avassaladora do Deus Uno e Trino, e da imensidade de seu amor pelos homens, especialmente para com ela.
Entre as graças místicas que Santa Ângela recebeu em outras ocasiões, estava a de sentir todo o efeito da flagelação de Cristo em seus ossos e juntas. Ela o narra no Livro da experiência dos verdadeiros fiéis: “Eu, Ângela de Foligno, tive que atravessar muitas etapas no caminho da penitência e conversão. A primeira foi me convencer de como o pecado é grave e danoso. A segunda foi sentir arrependimento e vergonha por ter ofendido a bondade de Deus. A terceira foi me confessar de todos os meus pecados. A quarta, convencer-me da grande misericórdia que Deus tem para com os pecadores que desejam ser perdoados. A quinta, adquirir um grande amor e reconhecimento por tudo o que Cristo sofreu por todos nós. A sexta, sentir um profundo amor por Jesus Eucarístico. A sétima, aprender a orar, especialmente rezar com amor e atenção o Pai Nosso. A oitava, procurar e tratar de viver em contínua e afetuosa comunhão com Deus”.
Diretora e guia espiritual de inúmeros discípulos
Como consequência, em 1291 ela doou todos os seus bens aos pobres e ingressou na Ordem Terceira de São Francisco.
A exemplo de Santa Catarina de Siena, sua fama de santidade aos poucos atraiu em torno de si grande número de Terciários, homens e mulheres, que procuravam adiantar-se na virtude sob a sua direção. Ângela era para eles uma verdadeira guia espiritual e mestra que lhes dava apoio para caminhar com decisão no caminho da cruz.
Mais tarde ela estabeleceu em Foligno uma comunidade de irmãs, dotando-a da regra da Ordem Terceira de São Francisco, acrescida dos três votos de religião, para se dedicar às obras de misericórdia.
A beata Pasqualina de Foligno foi uma de suas filhas espirituais.
Morte edificante e tardia canonização
No Natal de 1303, Ângela comunicou aos seus discípulos que morreria em breve. Alguns dias depois teve uma visão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhe prometeu vir pessoalmente levá-la para o Céu. Seis anos depois, no dia 4 de janeiro de 1309, cercada por sua comunidade de discípulos, ela entregou sua alma a Deus.
Seus restos mortais foram depositados na igreja de São Francisco, em Foligno. Muitos milagres atribuídos à sua intercessão ocorreram em seu túmulo, e sua fama de santidade atravessou os séculos.
Entre as muitas místicas que a “conheceram”, está a grande Doutora da Igreja, Santa Teresa d’Ávila, e Isabel da Trindade, falecida em 1906 e beatificada em 1984. Apesar disso, o caminho para ser oficialmente reconhecida como Santa foi muito tortuoso. Já em 1547 o Papa Paulo III a citava como tal; igualmente o fez Inocêncio XII em 1693, mas nem um nem outro se ocuparam de sua beatificação, ocorrida somente em 1707, com Clemente XI. Em 1927, Pio XI também se referiu a ela como Santa, em carta datada de 1927. Mas ainda assim não a canonizou formalmente.
Finalmente, no dia 9 de outubro de 2013, acolhendo a relação do Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, o Papa Francisco inscreveu Ângela de Foligno no catálogo dos santos através da canonização equipolente (sem executar o processo judicial ordinário), tendo em vista a validade da longa veneração de que ela gozava.
Santa Ângela como mestra da vida espiritual
O Pe. Mario Scudu, SDB, escreveu no site italiano Santi e Beati*: “Ângela mostrou compreender claramente que a comunhão profunda com Deus não é uma utopia, mas uma possibilidade oferecida que só é evitada pelo pecado: daí a necessidade da mortificação constante e severa para aderir ao amor de Deus, que é todo bem e alegria para a alma. Ângela também compreendeu que esta profunda união se realiza especialmente na Eucaristia, a mais elevada e misteriosa expressão do amor de Cristo por nós. Outra constante da sua vida foi a meditação dos mistérios de Cristo, em particular da sua Paixão e Morte (junto com Maria de Nazaré aos pés da Cruz), prática, segundo ela, muito fecunda para permanecer em comunhão com Deus e perseverar na doação a Deus e ao próximo”.
Continua ele: “Todos sabemos que não há verdadeira vida espiritual sem humildade e sem oração. Esta pode ser corporal (vocal), mental (quando não se pensa em nada além de Deus) e sobrenatural ou contemplativa. [Diz ela:] ‘Nessas três escolas a pessoa conhece a si mesma e a Deus; e porque ela sabe, ama; e porque ela ama, deseja ter o que ama. E este é o sinal do amor verdadeiro: quem ama não se transforma em parte de si, mas totalmente no Amado’”.