| AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA | (continuação) ses, abandonou seus estudos de direito e ingressou no seminário. Sua decisão foi inspirada menos por razões religiosas, no sentido tradicional, do que por sua atração pelo catolicismo social progressista. (5) Tal tendência, renascida na Europa do pós-guerra, é continuação do modernismo social do movimento Le Sillon, condenado por São Pio X. (6) Ela ganharia novo ímpeto com as reformas do Concílio Vaticano II; e em 1968, com o CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano) em Medellín, culminaria no movimento "Teologia da Libertação". Precursor do Concílio Vaticano II Ordenado sacerdote em 1954, Camilo Torres foi estudar sociologia na Bélgica, tendo ocasião de visitar vários países europeus e estabelecer contatos com a Democracia Cristã, o movimento sindical cristão e grupos revolucionários argelinos em Paris. (7) Eram os anos anteriores ao Vaticano II, quando estava em voga o diálogo cristão-marxista. Retornando ao seu país em 1959, o Pe. Camilo Torres foi nomeado capelão auxiliar da Universidade Nacional. Nessa condição, antecipou na Colômbia muitas das inovações litúrgicas que mais tarde fariam parte das reformas que se seguiram ao Concílio Vaticano II. (8) Colaboração com os marxistas No início dos anos 1960 ele desenvolveu atividades sociais em bairros populares de Bogotá e trabalhou com a agência de reforma agrária da Colômbia. "Em sua discussão sobre a reforma agrária, ele aceita a visão marxista de uma luta de classes como uma realidade sociológica". (9) Como muitos intelectuais latino-americanos dos anos 60, Camilo foi influenciado pela Revolução Cubana. Aproximou-se da Juventude Comunista e do movimento estudantil, participando de protestos com eles, o que lhe valeu pena de prisão e o levou a atritos com a hierarquia católica. (10) Em 1962, o Arcebispo de Bogotá, Cardeal Luis Concha Córdoba, removeu-o de seu cargo de capelão na Universidade e de outras funções acadêmicas, transferindo-o para uma paróquia como coadjutor. (11) O sacerdote não se adaptava ao trabalho paroquial nem aceitava limitação de movimentos. Renunciou à paróquia em 1964 e voltou ao ativismo sociopolítico, do qual nunca havia realmente se afastado. Em setembro daquele ano, apresentou no Segundo Congresso Internacional do Pro Mundi Vita, na Bélgica, o documento "Revolução: Um imperativo cristão", no qual propunha uma "colaboração para obter uma solução marxista para sanar os males sociais do país". (12) Abandono do sacerdócio e ativismo político O envolvimento de Camilo Torres na agitação marxista urbana e rural levou as autoridades eclesiásticas a dar-lhe um ultimato: ele deveria escolher entre os deveres sacerdotais e o ativismo político-social. Em resposta, Camilo Torres abandonou o sacerdócio em 1965. Sentindo-se livre para se lançar de corpo inteiro no trabalho revolucionário, articulou a criação da Frente Popular Unida, coalizão de todas as correntes de esquerda e de oposição ao governo (incluindo o Partido Comunista), em torno da Plataforma da Frente Unida, para a mudança da estrutura político-social da Colômbia. Essa plataforma continha princípios abertamente socialistas: "A plataforma reivindicava a nacionalização dos serviços públicos e dava aos camponeses as terras em que trabalhavam, e aos inquilinos urbanos as casas em que moravam, sem indenização a seus proprietários legais. O plano também exigia uma tributação alta dos ricos, um plano nacional de seguro de saúde e igualdade de direitos para as mulheres". (13) Ao apresentar a plataforma na Universidade de Bogotá, Camilo Torres exortou os estudantes a se organizarem para lutar "com armas iguais" contra as forças da ordem. (14) Clandestinidade e incorporação à luta armada À medida que seu envolvimento na agitação político-social aumentava, o ex-sacerdote foi-se radicalizando cada vez mais. Passou em outubro de 1965 para a clandestinidade, com um grupo de estudantes; e em novembro incorporou-se à guerrilha, não como um simples mentor ou conselheiro, mas como um combatente do ELN, organização guerrilheira inspirada no M-26 cubano. (15) Na ocasião ele lançou um manifesto inflamado, a "Proclamação aos colombianos", anunciando sua decisão: "Eu me juntei à luta armada. Da serra colombiana pretendo continuar a luta de armas em punho, até a conquista do poder pelo povo. ‒ Pela unidade da classe popular até a morte! ‒ Pela organização da classe popular até a morte! ‒ Pela tomada do poder pela classe popular até a morte! [...] – Nem um passo atrás! Libertação ou morte!". (16) Morte no primeiro combate Durou apenas cerca de três meses essa militância armada. Após intenso treinamento militar, recebeu o codinome Argemiro, juntamente com uma pistola. Foi morto em sua primeira missão, em 15 de fevereiro de 1966, numa emboscada malograda contra as tropas do governo, ao tentar apoderar-se da arma de um soldado morto. Ele acabava de completar 37 anos. "Um ano antes de sua morte, no texto ‘A Revolução, um imperativo cristão’ (1965), Camilo Torres escrevera que os cristãos não só podem, como cristãos, participar da revolução, mas ‘têm a obrigação moral de fazê-lo’". (17) O seu mito ultrapassou as fronteiras colombianas, espalhando-se pela Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Nicarágua. Outro padre-guerrilheiro — o nicaraguense Ernesto Cardenal, já reabilitado pelo Papa Francisco — , ao juntar-se à guerrilha sandinista, citou Camilo Torres como seu modelo. (18) Elogios de Dorothy Day, modelo de Biden Entre os que veneram esses novos "santos" do "martirológio revolucionário" e se inspiram no seu exemplo, encontram-se não apenas jovens latino-americanos, mas muitos cristãos de esquerda de todo o mundo, incluindo os Estados Unidos. Típico é o caso de Dorothy Day (1897-1980), "uma ativista radical pelos direitos sociais, anarquista e pioneira do feminismo, mais tarde militante católica". (19) Ela foi agora tomada como modelo e fonte de inspiração pelo governo do "católico" Joe Biden, e declarada Venerável (primeiro passo para a beatificação) pelo Papa Francisco. No prefácio da edição inglesa dos escritos de Camilo Torres, em 1968, ela escreveu: "Camilo Torres uniu-se aos guerrilheiros, à sua vida nas montanhas e na selva; uniu-se à peregrinação do povo, os ‘campesinos’. Partiu o pão com eles e se tornou verdadeiramente um ‘compañero’, aquele que parte o pão. "Posso imaginar Camilo Torres com seus companheiros soldados, sentado ao redor de uma fogueira à noite, sendo caçado pelo Exército e levando o Evangelho da esperança aos pobres. Camilo Torres, rogai por nós, para que tenhamos sua coragem em oferecer nossas vidas por nossos irmãos!". (20) "Dominicanos das Perdizes", envolvidos na guerrilha urbana Não longe de nós, os "dominicanos das Perdizes" — frades e noviços envolvidos na guerrilha urbana comunista, nos anos 1960 — tomaram Camilo Torres como inspiração para sua militância revolucionária ao lado de Marighela, criador da Ação Libertadora Nacional. O ex-frade João Caldas Valença relata: "Nessa época líamos Althusser e todos os que fizeram releituras marxistas. Tínhamos acesso, em língua francesa, a todos os teóricos, de Mao Tse-tung a Camilo Torres, Che Guevara, Ho Chi Minh etc". (21) Outro deles, Magno Vilela, que cursava História na USP, também atesta que as trajetórias do padre Camilo Página seguinte