O Inocente condenado à morte num processo infame e ilegal
Selecionamos para esta Semana Santa, ligeiramente adaptados, trechos da excelente obra Jesus Cristo, Vida, Paixão e Triunfo, do Pe. Augustin Berthe.1 No capítulo 7 — Paixão e Morte de Jesus — o autor narra o divino oferecimento de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, aceitando o sacrifício supremo de ser crucificado e morto para redimir o gênero humano. Destaca ainda a ignóbil farsa montada no processo contra Jesus, resultado de uma diabólica conspiração para condenar de antemão o Inocente por excelência.
O Pe. Berthe expõe com muita eloquência os conciliábulos feitos no julgamento do Sinédrio dirigido por Anás e Caifás. Esses velhos e astutos sumos sacerdotes dos judeus quiseram inicialmente dar certa aparência de legitimidade ao julgamento, a fim de não levantar suspeitas no povo e não dar pretexto ao governador romano para anular a sentença condenatória. Mas não conseguiram dissimular suas iniquidades: praticaram gravíssimas ilegalidades, violaram todas as leis, não respeitaram sequer as formalidades normais de um processo legal.
Como na época o Sinédrio não tinha o poder de emitir sentenças capitais, por isso Jesus Cristo foi enviado depois ao governador romano, que em nome do Imperador detinha o poder de condenar à morte os habitantes da Judeia, encerrando-se o julgamento no palácio de Pôncio Pilatos.
A Direção de Catolicismo
Jesus acabara de entrar no horto de Getsêmani, cujo nome significa lagar de azeite. Naquele momento, o Pai Celeste considerou n’Ele apenas o representante da humanidade decaída, degradada por todos os vícios e manchada por todos os crimes. E Jesus consentiu em ser desde aquele momento unicamente o homem das dores. Deixou que a sua divindade se eclipsasse, e que lutasse sozinha com o sofrimento sua humanidade, com as suas debilidades, fraquezas e desolações.
Para não submeter os seus discípulos a uma prova dura demais, mandou-lhes que o esperassem à entrada do Horto: Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além para orar (Mt 26, 36). E tomou consigo Pedro, Tiago e João, aquelas três testemunhas da sua gloriosa transfiguração no Tabor. Só eles, fortalecidos com aquela grande lembrança, eram capazes de assistir ao espetáculo da sua angústia, sem se esquecerem de que era o Filho de Deus.
Não se faça a minha vontade, mas a tua
Na sua condição humana, o Filho de Deus encontrou-se diante da aterradora visão do suplício que ia sofrer. Um tédio profundo e um horror imenso, junto a uma tristeza que ninguém poderia sequer imaginar, apoderaram-se da sua alma, a tal ponto que irrompeu naquela exclamação angustiosa: A minha alma está numa tristeza de morte! Sem um milagre, a humanidade de Jesus sucumbiria ao peso da dor. Os três discípulos, comovidos e aterrados, olhavam para ele com ternura, mas sem ousar pronunciar uma palavra. Disse-lhes Jesus com voz trêmula: Ficai aqui e vigiai, enquanto Eu também vou orar (Mt 26, 38).
Afastou-se e andou com dificuldade até a gruta, que desde então passou a chamar-se Gruta da Agonia. Mas a terrível visão O seguia. Logo que ali chegou, viu perpassarem-lhe diante dos olhos os diversos instrumentos de suplício: cordas, flagelos, cravos, espinhos e uma cruz; verdugos, com a boca cheia de zombarias e blasfêmias, e uma turba em delírio a oprimi-lo com vilanias sem nome. Por um momento recuou horrorizado. Mas enfim, caindo de joelhos e com o rosto em terra, exclamou: Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua (Mt 26, 39).
Não pudeste velar uma hora comigo
Deus Pai, porém, queria que Ele bebesse o cálice até o fim, por isso nenhuma voz do Céu respondeu ao seu queixume. Aterrado, trêmulo e coberto de suor, levantou-se e caminhou com dificuldade para onde estavam os três discípulos, a fim de neles buscar alguma consolação, mas encontrou-os prostrados pela tristeza. Tão grande era a prostração deles, que mal reconheceram o seu Mestre. Queixou-se Ele daquele abandono, e dirigiu-se mais especialmente a Pedro, que momentos antes fizera tão belas promessas: Tu dormes, Simão. Não pudeste velar uma hora comigo? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26, 40-41).
Tendo assim estimulado os discípulos, voltou uma segunda vez à gruta. Reapareceu-lhe a visão ainda mais aterradora. Ele, o santo dos santos, viu-se coberto com uma montanha de pecados. Todas as abominações e todos os crimes, desde a prevaricação de Adão até o último pecado cometido pelo último dos homens, se levantaram diante d’Ele e a ele se juntaram, como se fosse Ele o culpado de todos. E bradou-lhe uma voz: Olha para todas essas monstruosidades. Pertence a ti expiá-las com sofrimentos proporcionados ao número e enormidade dos atentados cometidos contra Deus. Prostrado no pó, com o coração triturado e a morrer de dor à vista do pecado, ainda assim encontrou força bastante para tornar a dizer com sublime resignação: Meu Pai, se for preciso que Eu beba este cálice, faça-se a tua vontade. Tendo dito estas palavras, tornou outra vez aos discípulos, na esperança de encontrar junto deles algum conforto para a sua alma exausta; mas tinham os olhos sonolentos, e de tal modo se sentiam oprimidos pela tristeza, que não acharam uma só palavra para lhe responder.
Monstruosa ingratidão dos homens
Entrou pela terceira vez na gruta, para ali sofrer uma agonia mortal. Coberto com todos os pecados dos homens, e sofrendo tormentos inauditos no seu Corpo e na sua Alma, viu milhões de pecadores que, depois de resgatados por Ele, O perseguiam com os seus desprezos e ódios implacáveis através dos séculos. Viu-os perseguindo a Igreja, calcando aos pés a Hóstia Santa, profanando a cruz, blasfemando da sua Divindade, decapitando-lhe os filhos, trabalhando com todas as forças para conduzir ao inferno as almas, pelas quais iria dar o seu Sangue! À vista de tão monstruosa ingratidão, caiu Jesus ao chão como que aniquilado. O seu corpo estava banhado de suor e de sangue. Gotas de sangue saíam-lhe de todos os poros, corriam-lhe pelo rosto e caíam em terra. Contudo não cessava de orar, e com voz enfraquecida repetia ao Pai que estava pronto para beber até o fim o cálice das dores.
Inevitavelmente culminaria com a morte aquela inexprimível angústia, quando desceu do Céu um anjo para O consolar e fortalecer. No mesmo
NOTA: As ilustrações deste artigo, com exceção da primeira e das duas últimas, fazem parte da obra de Duccio di Buoninsegna La Maestà. Uma pintura em forma de retábulo feita entre 1308 e 1311, considerada a obra-prima do pintor. Inicialmente na Catedral de Siena, hoje em dia se encontra no Museo dell’Opera Metropolitana do Duomo de Siena.
O retábulo tem na frente uma grande cena da Virgem com o Menino cercada por anjos e santos, juntamente com outras cenas menores, enquanto na parte de trás há 26 cenas da Paixão de Cristo.
Legenda: Oração no Horto (La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.