Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 789 | página 22-23
| VIDAS DE SANTOS |(continuação)

Segundo o hagiógrafo grego do século X, Simeão Metafrastes — principal compilador das legendas dos Santos no calendário da Igreja Bizantina4 — Mateus era o chefe e o principal dos publicanos que residiam na cidade.

Profissão comparável à dos criminosos!

Como cobradores de impostos para Herodes Antipas, representante dos romanos, os publicanos eram odiados pelos judeus mais observantes, por julgarem um absurdo que eles, pertencendo ao povo eleito, cobrassem um tributo para um poder usurpador e, sobretudo, pagão. Com efeito, para eles “o pagamento do tributo ao estrangeiro era um ato ilícito, uma coisa proibida pela Lei, um verdadeiro sacrilégio; e, portanto, o que colaborava com esse sacrilégio fazia uma traição à pátria, associava-se aos ímpios, vendia-se aos gentios, e era mais execrável do que eles. Sua condição só podia comparar-se à dos criminosos e das prostitutas”.5

Entretanto, é preciso notar que, apesar de os publicanos serem tidos como pecadores pelos fariseus, sua profissão era lícita, e muitos deles eram judeus praticantes e agiam de boa-fé. É o que se vê no Evangelho de São Lucas, quando narra que entre os que iam batizar-se com o Precursor estavam publicanos, que lhe perguntaram: “Mestre, que havemos de fazer [para nos salvar]?”. São João Batista não lhes disse que deixassem sua profissão, mas para “não exigir nada além do que fora taxado” (Lc 3, 12-13). Quer dizer, que fossem honestos em seu trabalho. Pelo que se deduz que muitos entre eles podiam estar de boa-fé.

O mesmo São Lucas acrescenta também que “todo o povo, mesmo os publicanos, depois de ouvi-lo [ao Batista], conheceram a justiça de Deus, recebendo o batismo de João” (7,29).

O próprio Cristo Jesus disse aos príncipes dos sacerdotes e aos fariseus: “Os publicanos e as mulheres de má vida vos precedem no reino de Deus. Porque veio a vós João pelo caminho da justiça, e não crestes nele, ao passo que os publicanos e as meretrizes creram nele” (Mt 21,31-32).

“Hoje entrou a salvação nesta casa”

Zaqueu sobe na árvore para ver passar Nosso Senhor, que estando perto o chama.

Outro exemplo disso: Zaqueu, que era “chefe dos publicanos e rico”. Ele teve a graça de hospedar o Divino Mestre em sua casa, afirmando-Lhe: “Dou a metade dos meus bens aos pobres e, se a alguém defraudei em alguma coisa, devolvo-lhe o quádruplo”. Essa honestidade e retidão de consciência levou nosso Redentor a exclamar: “Hoje a salvação veio a esta casa, porquanto também este é filho de Abraão” (Lc 19, 1-10).

Por isso, segundo muitos teólogos, tudo leva a crer que o evangelista Mateus era honesto, religioso, de bons costumes e fiel cumpridor da lei de Moisés, o que atraiu o divino olhar de Jesus.

Mateus “levantando-se, seguiu-O”

“Passando Jesus dali, viu, sentado ao telônio, um homem por nome Mateus, e lhe disse: ‘Segue-me’. “E ele, levantando-se, seguiu-O”.

O próprio São Mateus nos narra seu encontro com Jesus. O Divino Mestre acabara de operar em Cafarnaum mais um de seus estupendos milagres, ao curar um paralítico cujos companheiros o haviam feito descer de modo dramático do teto ao meio da sala onde estava o Messias. Pouco depois, “passando Jesus dali, viu, sentado ao telônio, um homem por nome Mateus, e lhe disse: ‘Segue-me’. “E ele, levantando-se, seguiu-O” (10, 9). São Marcos e São Lucas dão praticamente a mesma versão.

O ilustre Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva (1867-1938) comenta assim essa passagem do Evangelho: “O mundo não compreende esse impulso irresistível de certas almas que, abandonando tudo, se consagram exclusivamente ao serviço de Deus. Deixemo-lo zombar do que não entende, pois só os que têm fé conhecem o segredo destes mistérios da graça. Era preciso que Jesus fosse bastante poderoso, que fosse verdadeiramente Deus, para que assim se fizesse obedecer tão prontamente e com toda abnegação.” 6

Por sua vez, afirma D. Guéranger: “Mateus tinha uma alma reta; e, iluminada por Deus, deixou tudo, cedeu a outro seu ofício, e seguiu Jesus. Desde então mereceu com razão ser chamado Mateus: o dom de Deus. Mas, quão maior era o dom que Deus fazia a Mateus! O Mestre veio escolher o que no mundo havia de mais baixo, o mais desprezado na ordem social, para convertê-lo em príncipe de seu povo, e elevá-lo à dignidade mais alta que existe na Terra depois da dignidade da Maternidade divina: a dignidade de Apóstolo.” 7

Admirável atração que exercia Jesus

Morando em Cafarnaum, onde o Divino Mestre estabelecera residência durante sua vida pública, Mateus deveria ter ouvido falar muito do Messias, e mesmo ter tido conhecimento ou assistido a algum dos muitos milagres que operava. “Aliás, se a sua conversão tivesse sido obra de um único instante, o fenômeno psicológico estaria em perfeita relação com o espantoso poder de atração que Jesus exercia sobre os corações.” 8

São Mateus era bem rico. Embora Nosso Senhor tenha dito que é muito difícil os ricos ganharem o Céu

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