Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 867 | página 22-23
| VARIEDADES |

La Rioja comemora seu grande milagre fundacional, o Tinkunaco

Luis María Mesquita Errea*

* O autor é professor de História, membro da Federação Argentina de Genealogia e presidente do Centro de Estudos Históricos, Genealógicos e Heráldicos do Mayorazgo de San Sebastián, de Sañogasta. Além de seus numerosos trabalhos, apresentados em Congressos de História e Genealogia, ele organiza as Jornadas de Cultura Hispano-americana pela Civilização Cristã de Salta e as Jornadas de Heroísmo Mariano, de San Miguel de Tucumán y La Rioja.

Em 20 de maio de 1591 nascia a cidade de Todos-Santos de la Nueva Rioja (Argentina). Ela foi fundada — em nome de Sua Majestade Católica Felipe II, Rei de Espanha e das Índias — pelo grande Senhor Juan Ramírez de Velasco, cavaleiro escolhido para governador de Tucumán por suas qualidades pessoais, por sua carreira militar, e por carregar o sangue “dos verdadeiros Ramírez”. Esses descendentes dos antigos reis de Navarra, guerreiros da I Cruzada, fundaram a Divisa Solar de la Piscina Probática, uma Ordem familiar em homenagem às águas sagradas nas quais o Divino Mestre realizou extraordinárias curas.

Dois anos depois, a nova cidade hispânica do Noroeste argentino seria submetida a uma dura prova. Habitada por uma centena de moradores feudatários e seus índios amigos — núcleo fundador que Ramírez de Velasco colocou sob a proteção de Todos os Santos, sobretudo da “Sereníssima Rainha de todos os Anjos e Santos” — , um dia ela viu descer da montanha, com claras intenções de guerra, uma força militar de nove mil “índios de guerra”, trinta vezes maior do que a deles. A cidade desapareceria sob a fúria dos atacantes, ou continuaria de pé para outros “cristãos atrevimentos”?

Eram diaguitas, “gente galharda e bem vestida”, como os descreveu Ramírez de Velasco, governador de Tucumán, primeira província argentina, que se estendia de Córdoba a Jujuy.

Os moradores feudatários — homens livres que, além da obrigação pessoal de sua defesa, tinham o direito de fazer trabalhar em suas fazendas certo número de indígenas indicados por seus caciques, com a obrigação de os evangelizar, defender, ajudar a progredir, pagar-lhes uma diária ou lhes entregar parte da produção — preparam-se para defender a cidade. Confiam na proverbial coragem e capacidade militar espanhola, mas sobretudo na ajuda do Céu, que tantas vezes se fez sentir no período da fundação, como afirma a La Argentina manuscrita de Ruy Díaz de Guzmán e muitas outras obras dos Cronistas das Índias.

No entanto, naquela época havia em La Rioja uma presença muito particular: a do missionário São Francisco Solano, seu evangelizador, cuja vinda a estas terras foi um dos “três presentes” de Felipe II à Província de Tucumán — que até fins do século XVIII integrava o grande vice-reinado do Peru — , custeando sua viagem a partir da Espanha.

Seu processo de canonização, amplamente citado pelo padre Plandolit em O Apóstolo da América, mostra que a Divina Providência concedeu a este nobre franciscano o dom de realizar milagres — como ressuscitar mortos, deter ataques de touros e mover as almas com sua palavra e seu instrumento de cordas, semelhante a um violino.

O “Pentecostes Riojano”

O pároco de La Rioja, Pe. Núñez, declarou no julgamento que, em contraste com o medo e o nervosismo demonstrado pela testemunha — o próprio sacerdote — e a população, São Francisco Solano transmitia segurança, calma, desejo de cumprir uma missão divina e confiança sobrenatural.

Era uma Quinta-Feira Santa de 1593… Quando os “índios de guerra” chegaram diante dos cristãos — armados para a defesa da população, de suas vidas, de suas famílias e de seus bens — , o santo pediu para falar. E lhes dirigindo a palavra, exorta-os numa língua que todos espanhóis e amigos índios de outras línguas compreendiam!

Suas palavras ardentes proclamam a existência e a soberania do único Deus verdadeiro, Criador do Céu e da Terra, feito homem nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. A graça lhes move poderosamente o coração, tanto mais por ter sido Deus representado pela encantadora imagem de um menino de cabelos preciosos, olhar sereno e acolhedor, chapéu e vestes de veludo e seda, e a vara de prata do Alcaide, a quem ninguém desobedecia, segundo um historiador especializado.

O Alcaide era o juiz e a principal autoridade do Cabildo — a grande e original instituição de moradores, autônoma e feudatária, que governava a cidade em nome do Rei, com participação equilibrada do governador, ou de seu lugar-tenente, quando não estava na cidade. As funções do Cabildo com o tempo foram substituídas pelo Município, com muitas diferenças entre ambos. O Município está atualmente a cargo de um Intendente (Prefeito).

A palavra de ouro e de fogo de São Francisco, como uma trombeta angélica, operou um duplo milagre: foi compreendida por todos e transformou os índios pagãos em adoradores do verdadeiro Deus.

As testemunhas dizem que o Apóstolo da América ficou vários dias com os neófitos, pregando e batizando, registrando indelevelmente as verdades da Fé em suas almas sedentas, com as bênçãos do Menino-Alcaide.

As imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Mãe Dolorosa devem ter tocado muito os novos cristãos naquela histórica Semana Santa, pois as imagens e pratarias espanholas que ainda vemos em igrejas e casas históricas de família, produziram maravilhas como a Macarena, o Cristo do Grande Poder, o Menino-Alcaide... Não foi em vão que Felipe II disse: “Na Espanha pode faltar pão, mas nunca ouro!”

Deste fato, desta grande façanha em solo lariojano que coroou a sua fundação, nasceram, dois anos depois, a festa e o hino Tinkunaco.

A tradição, ensina Pio XII, é algo vivo, típico dos povos católicos. O Tinkunaco (encontro) celebrado em La Rioja é intimamente ligado ao culto de São Nicolau de Bari, padroeiro da cidade.

O séquito do Menino-Alcaide saindo de São Francisco e os Alferes de São Nicolau da Catedral, participam no dia 31 de dezembro de uma dupla procissão, que relembra o encontro entre índios e espanhóis. Nos dias seguintes são realizados inúmeros cultos e procissões, com até quinhentos cavaleiros ‘gauchos’.

O Bispo de La Rioja preside o Tinkunaco, acompanhado

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