Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 864 | página 46-47
| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

foi ofertada. Elegeram então o abade Grimoard, que soube de sua eleição quando estava em Nápoles numa embaixada junto à rainha Joana I.

Por que um abade e não um cardeal, como de praxe, foi eleito Papa? Não foi escolhido um cardeal porque, devido à inveja existente entre os membros do corpo cardinalício, quiseram escolher um não cardeal. Aliás, Grimoard era conhecido por sua virtude e saber, e sobretudo pela habilidade nos negócios práticos de governo e da diplomacia. Por isso houve uma satisfação geral com a sua eleição.

Reformador e patrono da educação

Urbano V trabalhou contra o absenteísmo, o pluralismo e a simonia, enquanto procurava melhorar os trabalhos na Cúria. Introduziu reformas consideráveis na administração da justiça e no aprendizado liberal. Fundou uma universidade na Hungria. Concedeu à Universidade de Pavia o status de Studium Generale e dotou a Faculdade de Teologia de Toulouse com direitos análogos aos da Universidade de Paris. Restaurou a escola de medicina de Montpellier e fundou o Colégio de São Bento, cuja igreja, decorada com inúmeras obras de arte, se tornou mais tarde a catedral da cidade. Fundou também uma igreja colegiada em Quézac, e construiu em Bédouès uma igreja junto ao castelo de Grisac para enterrar seus pais.

Cruzadas

Urbano V confirmou o cardeal d’Albornoz em suas operações militares, por ter sido o único a lidar com sucesso contra a agressão inescrupulosa do milanês Bernabò Visconti aos domínios papais. A obstinada resistência de Visconti foi o principal obstáculo à cruzada que Urbano pretendia fazer contra os turcos muçulmanos.

Quando todas as alternativas falharam, o Papa proclamou, na primavera de 1363, uma cruzada contra Bernabò, e o excomungou. O cardeal d’Albornoz alcançou brilhante vitória sobre o tirano, e sua completa submissão foi só uma questão de tempo.

Entretanto, a ideia da cruzada contra os muçulmanos estava muito radicada na mente do Papa.

Por isso, quando em março de 1363 o rei de Chipre e o titular de Jerusalém, Pedro de Lusignan, foram a Avignon pedir-lhe ajuda contra os turcos, o Papa — numa Sexta-Feira Santa, dia 31 de março — pregou uma cruzada e deu a cruz aos reis da França, Dinamarca e Chipre. Entretanto, este último, que comandava a cruzada, apesar de em outubro de 1365 ter capturado Alexandria, foi incapaz de mantê-la. Abandonou-a, fracassando assim o plano do Papa. Isso infelizmente mostra que o espírito de cruzada já estava praticamente amortecido na Europa.

Desgraça de Albornoz

Como vimos, o cardeal Albornoz cumprira a difícil tarefa que lhe fora confiada por Inocêncio VI e colocara mais uma vez todos os territórios pontifícios sob o controle papal, o que tornava possível Urbano V retornar a Roma.

Tudo pode acontecer neste vale de lágrimas: apesar de seus eminentes serviços, o cardeal não recebeu do Pontífice a gratidão que tanto merecia. Por ingenuidade — dando crédito aos inimigos do cardeal que o acusavam de se apropriar do dinheiro papal — , Urbano V o removeu da administração da Romagna e a confiou ao arcebispo de Ravena.

Como resultado, o cardeal injustiçado pediu para ser chamado de volta da Itália, e escreveu categórica carta ao Papa na qual prestava contas de sua gestão. Urbano V reconheceu então seu erro, e diante do inestimável serviço que o cardeal prestara ao papado, reconciliou-se com ele. E decidiu retornar a Sé Apostólica para a Cidade Eterna.

Retorno a Roma

Embora os cardeais da Cúria — quase todos eles franceses — fossem contrários ao retorno e ameaçassem abandonar o Papa caso este não mudasse de ideia, Urbano manteve-se firme e empreendeu a viagem para a Itália.

O Papa chegou à Roma em 16 de outubro de 1367, sendo o primeiro Pontífice a pôr os pés em sua própria diocese em 60 anos. Foi recebido com alegria pelo clero e pelo povo, mas teve a indizível tristeza de saber que seu grande servidor, o Cardeal Albornoz, que não guardara rancor, havia morrido. Ele conduziu seus restos mortais a Assis, onde foram enterrados na Basílica de São Francisco. Contudo, as Constituições para os Estados Papais do valoroso cardeal tiveram longa vida, pois permaneceram em vigor até o fim do ano de 1816.

O Papa fundou várias universidades, aprovou a Ordem das Brigitinas, de Santa Brígida, e a dos Jesualdos. Beatificou seu padrinho, Santo Elzéar, Conde de Ariano, governante, diplomata e líder militar, que seria canonizado depois, em 1371, por Gregório XI.

De novo em Avignon

Diversas circunstâncias levaram esse santo Papa a voltar para Avignon, apesar de ele ter sido alertado por Santa Brígida — que viajou de Roma a Montefiascone para isso — de que se o fizesse morreria em breve.

A morte do cardeal Albornoz, que viabilizara o regresso do Romano Pontífice à Itália, tinha sido uma grande perda. A inquietação voltou em várias cidades, tendo sido preciso o Papa esmagá-la pela força. Não era tampouco de estranhar o amor de todo francês pelo seu país, somado à insistência da comitiva papal francesa para que regressasse a Avignon. Enfim, tudo isso — além de uma nova eclosão da guerra entre a França e a Inglaterra — fez com que seu desejo de paz fortalecesse sua determinação de retornar a Avignon, o que aconteceu no dia 5 de setembro de 1370, depois de apenas três anos na Itália.

Contudo, como Santa Brígida predissera, ele morreu no dia 19 de dezembro desse mesmo ano.

Seus restos mortais foram transferidos em 31 de maio de 1371 para o mosteiro de Saint-Victor, em Marselha. Seu sucessor, Gregório XI, abriu sua causa de beatificação. Os milagres atribuídos à sua intercessão e sua fama de santidade foram então documentados.

Mas a causa parou em 1379. E, com o cisma do Ocidente, não mais andou. Sua beatificação se deu somente séculos mais tarde — em 10 de março de 1870, pelo Papa Pio IX. Sua festa é comemorada no dia 19 de dezembro.

Fontes: — http://www.santiebeati.it/dettaglio/82350 — Raymund Webster, Urban V, The Catholic Encyclopedia, CD Room Edition. — https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Urbano_V Página seguinte