Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 822 | página 22-23

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era o maior santuário mariano da Cristandade, cujo maior tesouro é o véu de Nossa Senhora, uma relíquia venerada até hoje. De modo similar, Notre Dame de Paris conservou a Coroa de Espinhos desde que a Revolução Francesa depredou a Sainte Chapelle, construída para guardar essa santa relíquia.

Em 11 de junho de 1194, um pavoroso incêndio consumiu o teto de Chartres, que era feito em madeira como o de Notre Dame de Paris. O velho edifício ardeu durante três dias, sendo comparativamente bem maior que o de Paris. Em 1506, mais um fogo violento chegou a derreter até os sinos. O telhado de Chartres voltou a ser abrasado em 4 de junho de 1836, quando as chamas atingiram 15 metros de altura. Mas os bombeiros conseguiram salvá-lo, e dois anos depois ele estava refeito; contrariando o "desejo" da imprensa, que havia declarado a destruição "irreparável". Houve ainda tempestades de raios que atingiram a torre sul em 1539, 1573 e 1589; e contra a agulha, como agora em Paris, em 1701 e 1740.

O incêndio de 1194 foi furiosamente impiedoso. Só poupou a fachada ainda descolada da nave, e devorou boa parte da cidade (até hoje, em lojas e casas, há restos subterrâneos da velha cidade salvos do fogo). Mas Émile Mâle narra que a sofrida população não se angustiou tanto com suas perdas. Apinhada diante da catedral fumegante, e com lágrimas nos olhos, o que todos queriam saber era como se encontrava o véu de Nossa Senhora, mas não era ainda possível ingressar no recinto. De repente, como numa visão sobrenatural, viram sair uma procissão de dentro do amontoado de pedras calcinadas. Eram sacerdotes levando nos ombros o grande relicário, com o véu surpreendentemente preservado.

Os clérigos de Chartres haviam corrido para salvar a relíquia, mas ficaram envoltos pelo fogo e se refugiaram na cripta inferior, até que pudessem sair. A alegria foi imensa. No momento, o bispo, os cônegos e os homens ricos da região engajaram parte de suas fortunas e proventos para erigir uma nova catedral, ainda mais admirável. O mesmo gesto de generosidade que se repetiu agora, por numerosos milionários, empresas e particulares do mundo todo, em favor da restauração da catedral parisiense.

Entusiasmo, dedicação e penitência

Na Chartres de 1194, um entusiasmo jamais visto se irradiou até os campos, contagiou o país e o outro lado do Canal da Mancha. O Livre des Miracles de Notre Dame, escrito na época, descreve uma epopeia coletiva, onde multidões vieram oferecer seu trabalho. Ricos e pobres empurravam carroças carregadas de pedras e material de construção, mas também de vinho, trigo e alimentos para os voluntários engajados no imenso canteiro de obras.

Reviviam-se assim as jornadas de 1144, durante a construção das torres e da fachada. Robert de Torigni, abade do Monte Saint-Michel, escreve em sua Crônica: "Viram-se em Chartres fiéis que se atrelavam a carros carregados com pedras, madeira, trigo e tudo o que poderia ser utilizado nos trabalhos da catedral, cujas torres cresciam como por arte de magia. O entusiasmo tomou conta da Normandia e da França: em todos os lugares se viam homens e mulheres a arrastar fardos pesados através de pântanos lamacentos; por toda parte se fazia penitência; em todo lugar perdoavam-se os inimigos". Os voluntários de Pithiviers estavam tão cansados, quando atravessaram Puiset, que os habitantes locais quiseram aliviá-los da carga. Mas os de Pithiviers fizeram questão de honra carregar os fardos até o fim, pois não queriam perder os méritos da peregrinação.

O historiador sublinha que a França vivia num estado de heroísmo e desejo de ganhar méritos com o próprio sacrifício, o mesmo motor que levava os cruzados a reconquistar Jerusalém. O norte da França estava em comoção. A generosidade popular enchia os cofres de esmolas. A narração do milagre do véu de Nossa Senhora comovia as multidões. Repetiam-se as cenas dos anos anteriores, quando Haimon, abade de Saint-Pierre-sur-Dives, descrevia aos monges ingleses de Tutbury os eventos extraordinários da Normandia: "Vemos milhares de

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Imagem de Nossa Senhora que reina na catedral de Chartres. Abaixo, a catedral em foto tomada a partir de uma plantação de flores.

Notre-Dame de Chartres era o maior santuário mariano da Cristandade, cujo mais valioso tesouro é o véu de Nossa Senhora, relíquia nele venerada até hoje.