Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 822 | página 36-37

| VIDAS DE SANTOS... | (continuação)

Muito rigoroso consigo mesmo, ele o era também com seus súditos. Por exemplo, "cochilar durante a oração era para ele uma falta tão notável, que não permitia ao faltoso celebrar o Santo Sacrifício, por causa do pouco respeito que assim manifestava diante do Senhor".

Romualdo tinha uma resistência incrível para as penitências, porque "era de uma natureza excepcional, [e] porque havia em torno dele um poder misterioso, que o preservava. Tinha o dom de arrastar, mas não sabia fazer-se querer". Seus subordinados acabavam achando excessivas suas penitências, e queriam ver-se livres dele, por isso "os atentados o puseram em perigo muitas vezes. [...] Mas Deus velava sobre sua vida e o livrava sempre".

Havia também os que abraçavam generosamente esse gênero de vida, e se santificaram. Por exemplo, São Bruno de Querfurt (970-1009), conhecido também pelo nome de Bonifácio, que alguns dizem ser parente do rei da Polônia e do Imperador Oto. Esse santo "tinha talentos superiores para a música e outras belas artes, e viveu muito tempo sob a direção de São Romualdo. Foi depois ordenado bispo e enviado pelo Papa para pregar o Evangelho na Rússia", onde foi martirizado. Vários outros discípulos do santo foram martirizados na Eslavônia, para onde o Papa os tinha enviado.

Incentivado pelo exemplo do filho, e arrependendo-se de sua vida tão mundana, o duque Sérgio quis também expiar suas faltas em um mosteiro, e alguns afirmam que acabou morrendo em odor de santidade.

Com o Imperador Oto III

Quando Romualdo já completara 80 anos, faleceu o abade da abadia de Classe, perto de Ravena. O Imperador Oto III devia indicar o sucessor, e deixou a escolha a critério dos monges. Oto ficou tão satisfeito com a indicação de Romualdo, que decidiu visitá-lo no lugar ermo onde morava, para convencê-lo a aceitar o cargo. Ficou como que hipnotizado quando o viu; e tão cativado com a conversa do contemplativo, que não se deu conta do tempo, tornando-se muito tarde para voltar à cidade. Num desses fatos comuns na Idade Média, Romualdo lhe ofereceu sua pobre enxerga para passar a noite, e Oto aceitou com muita gratidão e devoção.

Quando a cidade de Tivoli revoltou-se contra o governo imperial, matando seu representante, o Imperador condenou-a à invasão e pilhagem. O santo intercedeu, obtendo para ela o perdão; e o indulto para o cabecilha da revolta, o senador Crescêncio. Mas depois Oto decidiu executá-lo, apesar de sua promessa de indulto. Por insistência de São Romualdo, consentiu depois em expiar esse crime com um período de penitência num mosteiro.

Mais tarde o Imperador Henrique II, ouvindo as maravilhas que se contavam a respeito de Romualdo, quis também vê-lo, e convidou-o ao seu palácio. O santo, já muito idoso e alquebrado, foi visitar o Imperador. "Os magnatas ficaram pasmos diante daquele ancião definhado e desalinhado, que havia visto extinguir-se dinastias e suceder-se tantos acontecimentos, [...mas] ainda sabia dirigir, sem adulação, sua voz potente aos soberanos do mundo".

A Ordem dos Camaldulenses

Já muito idoso, São Romualdo quis retirar-se em lugar solitário, para melhor se entreter com Deus, e foi para junto dos Apeninos. Ali se recostou perto de uma fonte, e adormeceu. Teve então um sonho misterioso, no qual via nesse local uma escada como a de Jacó, na qual subiam monges de hábito branco indo para o Céu. Obteve então do proprietário dessa terra, o conde Máldulo, que lhe doasse aquele terreno para nele erguer ermidas. O local era conhecido por Campo de Máldulo, daí a Ordem ali fundada chamar-se Camáldula.

"Muitos grandes personagens seculares, eclesiásticos e regulares abraçaram esse instituto, e se tornaram filhos de São Romualdo. O santo adotou a Regra de São Bento, mas lhe juntou outras observâncias, e quis que seus discípulos fossem ao mesmo tempo eremitas e cenobitas", isto é, que vivessem isolados ou com alguns atos em comunidade. Isso porque "São Romualdo não queria claustro nos desertos. Como dele disse São Pedro Damião [seu discípulo e biógrafo], não considerava o mosteiro como destino, mas como lugar de passagem para principiantes e débeis, destinado a ser substituído pela solidão. Havia eremitas que permaneciam definitivamente na solidão, e outros que se juntavam para a reza do Ofício; uns que estavam obrigados a não falar durante 40 dias, e outros por 100; [...] além das Horas Canônicas, os eremitas camaldulenses tinham de rezar duas vezes por dia o saltério, ler, meditar e trabalhar, fazendo redes, cestos ou coisas parecidas. Vestiam um cilício de peles; jejuavam toda a semana, menos aos sábados e domingos; na quaresma, a pão e água somente".

O santo morreu no dia 19 de junho de 1027. Imediatamente após a sua morte, começaram a ocorrer inúmeros milagres em seu túmulo, de maneira que, apenas cinco anos depois, seus monges obtiveram da Santa Sé a permissão de erguer um altar sobre os seus restos mortais, o que equivalia, na época, a uma canonização. Quando Clemente VIII fixou sua festa em 1595, seu corpo estava ainda incorrupto. Entretanto, tendo sido roubado por mãos sacrílegas, reduziu-se a pó.

Sua festa, originariamente fixada para o dia 7 de fevereiro, foi transferida para 19 de junho, dia de sua morte. 

Episódio da vida eremítica. À direita, embaixo, São Romualdo prega para seus monges – Paolo Uccello, 1460. Galleria dell'Accademia, Florença (Itália).

Visão de São Romualdo – Andrea Sacchi, 1631. Pinacoteca do Vaticano.

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