palheta rica dos grandes pintores, consegue falar à alma, despertar sentimentos delicados, e interpretar a verdadeira poesia da natureza.”
O livro seguinte, A Marquesa de Santos, encontrou tal fama, que foi traduzido para o francês, o croata e o inglês, tendo sido na Argentina a base e a fonte de inspiração de um filme com o mesmo nome. O Príncipe de Nassau, que se seguiu, teve o mesmo sucesso.
De seu livro A bandeira de Fernão Dias, o irônico Medeiros de Albuquerque também não poupou elogios: “O romance é excelente. [...] Fernão Dias achou um poeta maravilhoso, Bilac, que o imortalizou no ‘Caçador de esmeraldas’, e acha agora, no autor, um romancista admirável que o faz reviver de modo a perpetuar-lhe invejável fama”.
Sobre outros livros de Setúbal, Agripino Grieco sentenciou: “O ouro de Cuiabá e Os Irmãos Leme são dois livros de um romancista que realiza em nossa terra o ideal, tão raro aqui, do narrador empolgante, capaz de prender o leitor mais desatento à sucessão dos episódios, à mutabilidade dos cenários, à marcha das figuras através de ambientes os mais desencontrados.”
Em 1922 Paulo se casa com Francisca de Souza Aranha, pertencente a uma das mais aristocráticas famílias de São Paulo, com quem tem três filhos: Olavo, Maria Teresa ou Teresinha (vide link abaixo2) e Vicentina. O escritor se entendeu tão bem com o sogro, Olavo Egídio de Souza Aranha, que em toda a página inicial de sua obra A bandeira de Fernão Dias, expressou o seu sentimento pelo falecimento dele em 1928: “À memória inapagável de Dr. Olavo Egídio de Souza Aranha, meu sogro e meu melhor amigo”.
Transcrevemos a seguir alguns depoimentos de outros contemporâneos de Paulo Setúbal que discorrem sobre suas qualidades. Um dos pontos que eles ressaltam é o fato de o escritor nunca perder sua classe de homem bem educado, afeiçoado mais em admirar o que via de bom nos outros, do que em criticar.
O jornalista Silveira Peixoto, descrevendo a exuberância do escritor, diz: “Paulo seguia os seus caminhos, na moléstia que o minava e ia levá-lo. Vivia em São José dos Campos – e aparecia-nos de quando em vez, para nos trazer um daqueles artigos maravilhosos, para cuidar das edições de seus livros. Eram dias de festa – porque, tudo não obstante, apesar da doença e porque sabia vencê-la, sua presença, só por si, era uma festa. Falava com todos, estava sempre num entusiasmo.”
Cassiano Ricardo, em discurso na Academia Brasileira de Letras depois da morte de Paulo, diz: “Alvissareiro como um raio de sol. Jamais triste, encorujado [...] sua alegria já era comovedora. A gente pensava na doença que o ia minando”.
O escritor Affonso de Escragnolle Taunay tornou-se íntimo amigo de Setúbal, e sempre que escrevia algum livro, nunca deixava de consultá-lo. Taunay o chamava de meu “bom, querido e admirado amigo”.
O historiador Vinício Stein Campos descreve Setúbal discursando em Capivari, por ocasião de sua campanha para a Assembleia Legislativa de São Paulo, “gravata ao vento, a cabeleira ondulada refulgindo ao sol, os gestos largos, os olhos luminosos irradiando simpatia, a voz quente, musical e arrebatadora como seu linguajar, empolgou o grande auditório com seu magnífico improviso”.
No seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, Paulo Setúbal fez um sentido preito de homenagem à sua extremosa mãe: “Deixai, pois, senhores acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta do bairro sem luxo, entre no quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: minha mãe, Deus lhe pague!”.
Finalmente, em maio de 1937, chega para o ilustre escritor tornado católico praticante, a hora de se apresentar diante do trono de Deus. Ele quer morrer com dignidade e humildade. Deseja um enterro humilde e ser amortalhado no hábito da Ordem do Carmo, na qual ingressara como Irmão Terceiro em sua juventude.
Aos que se reúnem em torno de seu leito de morte, ele recomenda: “Diga aos meus amigos que morro feliz, porque tenho fé. Não quero viver ou morrer, seja o que Deus quiser. Deixo o mundo, que nada vale, para ir me encontrar com Cristo. Não fiquem tristes [...]. Que são vinte ou trinta anos de separação diante da eternidade, onde estaremos todos juntos? Morro feliz, vou enfim ver o meu Jesus”.
