Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 847 | página 42-43
| VIDAS DE SANTOS | (continuação) vida desse cardeal que, ainda jovem, ele fora nomeado Príncipe-bispo do Principado Episcopal de Trento, e depois elevado ao cardinalato. Governou seu estado por quase trinta anos, período em que organizou o Concílio de Trento, de cujos debates participou ativamente, tendo sido um dos campeões do Catolicismo contra o protestantismo nascente.

Prefeito e juiz aos 26 anos

No início de sua vida pública, Bernardino exerceu os cargos de prefeito e juiz de Felizzeno Monferrato. No termo de seu exercício, o povo, agradado com sua honradez e responsabilidade, pediu sua recondução aos cargos. Foi depois, sucessivamente, advogado fiscal (espécie de procurador da República) de Alessandria, no Piemonte, administrador em Cassino e pretor em Castel Leone. Mudando-se para Nápoles, tornou-se superintendente dos campos do marquês Francisco Ferdinando d’Avalos, cujo pai, o príncipe Afonso III d’Avalos d’Aquino d’Aragona, era confidente do rei Felipe II da Espanha e seu representante no Concílio de Trento. Bernardino teria chegado muito mais longe na vida pública, se a graça de Deus não fosse germinando pouco a pouco em sua alma, instilando-lhe o desejo de se dar inteiramente a Ele. Para isso muito contribuiu a morte edificante de Clorinda, em 1551, e o fato de ela lhe mostrar do Céu novos caminhos, conforme ele mesmo declarou. Enquanto não decidia sobre o futuro, apesar do sucesso na carreira, não descuidava de sua vida espiritual, como vemos numa carta que escreveu aos 32 anos a seu irmão: "Eu não tenho desejo das honras deste mundo, mas somente da glória de Deus e salvação de minha alma". Via a si mesmo como instrumento da Divina Providência, e sua única preocupação era dar seu salário aos pobres.

Membro da Companhia de Jesus

Um dia em que, ainda indeciso sobre o rumo a tomar, caminhava pelas ruas de Nápoles, encontrou-se com dois religiosos cuja modéstia, compostura e santa alegria impressionaram-no vivamente. Informou-se sobre quem eram, e soube que pertenciam à Companhia de Jesus, que Inácio de Loyola acabara de fundar. No domingo seguinte foi assistir à Missa na igreja desses padres. Impressionou-se tanto com o sermão, que quis fazer uma confissão geral com o pregador. Este lhe recomendou os exercícios espirituais, a fim de conhecer melhor a vontade de Deus. Desse retiro saiu decidido a ingressar em uma Ordem religiosa. Mas qual? O pensamento do velho pai, que talvez ainda precisasse dele, ainda o detinha. Mas em setembro de 1564, rezando o terço diante de um altar de Nossa Senhora, apareceu-lhe a Mãe de Deus em meio a esplendores, e lhe recomendou entrar na Companhia de Jesus. Bernardino o fez no mês seguinte, sendo recebido pelo Provincial de Nápoles, Pe. Afonso Salmerón, um dos principais companheiros de Santo Inácio. Por humildade, quis ser recebido como simples irmão leigo. Mas São Francisco de Borgia, terceiro Superior Geral dos Jesuítas, ordenou-lhe receber o sacerdócio, o que se deu em 1567, e o nomeou mestre de noviços, apesar de ainda estar cursando filosofia. Sua prudência e profundo bom senso supriram a falta de formação para o cargo. Professou solenemente em 1570, e se dedicou ao apostolado em Nápoles; inicialmente em uma Congregação de Nobres, depois com os rapazes da rua, no ensino do catecismo nos hospitais, prisões e galeras.

Apóstolo de Lecce

Os superiores o enviaram em 1574 a Lecce, na Apúlia, costa do Adriático, para estudar a possibilidade de estabelecer ali uma casa e um colégio jesuíta. O povo o acolheu calorosamente e secundou seus propósitos. Essa cidade — velha de mais de dois mil anos, e localizada quase no calcanhar da ‘bota italiana’, fora fundada pelos Messápios, tendo sido ao longo dos anos parte dos impérios Romano, Bizantino, Normando e Espanhol. É conhecida como a Florença do Sul, pela riqueza do estilo barroco em todo o centro histórico, realçando-se a Chiesa di Santa Croce (Igreja de Santa Cruz) e a Piazza del Duomo (Praça da Catedral). Possui também importantes ruínas da Roma Imperial, como o anfiteatro do século II d.C. São Bernardino permaneceu 42 anos em Lecce, dedicando-se com prodigioso dinamismo a pregar, ouvir confissões, aconselhar o clero, visitar os doentes e os presidiários. Atendia também com irredutível paciência ricos e pobres, instruídos e ignorantes, ocupando-se de suas misérias e necessidades, de tal modo que lhe são atribuídos vários milagres ainda em vida. Recebeu diversas vezes ordem de se mudar para Nápoles ou Roma, mas sempre que estava pronto para viajar, misteriosos acontecimentos o impediam, como uma repentina febre que exigiu repouso absoluto e o clima ameno da cidade. Seus superiores decidiram então deixá-lo em Lecce.

Fama que correu o mundo

Entre as obras de apostolado do Santo, talvez a sua predileta tenha sido a fundação de diversas Congregações Marianas, tanto para eclesiásticos como Página seguinte