| CAPA... | (continuação)
No Ancien Régime brilhavam ainda, e com muito fulgor, os melhores traços da cultura e do espírito francês: um esplendor na vida social, que bem se exprimia pela tríplice locução verbal "savoir dire, savoir plaire, savoir faire".
Depois da revolução protestante (1517), uma segunda grande explosão do processo revolucionário,1 preparada com longa antecedência, desencadeou a partir de 1789 na França uma série de transformações políticas, sociais e religiosas que inauguraram a era contemporânea. No conjunto das suas vertentes moderadas e radicais, difundiu ideias republicanas pelo mundo inteiro, derrubou monarquias milenares na Europa e abriu o caminho para a Revolução Comunista de 1917.
Os elementos mais radicais da Revolução Francesa estavam concentrados na facção jacobina. Segundo a utopia que os guiava, havia sobre os franceses dois jugos insuportáveis: o da superstição, representada pela Religião Católica; e o da tirania, constituída pelo governo monárquico. Com fervor "humanitário", levantaram-se os "amigos do povo" para dissipar as trevas da "superstição" eclesiástica e quebrar os grilhões da "tirania" real. A intenção aparente seria, no final do processo, devolver o poder ao povo, tornando-o seu único detentor. Se algum ingênuo imagina que era essa a intenção, o mínimo que esse mesmo ingênuo pode constatar é que o objetivo real era a evidente tirania que se implantou em todo o mundo.
A Revolução Francesa, túmida do espírito igualitário que não admite qualquer forma de desigualdade, e encharcada de sensualidade que recusa qualquer freio às paixões, se levantou contra o Ancien Régime (Antigo Regime), uma ordem social hierárquica e austera em muitos de seus aspectos. Deixando atrás de si uma montanha de ruínas e um mar de sangue,2 os revolucionários moderados e radicais derrubaram instituições e costumes milenares, que haviam feito da antiga França o país de todas as perfeições, objeto da admiração do mundo inteiro.
Minoria revolucionária impôs a ideologia anticristã
No Ancien Régime brilhavam ainda, e com muito fulgor, os melhores traços da cultura e do espírito francês: um esplendor na vida social, que bem se exprimia pela tríplice locução verbal "savoir dire, savoir plaire, savoir faire" (saber dizer, saber agradar, saber fazer). Bem vivos e dinâmicos eram também os princípios básicos da civilização cristã — a tradição, a família e a propriedade — dando consistência e elevação ao corpo social. Mas a inveja revolucionária via nessa consistência e nessa elevação uma forma de exploração das classes modestas. Para libertá-las, a solução seria derrubar o altar e o trono: Ni Dieu, ni maître (Nem Deus, nem senhor), segundo a formulação que servirá de base às agitações de maio de 1968 da Sorbonne.
A democracia instaurada na sequência da Revolução Francesa — o governo do povo pelo povo — contaminou praticamente todas as nações. Mas o resultado evidente é que as transformou em tremendas tiranias das minorias (auto-qualificadas como esclarecidas, avançadas, progressistas) sobre a maioria (pejorativamente rotulada de obtusa, retrógrada, conservadora). E não precisamos ir longe para colecionar exemplos. Já foi assim na própria fonte dessa revolução, que Augustin Cochin3 descreve como um movimento realizado por cerca de 200 mil agentes para mudar radicalmente o modo de vida de 25 milhões de franceses. Os revolucionários constituíam 0,8% da população francesa, mas impuseram sua ideologia anticristã à imensa maioria de seus compatriotas.
O rei reina, mas não governa
Após décadas de preparação tendencial e ideológica, a Revolução Francesa entrou em 1789 na sua fase mais conhecida: a dos fatos. Vários fatores — um deles, a participação na guerra de independência dos Estados Unidos — haviam contribuído para que o Estado francês se encontrasse deficitário. A Assembleia dos Notáveis do Reino, convocada em 1787, mostrara-se incapaz de oferecer uma proposta adequada para solucionar a crise financeira. O rei Luís XVI convocou então os Estados Gerais, compostos de representantes do clero, da nobreza e do povo. A última vez em que estiveram reunidos fora em 1622, no reinado de Luís XIII. Tinham caráter meramente consultivo, e o Rei nutria a esperança de receber sugestões idôneas que concorressem para sanear a bancarrota do Estado.
Inaugurados nos primeiros dias de maio de 1789, os Estados Gerais adjudicaram para si um poder que não possuíam, transformando-se logo num corpo único: a Assembleia Nacional; e semanas depois, em Assembleia Nacional Constituinte, numa clara usurpação do poder real. Luís XVI não tinha a personalidade de Luís XIV nem a energia de seu avô Luís XV, e chancelou a redação de uma Constituição para o Reino, ao invés de dissolver a Assembleia. Ficava posto de lado o objetivo primordial da convocação dos Estados
Catedral de Estrasburgo convertida em "Templo da Razão" durante a Revolução Francesa (Revolutions-Almanach de 1795. Göttingen 1794, p. 327).
Inauguração dos Estados Gerais – Auguste Couder (1789–1873). Musée national du château et des Trianons, Versailles.