| PALAVRA DO SACERDOTE... | (continuação)
primeiros cânones dessa seção cominaram as seguintes condenações:
"Cân. 1 – Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus verdadeiro e próprio sacrifício, ou que oferecer-se Cristo não é mais que dar-se-nos em alimento — seja excomungado.
"Cân. 2 – Se alguém disser que Cristo não instituiu os Apóstolos sacerdotes com estas palavras: Fazei isto em memória de mim (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24), ou que não ordenou que eles e os demais sacerdotes oferecessem o seu Corpo e Sangue — seja excomungado".
A Santa Missa é, portanto, essencialmente um sacrifício, mais precisamente a renovação incruenta do único Sacrifício da Cruz — sem deixar de ser, ao mesmo tempo, "a ceia do Senhor" (1 Cor 11, 20), na qual se faz "a fração do pão" (Atos 2, 42). Por isso ela é celebrada sobre um altar — cujo significado original é pedra ou lugar elevado onde são sacrificadas as oferendas ou vítimas à divindade — e tendo no centro uma cruz, para lembrar que, mesmo sendo um "verdadeiro e próprio sacrifício", é um sacrifício relativo e não absoluto, pela sua identidade essencial com o sacrifício da Cruz. Tal identidade reside na identidade da Vítima e do Sacerdote sacrificador, que não são outros que o próprio Jesus Cristo. As circunstâncias exteriores são diferentes, mas nos dois casos Nosso Senhor realiza essencialmente o mesmo: Ele sacrifica-se a Si próprio ao Pai.
Não há, portanto, uma pluralidade de sacrifícios, mas um só sacrifício idêntico a si próprio, que foi realizado historicamente uma só vez, mas é atualizado misteriosamente sobre o altar de modo sacramental e incruento, tendo em vista que não há uma nova morte física de nosso Redentor.
Condenação do erro do protestantismo sobre a Missa
O Catecismo Romano do Concílio de Trento refere-se à Santa Missa como "um Sacrifício visível, em renovação daquele que pouco depois ia consumar-se na Cruz, de maneira cruenta, uma vez por todas"; mas logo depois acrescenta: "e cuja memória a Igreja havia de celebrar todos os dias" (Parte II, c. 4, XI, 3). O próprio Concílio que editou esse catecismo havia condenado o desvirtuamento operado pelos protestantes ao transformar a "ceia" em apenas um "memorial", e não um verdadeiro e próprio sacrifício: "Cân. 3. Se alguém disser que o sacrifício da Missa é [...] mera comemoração do sacrifício consumado na cruz [...] — seja excomungado".
Essa verdade foi reiterada pelo Papa Pio XII na sua encíclica Mediator Dei, com as seguintes palavras: "O augusto sacrifício do altar não é, pois, uma pura e simples comemoração da Paixão e Morte de Jesus Cristo, mas é um verdadeiro e próprio sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o sumo Sacerdote faz aquilo que fez uma vez sobre a Cruz, oferecendo-se todo ao Pai, vítima agradabilíssima" (n° 61).
A Missa Nova procura relegar o caráter sacrifical
Para favorecer o ecumenismo, e por uma espécie de respeito humano em afirmar o caráter de sacrifício da Santa Missa (como poderia um Deus bom desejar o sacrifício de uma vítima?!), na segunda metade do século XX esse caráter sacrifical foi diluído mediante formulações que apresentam a Eucaristia como uma oferta, sempre presente aos olhos de Deus no Céu, que a Igreja faz do sacrifício de Jesus no Calvário, mas sem que haja propriamente uma repetição sacrifical (sob forma sacramental). Ora, é preciso que haja na missa um ato sacrifical de Cristo, porque faltar-lhe-ia a sua identidade essencial com o sacrifício da Cruz se nela não houvesse uma oblação, mas apenas um simples memorial simbólico.
O sacrifício da missa é o ato supremo de adoração, impetração e ação de graças a Deus, enquanto renovação do sacrifício da Cruz. Mas outro aspecto importante que foi praticamente relegado é que a missa tem também um valor propiciatório para aplacar a honra Divina ultrajada, porque Nosso Senhor Jesus Cristo disse que seu Sangue seria derramado "para a remissão dos pecados".
Por isso, "ensina o santo Concilio [de Trento] que este sacrifício [da missa] é verdadeiramente propiciatório; e que, se com coração sincero e fé verdadeira, com temor e reverência, contritos e penitentes nos achegarmos a Deus, conseguiremos misericórdia e acharemos graça no auxílio oportuno (Heb 14, 16). Porquanto, aplacado o Senhor com a oblação dele e concedendo o dom da graça e da penitência, perdoa os maiores delitos e pecados" (Ibid., cap. 2). E no seu cânon 3, já parcialmente citado, afirma: "Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, [...] mas que não é propiciatório, ou que só aproveita ao que comunga, e que não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades — seja excomungado".
Infelizmente, a reforma litúrgica empreendida pelo Papa Paulo VI foi toda ela concebida para ressaltar o aspecto "ceia" da Santa Missa, colocando na sombra sua natureza sacrifical e seu fruto propiciatório. Daí resultou que os fiéis perderam quase completamente a noção do que é a essência da missa. E até os sacerdotes fazem afirmações erradas, como a do pároco do consulente cuja resposta hoje concluímos.
Missa em São João de Latrão – P. Villanueva, entre os séculos XIX e XX, Roma.