(continuação)
em plena atividade evangelizadora, ele foi o exemplo perfeito do homem abastado que utiliza seus bens para melhor servir o Redentor e sua obra, ao contrário do “moço rico” do Evangelho, que recusou o chamado de Cristo por amor às riquezas. No Ocidente sua festa litúrgica é celebrada em 17 de março, e no Oriente em 31 de julho.
São Marcos escreveu que era um “ilustre membro do conselho, que também esperava o Reino de Deus; ele foi resoluto à presença de Pilatos e pediu o corpo de Jesus” (São Marcos, 15, 43)2. São Mateus, ao descrevê-lo, assinala ser um homem rico, discípulo de Jesus.
Peripécias históricas desconcertantes
Os evangelistas nos dão uma ideia do túmulo onde transcorreu a Ressurreição e indicam o local. Porém, o Santo Sepulcro, após a Paixão de Nosso Senhor, correu graves riscos de desaparecimento. Por isso, podemos considerar sua preservação um milagre histórico.
Jerusalém foi destruída no ano 70 d.C., após feroz guerra, e seus habitantes se dispersaram. Em 131, o Imperador romano Adriano mandou construir sobre suas ruínas uma cidade pagã de nome Élia Capitolina, para cuja edificação se empreenderam obras de terraplenagem imensas que soterraram a sepultura de Jesus. Sobre ela teria sido erigido um templo dedicado a Vênus (Afrodite para os gregos), deusa da sensualidade. Enquanto isso, os cristãos padeciam as perseguições.
Em 313, o Imperador Constantino encerrou as perseguições aos cristãos. Treze anos depois, sua mãe, Santa Helena, visitou Jerusalém em busca das relíquias da Paixão, e identificou o local da crucificação (o Gólgota) e a cova chamada Anastasis (“ressurreição”, em grego). O Imperador autorizou a construção de um santuário que substituiria o templo de Vênus, o qual ficou conhecido como basílica do Santo Sepulcro. Eusébio (265–339), bispo de Cesareia e pai da História da Igreja, registrou esses fatos.
Em 614, a igreja de Constantino foi gravemente danificada pelos persas sassânidas, pagãos que pilharam Jerusalém e arruinaram a basílica. Ela foi reconstruída por Heráclio, Imperador de Constantinopla, que reconquistou a cidade. Mas estava longe de terminar a sucessão de invasões, restaurações, depredações e guerras.
Em 638, toda a Palestina foi ocupada pelos invasores muçulmanos. Três séculos depois, em 966, as portas e o telhado da igreja arderam durante distúrbios. Em 1009, o califa fatímida Al-Hakim ordenou a destruição de todas as igrejas cristãs de Jerusalém, incluindo o Santo Sepulcro. Só restaram os pilares do templo da época de Constantino. A notícia dessa destruição foi decisiva para inspirar o movimento das Cruzadas.
O califa Ali az-Zahir, sucessor de Al-Hakim, permitiu que o Imperador de Bizâncio, Constantino IX Monômaco, e Nicéforo, Patriarca de Jerusalém, reconstruíssem e redecorassem a igreja. Foi essa a igreja que os cruzados encontraram em 1099, ao entrarem em Jerusalém. Eles a ampliaram e reconsagraram em 1149. No essencial, é a que existe atualmente.
Em 1187, o caudilho islâmico Saladino voltou a invadir a cidade, mas proibiu a destruição dos edifícios religiosos cristãos. No século XIV, o local passou a ser administrado por monges católicos e cismáticos gregos, aos quais se somaram outras denominações religiosas. Nos séculos seguintes foram feitas diversas restaurações, destacando-se a de 1810, por iniciativa britânica, após um grande incêndio, e as ocorridas entre 1863 e 1868. Em 1927, mais um abalo sísmico causou importantes estragos à estrutura da igreja.
Dúvidas sobre a autenticidade do Sepulcro?
Durante a restauração de 1810 foi erigida sobre o Santo Sepulcro uma estrutura conhecida como edícula (do latim aedicule, ou “casinha”), a qual estava há tempos exigindo outra restauração. Mas os responsáveis por ela não conseguiam chegar a algum acordo “ecumenicamente” porque vivem em perpétuo desentendimento.
(continua)
Legendas:
- A imperatriz Santa Helena mandou construir a primeira
igreja do Santo Sepulcro.
- Cruzados expulsam os muçulmanos de Jerusalém
- Mosteiro de São Bertin, c. 1200.
- Edícula, em cujo interior está o Santo Sepulcro, sendo restaurada.