Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 844 | página 38-39
| AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA | (continuação) com a doutrina católica, sofreu um ataque8 intransigente do Pe. Juarez de Castro. Excluindo qualquer possibilidade de ‘diálogo’, durante homilia pontificou que tinham "cometido pecado" todos os que haviam compartilhado o vídeo. Curiosa intolerância em defesa do controverso texto... Só o ecumenismo legítimo — ou seja, a adesão de todos à verdade ensinada pela doutrina perene da Santa Igreja Católica — poderá evitar tantos desacordos e enfrentamentos. Qualquer outro caminho é de fato descaminho.

Bispos divididos em meio à divisão

A Campanha da Fraternidade causou também rachaduras nos meios episcopais. O bispo de Formosa (GO), D. Adair José Guimarães, censurou o texto-base, recomendando: "Não fiquemos escutando coisas que não têm nada a ver com a nossa fé. Toda essa confusão com campanha da fraternidade […] esqueça isso! [...] Quem está fora do rumo, quem não segue a Sagrada Escritura, a tradição e o magistério ordinário da Igreja, bate com a cabeça no muro".9 D. Fernando Guimarães, Arcebispo do Ordinário Militar do Brasil, em carta pública enviada a D. Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB, declarou: "A evangelização dos fiéis, no entanto, em qualquer tempo e ainda mais em um tempo especial como é a quaresma católica, não é espaço para se dialogar sobre temas polêmicos e contrários à autêntica doutrina de nossa Igreja".10 O arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, D. Gil Antônio Moreira, orientou as igrejas de sua arquidiocese a não utilizarem o texto-base da Campanha da Fraternidade. Em comunicado, argumentou que "neste ano, houve uma grave falha com relação ao texto-base que tem provocado séria polêmica, por apresentar conceitos duvidosos em relação à doutrina social e à moral cristã, sendo a autora adepta de correntes morais não aceitas pela Igreja Católica". 11 Do outro lado do ‘diálogo’, o já mencionado D. Pedro Stringhini: "Quem está falando contra a Campanha da Fraternidade é católico diabólico, é católico que não gosta dos pobres".12 Convém perguntar se D. Stringhini vê ‘católicos diabólicos’ nas pessoas de D. Adair José, D. Fernando Guimarães e D. Gil Antônio Moreira. Seja qual for sua resposta, não há como escapar à conclusão: a Campanha da Fraternidade suscitou divisões também entre as autoridades da Igreja. Diante da celeuma, a CNBB se viu obrigada a emitir nota na qual admite parcialmente problemas no texto-base. Usando como justificativa o ecumenismo, a nota declara: "Não se trata [...] de um texto ao estilo do que ocorreria caso fosse preparado pela comissão da CNBB. [...] Deve ser assim compreendido, como o foi nas Campanhas da Fraternidade levadas a efeito de modo ecumênico".13

Doutrina católica negligenciada

Em toda essa polêmica, a mais grave ruptura provocada pela campanha se aplica em relação ao próprio magistério da Igreja Católica. Para confirmá-lo, basta ler o documento "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", emitido em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé: "A tendência sexual não constitui uma qualidade comparável à raça, à origem étnica, etc. no que se refere à não-discriminação. Diferentemente destas, a tendência homossexual é uma desordem objetiva e requer solicitude moral. Existem setores nos quais não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, no trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar" (nº 10).14 Assim, de acordo com a Congregação para a Doutrina da Fé, não existe um direito à homossexualidade; e tal tendência não pode servir de base para reivindicações jurídicas. Porém, contrariando as diretrizes acima, o texto-base da Campanha da Fraternidade afirma: "Outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+" (nº 68). Ainda de acordo com o texto-base, os homicídios cometidos contra essa população "são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+". Tendo em vista o documento exarado pela Congregação para a Doutrina da Fé, estaria a Igreja Católica praticando ou patrocinando o "fundamentalismo religioso" no Brasil? Como conciliar com o cumprimento devido às normas da Congregação a adesão da CNBB ao texto da Campanha da Fraternidade? A confusão e a discórdia se patentearam de maneira inequívoca nesta Campanha da Fraternidade Ecumênica. Tudo em nome de distorcidos conceitos de diálogo e fraternidade. Só o ecumenismo legítimo — ou seja, a adesão de todos à verdade ensinada pela doutrina perene da Santa Igreja Católica — poderá evitar tantos desacordos e enfrentamentos. Qualquer outro caminho é de fato descaminho. Notas 1. https://campanhas.ipco.org.br/eu-nao-contribuo-com-a-campanha-da-fraternidade-ecumenica-da-cnbb-cf-2021 2. https://www.acidigital.com/noticias/bernardo-kuster-cnbb-financiou-instituicoes-contrarias-ao-ensinamento-da-igreja-92282?fbclid=IwAR1gGp_AhF6pzmqtPDuDmVCkwhUdGKrtLtlj1XBFA83RROhStsGE7bCDc-0#.YDf85j1UOCM.facebook 3. https://www.metropoles.com/brasil/pastora-que-coordena-a-campanha-da-fraternidade-teme-cruzada-santa 4. Cfr. Laicidade e direito ao aborto: intersecções e conexões entre o debate feminista secular e feminista religioso. Texto completo em: https://www.cfemea.org.br/images/stories/publicacoes/laicidade_direito_aborto.pdf 5. Idem, Laicidade e direito ao aborto, pág. 18. 6. Na pág. 18 do estudo, a pastora equivoca-se ao dizer que a CNBB publicou o livro "Homem e mulher: Deus os criou". Na realidade, a obra foi publicada em 2011 pela Editora Artpress, sem o concurso da CNBB. 7. Cfr. site Brasil de Fato: https://www.brasildefato.com.br/2021/02/17/campanha-da-cnbb-critica-necropolitica-e-e-atacada-por-catolicos-conservadores 8. https://www.youtube.com/watch?v=YldBrEe-tXc 9. Idem site Brasil de Fato: Campanha da CNBB critica... 10. Idem site Brasil de Fato: Campanha da CNBB critica... 11. Rádio Itatiaia, radioitatiaiajf.com.br › campanha-da-fraternidade-causa... 12. Idem site Brasil de Fato: Campanha da CNBB critica... 13. https://www.cnbb.org.br/presidencia-da-cnbb-divulga-nota-sobre-a-campanha-da-fraternidade-ecumenica-2021/ 14. https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19920724_homosexual-persons_po.html
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