Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 867 | página 46-47
| ENTREVISTA| (continuação)

Posta essa situação, quando entrei para o Grupo, a influência imediata deste era pequena. Nada fazia prever o enorme crescimento e a importância que teria nas décadas que se seguiram. Todos os membros do Grupo — então, cerca de 18 pessoas — eram ou se tornaram terceiros carmelitas, no sodalício sediado na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, na Rua Martiniano de Carvalho, em cujo convento vivia Frei Jerônimo. O diretor do sodalício era o Prior do convento, Frei Bonifacio Harink, que não gostava do Dr. Plinio. Por isso, ocorreu a divisão do sodalício Nossa Senhora do Carmo, a que pertencíamos.

Foi então criado, estritamente para o Grupo, o sodalício Virgo Flos Carmeli, do qual Dr. Plinio foi o primeiro prior e cujo diretor era Frei Jerônimo. Mas as atitudes de repulsa do Prior do convento logo mostraram que não queria saber de nós. Acabamos enviando uma mensagem assinada por todos os membros de nosso sodalício, pedindo que nos concedessem a condição de irmãos terceiros carmelitas dispersos, ou seja, continuaríamos irmãos terceiros vinculados à Ordem Carmelitana Descalça, mas ficaríamos dispensados de frequentar a sua sede.

A resposta só veio meses depois, dizendo que “aceitavam nosso pedido de demissão”. Assim, não responderam a nosso pedido. Como não havíamos pedido demissão e não nos demitimos, continuamos terceiros carmelitas. Conto esse fato como exemplo dos problemas que havia quando tentávamos fazer apostolado integrado no movimento oficial da Igreja.

A influência de Dr. Plinio nas Congregações Marianas era ainda muito grande quando o senhor entrou para o “Grupo”? Como explicar que as Congregações, um movimento tão grande naquela época, tenha enfraquecido a tal ponto de ser hoje pouco conhecido?

A influência de Dr. Plinio era muito grande no sentido de que era muito lembrado e estimado entre os membros do clero e do laicato que, infensos às doutrinas progressistas, haviam conhecido e acompanhado sua ação apostólica. Entre estes, lembro-me de Dom Augusto Álvaro da Silva, Arcebispo de Salvador (depois, Cardeal), Dom Ernesto de Paula, Bispo de Piracicaba e Dom José Maurício da Rocha, Bispo de Bragança Paulista.

Havia ainda muitos sacerdotes que, ocasionalmente, procuravam Dr. Plinio. Um deles, franciscano, vigário em Birigui, convidou Dr. Plinio para fazer uma conferência sobre a devoção a Nossa Senhora da Conceição, no Brasil, na véspera da festa da Assunção, em 1954. Não podendo atender ao convite, Dr. Plinio pediu-me que eu fosse. Na ocasião, concentraram-se naquela cidade, mais de cinco mil congregados marianos da Diocese de Lins, que envolvia toda a região da antiga Estrada de Ferro Noroeste, com a presença do Bispo Diocesano, Dom Henrique Gelain. Conto isso para dar um exemplo da pujança do movimento mariano no Brasil, naquela época.

Mas essas atitudes isoladas dentro do clero não permitiam a execução de um apostolado organizado, nas paróquias de São Paulo. Junto com outros membros do “Grupo da Martim”, participei de duas tentativas de apostolado, uma na sede da Federação Mariana, outra na Igreja São José, no Jardim Europa. Convidávamos jovens para reuniões nesses locais, os sacerdotes que as dirigiam nos recebiam bem, mas não acolhiam nossas propostas, desacreditando-as junto aos convidados. Depois de umas tantas reuniões infrutíferas, abandonamos essa forma de apostolado.

Como foi a ideia da fundação da TFP, de o “Grupo” se estabelecer como associação civil e não religiosa?

Diante dos fatos mencionados (contei apenas alguns), Dr. Plinio decidiu — sem desrespeitar a hierarquia da Igreja nem romper com a tradição segundo a qual o clero constitui a igreja docente, que ensina, e os fiéis a igreja discente, que aprende e obedece — fundar uma associação de fiéis para divulgar a doutrina católica tradicional, que contivesse em sua denominação os nomes de três instituições que constituem os pilares da sociedade católica e as mais atacadas pelo modernismo, pelo progressismo dito “católico” e pelo regime comunista: a tradição, a família e a propriedade privada.

Assim, ele visava atrair, para a doutrina tradicional, pessoas que estimavam essas instituições. Deste modo, a novel sociedade civil — sem contestar o direito canônico e a autoridade eclesiástica, para com a qual Dr. Plinio sempre teve a maior consideração — faria a apologia dessas instituições. Lembro-me de que, na reunião em que apresentou a ideia aos membros do Grupo, Dr. Plinio falou em Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Propriedade e Família. Depois, preferiu que fosse Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, antecipando, desde logo, que se usaria a sigla TFP, com a qual se tornou famosa no mundo inteiro.

O senhor participou de numerosas campanhas da TFP. Qual foi a mais marcante?

É difícil dizer, entre diversas estrelas de primeira grandeza, qual é a que brilha mais. As campanhas de difusão do livro Revolução e Contra-Revolução, contra o divórcio, contra a reforma agrária, pela libertação da Lituânia, contra o socialismo autogestionário de Mitterrand foram algumas das que mais me empolgaram. A campanha contra a reforma agrária socialista impediu a implantação do comunismo no Brasil; a campanha pela libertação da Lituânia provocou, indiretamente, o desmoronamento da União Soviética.

Temos de encerrar, mas se desejar dizer algo mais...

Se falar muito sobre quem foi Plinio Corrêa de Oliveira, direi pouco. O principal do que ele fez já foi publicado em livros. Para dizer algo mais, recordo as palavras do evangelista: “Houve um homem enviado por Deus, de nome João. Veio para dar testemunho da Luz, para testemunhar a Luz, a fim de que todos cressem por ele. Não era a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz. Era esta a Luz verdadeira que ilumina a todo o homem que vem a este mundo. Ele estava no mundo e, por ele, mas o mundo não O conheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu-lhes o poder de serem filhos de Deus, àqueles que creem em seu nome; os quais não nasceram do sangue nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1, 6ss).

Diz o provérbio que “toda a comparação é perigosa”, mas não hesito em dizer que Dr. Plinio foi um homem enviado por Deus — Fuit homo missus a Deo, cui nomen erat Plinius — para denunciar a Revolução gnóstica e igualitária e seu efeito mais evidente dentro da Igreja Católica, o modernismo ou progressismo, e indicar os caminhos para combatê-lo. E aqueles que o receberam e permaneceram fiéis a ele, se tornaram filhos de Deus.


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