Consoada da noite de Natal
Luis Dufaur
A milenar liturgia católica recomendava o jejum aos fiéis antes de todas as grandes festas religiosas. E o Brasil inteiro o praticava com muitos apreciáveis costumes.
No período do Advento, prévio ao Natal, o jejum consistia na abstenção de carne vermelha desde o quarto domingo anterior ao dia 25, ou até às 23h59min do dia 24. Na véspera da comemoração do nascimento do Menino Jesus, o jejum era total. Mas os fiéis o compensavam desde o início da noite reunindo-se, rezando e cantando na igreja enquanto aguardavam a Missa de Galo.
A igreja era toda iluminada com lâmpadas de azeite e tochas. Muitos círios iluminavam o Santíssimo Sacramento no altar, enquanto as paredes ficavam revestidas com tecidos e tapetes. O templo era perfumado com alecrim, rosmaninho e murta. Em alguns locais mais frios costumava-se deitar palha no chão para aquecer o ambiente.
O jejum da vigília era praticado como forma de mortificação das más inclinações e um convite à contemplação do grande mistério que seria celebrado. A Igreja mitigou o jejum total da noite de 24 de dezembro e entrou o costume de uma ceia especialmente preparada para ser degustada à meia-noite, depois da Missa do Galo.
Comia-se então quase que exclusivamente peixe — em Portugal, bacalhau, costume que ainda perdura em muitos lares brasileiros. Na França, o bacalhau era tido como o rei dos peixes. Em outros países entraram outras iguarias “penitenciais”, dependendo dos recursos naturais dos respectivos habitantes.
O nome “consoada”
O povo chamava aquela ceia de Natal de “consoada” — nome surgido no século XVII que significa pequena refeição — , a qual se tornou mais abundante após o fim do jejum. Até a revolução “pós-conciliar”, depois da Missa do Galo as famílias voltavam para suas casas, colocavam a imagem do Menino Jesus no Presépio, cantavam e rezavam em seu louvor, faziam a consoada e trocavam presentes.
A calma do mundo pré-industrial presidia a consoada: pratos leves, com a alegria do convívio familiar intenso e abençoado pela liturgia católica. Ainda se estava longe da era das velocidades, em que tudo