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e pelo Vaticano. Onde imperava a tranquilidade, estouraram conflitos religiosos.Europa busca amparo no populismo
Após os atentados de Paris, o partido populista Front National, que luta contra a imigração, foi o mais votado do país nas eleições regionais de dezembro de 2015. O Partido Socialista, ao qual pertence o presidente Hollande, ficou em terceiro lugar (24). Na Alemanha, o eleitorado também recusou a política de acolhida de refugiados e infligiu severas derrotas à chanceler Angela Merkel, apologista da abertura aos fluxos islâmicos. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) causou um abalo ao ingressar nos Parlamentos de três estados com lemas como “garantam as fronteiras”.
O AfD foi o segundo partido mais votado na Saxônia-Anhalt; cresceu vertiginosamente em Baden Württemberg e na Renânia-Palatinado e marcou presença na metade dos Parlamentos estaduais (25). Em setembro, a chanceler Angela Merkel foi derrotada na capital, Berlim (26). Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, seu feudo eleitoral, ela perdeu para a AfD (27).
Em novembro, Merkel anunciou que se recandidataria à chefia suprema do país. Mas os reveses que seu partido sofreu nas eleições regionais, causados pelo favorecimento da imigração islâmica, prenunciaram o que ocorreria com a chanceler caso ela voltasse a se candidatar. Mais. Sua derrota seria a da própria União Europeia, onde os países do leste (Polônia, Hungria e outros) deslizam para regimes populistas, nacionalistas ou autoritários e acenam para Moscou. Merkel torna-se o capitão do malfadado Titanic europeu; tudo sugere que ela não permanecerá em sua liderança e ninguém tem competência para assumir o leme do transatlântico (28).
Na Itália, a coalizão de centro-esquerda do primeiro-ministro Matteo Renzi sofreu similar baque nas eleições municipais diante de candidatos populistas e anarquistas, sobretudo em Roma (29).
Em dezembro, 60% do eleitorado repeliu em referendo uma reforma constitucional. A recusa sinalizou um protesto, na linha do Brexit, contra a UE e uma defesa das características culturais regionais do país; abalou a utopia europeísta. Na Áustria, também em dezembro, o populista Partido da Liberdade anti-imigração e anti-UE, perdeu por pouco nas eleições presidenciais frente a chapa ecologista e de esquerdas anti-sistema. Os partidos “politicamente corretos” pro-UE ficaram de fora. Enquanto a Espanha se debateu durante todo o ano para formar um novo governo, na Inglaterra despencou um raio em céu sereno: o Brexit.
“Brexit”: toque de finados para a ordem pós-Yalta
A repulsa britânica à imigração islâmica e ao dirigismo burocrático da União Europeia propiciou que 51,9% do eleitorado aprovasse em plebiscito a saída do Reino Unido da UE. A Grã-Bretanha era um pilar dessa União e um dos alicerces da ordem, da segurança e da economia mundial. O Brexit marcou a ascensão do populismo identitário, reivindicador dos valores nacionais, e representou o toque de finados da pax espúria estabelecida com a Rússia através do Tratado de Yalta no fim da II Guerra Mundial (30). O establishment político britânico demitiu-se em massa.
Na França, o Front National pediu o Frexit; na Holanda, o Partido da Liberdade, contrário ao Islã e à imigração, exigiu um Nexit; e na Suécia, enquanto os Democratas Suecos lutavam pelo Swexit, o Partido da Esquerda exigia renegociar a adesão do país ao bloco. Na Alemanha, Beatrix von Storch, da AfD, pediu a renúncia de todo o comando da UE (31).
Maiorias nacionais horrorizadas pelo fanatismo religioso do Islã, britânicos alardeados, europeístas desconcertados, políticos exaltados da extrema-direita e da esquerda radical formaram um cocktail explosivo que passou a pedir plebiscitos análogos em pelo menos 19 capitais: as entranhas da Europa foram sendo devoradas pela incerteza (32).
A grande mídia viu na vontade popular britânica um “fracasso democrático”, uma “verdadeira insanidade”, uma “roleta-russa”, porque “ninguém tem noção das consequências” (33), um “abalo sísmico de proporções históricas que terá impacto corrosivo na ordem mundial estabelecida depois da Segunda Guerra”. “Retóricas de ódio e xenofobia [percorrem] os países que acolhem esses refugiados. [...] A dissolução da Europa como bloco reforça nações como Rússia e China, cujos sistemas políticos não são confiáveis. O mundo está sendo redesenhado por processos incontroláveis, que põem em questão a democracia e o capitalismo liberal” (34), escreveu “O Globo”.
Para o colunista Gilles Lapouge, na Europa “a morte tem à disposição todo um exército de exilados prontos a atacar [...] a Europa se desintegra. O sonho de uma Europa unida, comunitária, sem fronteiras, sucumbe sob as multidões alucinadas” (35). Nigel Farage, um dos líderes do Brexit, foi recebido como herói na convenção do Partido Republicano dos EUA, nação mais contagiada pela nova tendência, que perpassou países e cruzou os oceanos.
Novo império turco contra a Europa?
A populosa Turquia, situada geograficamente no calcanhar da Europa, assistiu em julho a um “golpe militar” (foto) montado pelo seu presidente fundamentalista Recep Tayyip Erdogan. Foi o pretexto que ele encontrou para exterminar os últimos restos de oposição liberal ou democrática ao seu governo. A Turquia tem um pé na Europa e aspira ingressar na União Europeia, mas recai no fanatismo islâmico e sonha reconstituir o Império Otomano que outrora assaltou a Cristandade.
Sob o pretexto de repressão, Erdogan prendeu milhares de opositores, entre os quais 29 generais, mais de três mil soldados e 2,8 mil juízes e magistrados, provocando atrito com os EUA e a Europa (36). O novo ditador islâmico procurou logo apoio da Rússia, e engajou seus tanques nas guerras da Síria e do Iraque, que envolviam regiões separatistas turcas. Já no final do ano, Erdogan ameaçava enviar para a Europa milhões de refugiados, islâmicos na sua maioria, concentrados em território turco devido aos indiscriminados bombardeios russos na Síria, que os forçaram ao exílio. Em dezembro, o embaixador russo na Turquia foi assassinado em vingança pelos massacres de civis sírios causados por esses bombardeios.
Mais ameaças do Oriente
A partir do sul do Mediterrâneo, as invasões e o terror chegavam à Europa ex-cristã. Mas não eram melhores as notícias provindas do Leste. A “guerra híbrida” do Kremlin e a infiltração russa em ambientes políticos considerados imunes a Moscou constituíram fonte de contínua preocupação. A NATO dispôs um escudo antimíssil no Leste Europeu e Putin respondeu com o anúncio do míssil “Satan-2”, capaz de destruir a França ou o Texas, enquanto a mídia oficial russa preparava o país para um “holocausto atômico” (37).
Enquanto isso, os assassinatos políticos de dissidentes prosseguiam, a mando do Kremlin, na Rússia e no exterior (38). A participação russa na derrubada do avião MH-17 da Malaysia Airlines, em 2014, ficou patente no inquérito internacional publicado pela Holanda em setembro (39). O partido de Vladimir Putin se atribuiu esmagadora maioria nas eleições do mesmo mês, sem incomodar-se com as fraudes largamente documentadas na Internet (40). Ato contínuo o chefe do Kremlin deixou transparecer a criação de uma nova KGB com 400 mil homens, que agiriam sob suas ordens para reprimir as oposições populares (41).
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