A Reconquista da cidade de Buda, antiga capital da Hungria
Ivan Rafael de Oliveira
Uns após os outros, castelos, fortalezas e cidades iam sendo retomados pelos austríacos das mãos dos muçulmanos. Após tantas derrotas, Américo Thököly, que liderara a traição dos húngaros, foi preso por seus aliados muçulmanos e seria executado, se Solimão, “o trapaceiro”, não tivesse derrubado e substituído o grão-vizir, o Negro Ibrahim. O novo comandante deu liberdade a Thököly e enviou-o com novos destacamentos à Hungria.
Em artigo anterior, publicado na edição de maio de 2016, foram descritas as batalhas travadas pelo Império Austríaco, Polônia e Veneza, membros da Santa Liga, de 1683 a 1685, visando reconquistar os territórios católicos dominados pelos turcos. Neste artigo, enfocaremos a gloriosa batalha que libertou Buda, antiga capital da Hungria.
A Rússia entra para a Santa Liga
O Papa Inocêncio XI desejava ardentemente a libertação de tantas nações cristãs oprimidas pelos muçulmanos. No ano anterior, os poloneses alcançaram pouco sucesso em sua luta contra os turcos. Para favorecer as batalhas travadas em 1686, o Sumo Pontífice enviou 200 mil florins ao rei da Polônia, 100 mil oferecidos por Cardeais e 100 mil por damas romanas.
O rei da Polônia, João Sobieski, havia planejado grandes lances por parte da Santa Liga. Então, não só os turcos como também os tártaros deveriam ser rechaçados da Europa. Essa iniciativa ficaria a cargo da Rússia, caso esta aceitasse ingressar na Santa Liga. Visando à reconquista de Constantinopla, a Áustria deveria avançar a partir da Hungria, enquanto os venezianos viriam pelo sul da Grécia e os poloneses pelo rio Danúbio. Era desejo de toda a Cristandade obter a destruição do império sob Maomé IV, formado por Maomé II.
Em 26 de abril de 1686, a princesa Sofia Romanov, regente do Império russo, confirmou a aliança contra os turcos. Os russos deveriam atacar os turcos e os tártaros, desde o Cáucaso até o rio Dniester. Ficaria assim seriamente ameaçada a existência do Império Otomano.
Renasce o glorioso espírito de Cruzada
Sob o comando do duque Carlos de Lorena, na primavera de 1686 o exército imperial congregou-se na cidade de Komarno. Todas as regiões do império enviaram valiosos auxílios para a reconquista de Buda: apresentaram-se mais de seis mil suábios, oito mil de Brandenburgo, cinco mil saxões, oito mil bávaros e três mil francônios.
Incentivados pela vitória obtida em Viena e pela valentia dos que estavam na luta, alistaram-se também mais de sete mil voluntários provenientes de todos os países da Europa. O espírito das Cruzadas parecia ter retornado a empolgar a Cristandade. Personagens distintas e pessoas humildes chegavam decididas a morrer pela Cruz de Cristo. Os acontecimentos do cerco de Buda eram seguidos com grande expectativa em todo o continente europeu. Em julho, ainda chegaram mais regimentos vindos da Suécia.
Vários espanhóis eminentes destacaram-se na luta em torno de Buda. Só em Barcelona, 60 artesãos fizeram votos de combater os turcos; todos eles, durante o cerco, entregaram suas almas a Deus. Grande incentivo para eles foi a figura do príncipe Eugênio de Saboia, que, após a campanha de 1685, foi a Madri, sendo aí tratado pelo monarca hispânico como Grande de primeira classe. Nessa ocasião, Eugênio se apressou para tomar parte nessa grande expedição. Na corte de Viena, depositavam-se nele as maiores esperanças. O marquês Luís de Baden-Baden o havia recomendado ao imperador austríaco: “Esse jovem saboiano igualar-se-á um dia a todos aqueles que o mundo considera hoje como grandes generais”.
Por desejo do Imperador, o Papa enviou frei Marco D’Aviano ao exército cristão. O intrépido capuchinho, depois beatificado, teve por encargo ser mediador entre os chefes e entusiasmar os soldados.
O cerco da cidade de Buda
Os austríacos lançaram-se diretamente ao ataque contra Buda, deixando de lado — contrariamente à expectativa dos turcos — outras cidades importantes. Buda era a décima cidade mais importante do mundo muçulmano, considerada pelos turcos como a “casa da guerra sagrada”, baluarte limítrofe do Islã na Europa e chave do Império Otomano. Por isso, tinham-na abastecido bem de mantimentos, armas e pólvora. Para a defesa, posicionaram-se mais de 16 mil homens de tropas de elite, sob o comando de Abdulrahman Paxá.
O cerco começou em 18 de junho de 1686 e o primeiro assalto ocorreu no dia 24, dia de São João, visando o muro inferior. Os turcos instalaram muitas minas em ambas as partes dessa muralha. No dia 15 de julho, quando a explosão numa dessas partes abalou os muros da cidade, o general cristão deu o sinal de assalto. Infelizmente, a explosão de outra mina causou particular dano aos cristãos, e a investida foi rechaçada. Mais de 1.400 soldados imperiais morreram nessa batalha, além de muitos espanhóis, dentre os quais o Duque de Béjar, comandante de um regimento de Flandres.
Durante os 15 dias seguintes, é desfechado um bombardeio contra a cidade. Destacou-se na ocasião