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Condenação da família real em julgamento ilegal
Deposto o Rei, o que fazer dele? A ala radical jacobina não pretendia enviá-lo ao exílio, mas sim matá-lo com a cumplicidade do centrão formado pelos girondinos. Já no dia 11 de dezembro, a Convenção dispôs que Luís XVI fosse separado de sua família. O desfecho do processo — um verdadeiro escárnio da justiça — é por demais conhecido. Na madrugada de 18 de janeiro, 361 dos 720 deputados (a metade mais 1) votaram pela condenação à morte, sem apelo nem sursis. Detalhe horripilante dessa tragédia: o voto decisivo pela morte do Rei foi do Duque de Orleans, seu primo. Bastava ele omitir-se, e o Rei estaria salvo.7 Dois dias depois, ao rufar ensurdecedor dos tambores, a cabeça do Rei rolou no cadafalso, cercado por 15 mil soldados.
Na prisão do Templo permaneceram juntos, durante alguns meses, Maria Antonieta, seus dois filhos e Mme. Elisabeth. Em fins de setembro, levaram Maria Antonieta para a prisão da Conciergerie, que era por assim dizer a antecâmara da guilhotina. Após um julgamento infame e infamante,8 Maria Antonieta foi condenada à morte e guilhotinada no dia 16 de outubro de 1793.
Confinados na torre do Templo, restavam ainda o jovem rei Luís XVII, sua irmã Mme. Royale e Mme. Elisabeth. Em meio a todas as incertezas, esta foi para os filhos do Rei uma segunda mãe, executada em 10 de maio do ano seguinte. Dia por dia, contavam-se vinte anos da morte de seu avô Luís XV.
O martírio de Luís XVI, Maria Antonieta e Mme. Elisabeth era uma verdadeira "queima dos navios" para tornar a Revolução Francesa irreversível, mas atraiu sobre a cabeça de seus responsáveis imediatos o castigo divino: a máquina revolucionária começou a devorar seus filhos. Mal decorreram três semanas da execução de Maria Antonieta, subiu ao cadafalso no dia 6 de novembro de 1793 o regicida Filipe Égalité; em fins de marco de 1794 foi a vez de Hébert, panfletista obsceno e porta-voz dos sans-culottes. Danton seguiu-lhe os passos no dia 5 de abril. E três meses depois, em 10 de Thermidor (28 de julho), perderam a cabeça na guilhotina Robespierre, Saint-Just, Dumas e mais uma vintena de seguidores.
A queda de Robespierre sinalizou o término do regime do Terror, pois a opinião pública francesa estava cansada de tantos excessos. Era um retrocesso necessário para a revolução progredir. Outras fases se sucederam: Diretório, Consulado, Império. A obra revolucionária prosseguiu inexoravelmente sob outras formas, e continua avançando. Mas esta já é matéria para outro artigo.
Notas:
1. Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 1982, pp. 19-20.
2. Joseph de Maistre, em seu livro Considérations sur la France, J. B. Pelagaud, Lyon, 1880, calcula que a Revolução Francesa ceifou quatro milhões de vidas humanas, incluindo nesta cifra as vítimas das guerras napoleônicas, que exportaram para toda a Europa os princípios revolucionários de 1789. Só na campanha da Rússia morreram quase um milhão de soldados da Grande Armée.
3. Augustin Cochin, Les sociétés de pensée et la Démocratie: Études d´Histoire Révolutionnaire, Plon-Nourrit et Cie., 1921.
4. Esses arruaceiros, segundo Goncourt, eram cerca de seis mil indivíduos da pior espécie, não apenas de Paris, mas provenientes do interior da França e do estrangeiro. Haverá entre eles holandeses, prussianos, espanhóis e até americanos.
5. Louis-Charles de France (1785-1795) foi o segundo Delfim. Morreu prisioneiro na Torre do Templo, em condições deploráveis. O primeiro, Louis-Joseph, morreu em junho de 1789.
6. Mme. Royale, assim era chamada Marie Thérèse Charlotte de Bourbon (1778-1851), filha primogênita de Luís XVI e Maria Antonieta. Sobreviveu à prisão do Templo, casou-se com seu primo o Duque d'Angoulême e não teve descendência.
7. Robespierre murmurou espantado, ao ouvir o voto do regicida: "Que infeliz! Era o único que poderia abster-se, e não ousou fazê-lo!" (G. Lenotre, Les grandes heures de la Révolution Française, Perrin, Paris, 1962, p. 278).
8. Infame sob todos os pontos de vista: da ilegalidade do processo, da competência de seus juízes, da inexistência de razões e provas suficientes para a condenação. Acusaram-na, à falta de melhor, de haver pervertido sexualmente seu filho, o Delfim, criança de tenra idade.
O populacho aprisiona o rei nas Tulherias em 20 de junho de 1792.
Maria Antonieta conduzida para ser executada na Praça da Revolução. O Tribunal revolucionário a condenou à morte em 16 de outubro de 1793 (William Hamilton, séc. XVIII. Museu da Revolução Francesa, Grand Palais).