Às quatro horas da madrugada do dia 4 de maio de 1937, após receber com piedade a extrema-unção, ele morre placidamente, sem nenhuma queixa, aos 44 anos de idade.
Ao comentar sua morte, o historiador Affonso de Escragnolle Taunay declarou: “Em Paulo Setúbal tão intimamente se fundiam a inteligência e a cordialidade que não consigo conceber haja alguém algum dia tido contato com tão formosa individualidade superior, sem que desse encontro lhe não tenha ficado a mais grata e hoje a mais saudosa impressão.”
Um grande sacrifício de Paulo Setúbal
Quem lê os depoimentos acima e algumas obras do escritor, fica com uma ideia um tanto romantizada de sua existência, provocada pelas aparências de uma vida despreocupada e alegre que ele procurava dar. A realidade é outra: Paulo Setúbal convivia desde jovem com o sofrimento de uma tuberculose inexorável, contra a qual lutava continuamente, com sua natureza exuberante, para se manter na linha do bom caminho. É o que se desprende do que com humildade e talento ele afirma no prólogo de seu livro Confiteor:
“A minha vida, é certo, nada tem de grande, nem de brilhante, nem de singular que mereça letra de forma. É uma vidinha como mil outras. Mas pode ser que, não por uns pequeninos e frágeis êxitos que teve, mas pelos seus altos e baixos, pelas suas quedas e soerguimentos, pelo seu fadário terreno tão rudemente cortado, pelos pedaços agoniantes de que se entreteceu, pelas longas e longas horas passadas enfadonhamente na cadeira de lona [por causa da tuberculose], horas que a revolta antigamente amargava, horas hoje tão alegremente e tão levemente suportadas, pode ser que esta minha obscura vida de doente sirva acaso de lenitivo e de soerguimento a algum desconhecido irmão de infortúnio que, com o seu impotente desespero arraste, por essas estações de cura a fora, dias excruciantes de amargura e de sucumbimento [...]. Que este caderno não seja outra coisa senão a desenfreada confissão de como, através do sofrimento, eu me cheguei totalmente a Cristo. Cheguei-me a Cristo, e sou feliz”.3
Desde a sua conversão, Setúbal se tornou um apóstolo do sofrimento oferecido a Deus em holocausto pelos seus pecados.
Ele insiste: “É preciso repetir ainda, repetir sem cessar, repetir a vida inteira: o sofrimento é dádiva do céu. É tesouro que nem todos têm a dita de possuir. Foi pelo sofrimento que eu conheci de perto o meu Amigo. Aquele que reconstruiu a minha morada. Ele se empenhou sempre, com amorável tenacidade, a que eu me chegasse a Ele através dos reveses que me mandou”, a fim de transformá-lo radicalmente no “‘homem novo’ do Evangelho”.
As tentações fazem parte do sofrimento que devemos suportar para sermos fiéis. E o demônio, como diz São Pedro, anda em redor de nós como um leão prestes a nos devorar. E às vezes fraquejamos.
Foi o que sucedeu com Paulo Setúbal. Apesar de estar levando uma vida virtuosa, cumprindo exemplarmente os Mandamentos, enfrentou uma forte tentação, justamente no seu ponto fraco: o de escritor.
Diz ele: “Procurou-me certo dia meu editor e, com instância, solicitou-me que lhe desse um novo livro”.
Para ele, “a tentação era radiosa”. E recordou-se de um romance que havia escrito na mocidade, mas nunca publicara, por se afastar da moral cristã. Seu primeiro movimento, ao relê-lo, foi: “Não publico este livro. Absolutamente não publico. Este livro é tão-somente um livro de paixões más e desgrenhadas. Um livro ruim. Não tem nenhuma elevação moral. Não edifica a ninguém. É livro que um escritor, sendo católico, não tem o direito de lançar a público.”
Contudo, a tentação voltava à carga. E em vez de afastá-la com vigor, começou a conversar com ela. Quando releu o romance, descobriu nele “grandes qualidades”. Retocou-o, e o deu à sua esposa para datilografá-lo.
Lendo-o, Dona Francisca perguntou ao marido: – Você vai publicar este livro?
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