Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 845 | página 22-23
| ENTREVISTA | (continuação) próprios países desenvolvidos. Portanto, são eles que deveriam tomar a iniciativa de proibir a comercialização dessa madeira; pois não havendo clientes, não há desmatamento — esta é uma regra muito conhecida, muito lógica.
Muito se fala sobre a transferência de umidade atmosférica da Região Norte para o Centro-Sul do País, promovida pela floresta. Os chamados ‘rios voadores’ trariam as chuvas para o Sul, e isso estaria ameaçado pelo desmatamento. Qual a realidade dessas discussões sobre a alegada devastação do bioma Amazônia?
‘Rios voadores’ é uma expressão dos meteorologistas americanos, que plagiamos. Eles a utilizavam para, em linguagem popular, descrever o transporte de umidade pelo jato polar, uma corrente de ventos muito forte que sopra de oeste, encontrada nos níveis altos da atmosfera em latitudes temperadas. A afirmação de que a floresta é a geradora do vapor d’água transportado para outras regiões do continente pelos chamados ‘rios voadores’, e que a transformação da floresta em pastagem reduziria em 25% as chuvas sobre o Brasil, é resultante dos modelos de clima global (MCG), sem verificação ou constatação. Infelizmente, até o documento Instrumentum Laboris, elaborado pelo Vaticano por ocasião do Sínodo da Amazônia em outubro de 2019, peca ao afirmar que a Amazônia é responsável pela distribuição das chuvas na América do Sul. A Amazônia não é essencial para a distribuição das chuvas para outras regiões remotas da América do Sul, porque não é fonte de umidade para a atmosfera. A fonte principal de umidade para as chuvas, inclusive as amazônicas, é o Oceano Atlântico tropical, principalmente durante o verão do Hemisfério Sul. Dados de fluxo de umidade, calculados por nós entre 1999-2014, sugerem que, em média e em números redondos, entrem na bacia amazônica o equivalente a 500 mil m3/s de umidade trazidos pelos ventos que sopram do Atlântico, dos quais 80% são transformados em chuva localmente, e os 100 mil m3/s restantes ‘passam direto’ e não interagem com a região. Dos 400 mil m3/s de chuva que caem na bacia, metade sai pelo rio Amazonas (200 mil m3/s), e a outra metade é reciclada por evaporação/transpiração para a atmosfera e incorporada ao fluxo de umidade que chega às outras regiões da América do Sul. Ou seja, 300 mil m3/s (60%) dos 500 mil m3/s originalmente saídos da evaporação do Atlântico, em média, chegam a outras regiões ao sul da Amazônia, sendo os 200 mil m3/s restantes devolvidos ao Atlântico pelo rio. Portanto, na escala de tempo climática, a Amazônia apresenta um balanço hídrico estável. Árvore, ou floresta, não é ‘máquina’ de produzir água, apenas recicla a água da chuva anterior que estava armazenada no solo. Embora haja uma interação floresta-atmosfera, a longo prazo a floresta existe porque chove, e não o contrário. Por reductio ad absurdum, prova-se que, se a floresta fosse fonte de umidade, a região já teria se transformado num deserto desde que se estabilizou após o término da última era glacial, há cerca de 15 mil anos. O elemento geofísico fundamental para direcionar a umidade do Atlântico para outras regiões da América do Sul é a formidável barreira ao fluxo de umidade imposta pela Cordilheira dos Andes. O ‘bom senso’ geofísico sugere que, se houvesse um desmatamento generalizado, a superfície amazônica ficaria aerodinamicamente mais ‘lisa’, os ventos se acelerariam nos níveis baixos da atmosfera e transportariam mais umidade para as outras regiões do continente, aumentando suas chuvas.
Sobre a emissão de carbono, dizem que a Amazônia detém mais carbono do que as emissões mundiais ‘de muitos anos’, e que a liberação desse carbono na atmosfera teria ‘consequências climáticas catastróficas’. Estas afirmativas têm procedência?
Não, não têm base científica alguma! A quantidade de carbono (Q) contida no Bioma Amazônia é calculada pela fórmula Q = %CxAxD, onde %C é o percentual de carbono encontrado em uma árvore, e usualmente o valor médio de 45% é aceito; A é a área do bioma (550 milhões de ha); D é a densidade da biomassa, dada em toneladas de matéria seca por hectare (t/ha). Esta última variável é a grande incógnita, pois há áreas com distintas densidades de biomassa dentro do bioma. Uma consulta à literatura mostra valores que vão de 180 t/ha a 720 t/ha. Se se aceitar que o bioma Amazônia tenha uma densidade de biomassa média de 300 t/ha (valor considerado plausível empiricamente), empregando-se a fórmula acima, chega-se a um valor de cerca de 75 bilhões de toneladas de carbono (GtC) contidas na floresta. Pelos números recentes (2019) de emissões por regiões, Ásia, América do Norte e Europa emitem um total de 7,5 GtC/ano, donde se conclui que apenas essas três regiões emitem uma ‘floresta amazônica inteira’ para a atmosfera em cerca de 10 anos. Se o estoque de carbono da Amazônia fosse totalmente liberado para a atmosfera, poderia aumentar, teoricamente, a concentração do CO2 atmosférico em cerca de 35 ppmv, menos de 10% da concentração atual, que é 400 ppmv. Considerou-se que a emissão de 2,13 GtC acarreta um aumento de 1 ppmv na concentração atmosférica, de acordo com a literatura. O Brasil detém cerca de 65% do bioma Amazônia dentro da Amazônia Legal. Nessa região, estabelecida para fins de incentivos fiscais, os 35% restantes são constituídos de biomas diversos, como cerrado, cerradão e campinarana, por exemplo. A área sob pressão antrópica não é o bioma Amazônia, e sim os 35% restantes, que possuem uma densidade de biomassa muito menor que a da floresta tropical chuvosa. Como dito acima, a taxa de desmatamento anual já esteve pior no passado. Utilizando-se uma taxa de desmatamento atual de 11 mil km2, ou 1,1 milhão de hectares, sendo essa área de desmatamento somente do bioma Amazônia, e não da Amazônia Legal, com a densidade de biomassa acima citada de 300 t/ha, e admitindo ainda que as queimadas teriam 100% de eficiência na emissão do carbono contido na floresta para a atmosfera (o que é fisicamente impossível num clima extremamente úmido), a emissão de carbono seria de 150 milhões de toneladas de carbono por ano (MtC/a), contra 1.100 MtC/a do Japão e 700 MtC/a da Alemanha, e muito menos que a dos EUA e China. Na melhor das hipóteses — queima de floresta tropical úmida com 100% de emissão de carbono — as emissões anuais desses dois países são sete e cinco vezes maiores que as queimadas na Amazônia, respectivamente. Por outro lado, as medições feitas na Amazônia central, durante o Experimento ABLE-2B (Atmosphe- Página seguinte