enganarem mais facilmente os espíritos incautos, tenham adotado o costume de o torcerem em proveito de sua opinião, entretanto a divergência entre as suas doutrinas depravadas e a puríssima doutrina de Cristo é tamanha, que maior não podia ser. Pois, ‘que pode haver de comum entre a justiça e a iniqüidade? Ou que união entre a luz e as trevas?’ (2 Cor 6, 14)”.20
Se em vez de uma doutrina materialista, nossos pastores pregassem verdadeiramente o Evangelho, “esta verdade evangélica praticada em toda sua extensão e de acordo com todas suas exigências, é o maior complemento da justiça e a única solução estável e definitiva para estabelecer no mundo a paz e o bem-estar social”, diz o moralista, Pe. Royo Marin.21
Misericórdia e justiça
O Rei da França, Luís XVI, distribui esmolas aos pobres perto do Palácio de Versalhes – Louis Hersent, 1817. Museu do Palácio de Versalhes.
Aparentemente, há certa incompatibilidade entre a misericórdia e a justiça. Por exemplo, quando se trata de castigar um malfeitor. Em que ponto deve a justiça cessar para dar lugar à misericórdia? Entretanto, como explica Santo Tomás de Aquino, tal incompatibilidade não existe. Pois quando Deus usa de misericórdia, não obra contra sua justiça, mas faz algo que está acima dela. Por onde se vê que a misericórdia não destrói a justiça, mas, ao contrário, é a sua plenitude e perfeição. Por isso, diz o Apóstolo São Tiago: “Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13).22
Convém notar que em nossos dias, nos quais tanto se fala de “justiça social”, fala-se também, de modo equivocado, de misericórdia e de caridade. Pois, segundo certas correntes progressistas, os pobres e os necessitados “têm direito” às mesmas oportunidades que os outros. Omitem que os homens foram criados não para galgar postos nesta Terra, mas para se santificarem e assim alcançarem o Céu. Daí os chamados “movimentos sociais”, de inspiração marxista, pregarem a luta de classes, invadirem propriedades, roubarem e danificarem o bem alheio. É por isso que muitos da ala esquerdista do clero afirmam a necessidade de “menos caridade e mais justiça”, como eles a concebem.
Bem entendidas, a misericórdia e a caridade em nada se opõem ao exercício da mais estrita justiça, antes constituem o seu complemento. Pois, “longe de os diminuir, a caridade urge e apressa os direitos e exigências da justiça, já que, à luz da caridade evangélica, as relações humanas não se estabelecem unicamente no plano meramente natural de homem a homem, mas no plano sobrenatural de filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo”. 23
Um verdadeiro católico que vê seu irmão sofrer é levado, pelo amor que tem a Deus e ao próximo, a socorrê-lo na medida de suas possibilidades. Aliás, “as exigências da justiça podem cumprir-se de uma maneira fria e desumana, inclusive desprezando interiormente seu beneficiário, coisa que jamais poderá fazer a caridade cristã, obrigada como está em ver no necessitado um verdadeiro irmão e um membro padecente do Corpo místico de Cristo. Por outro lado, a justiça cumpre plenamente seu cometido quando dá estritamente o que deve e nada mais; a caridade, por sua vez, não se contenta com isto, mas vai muito mais longe, atendendo o próximo com generosidade e largueza até exceder as exigências da justiça. Por isso a caridade ou misericórdia não se opõem à justiça, mas, pelo contrário, é sua plenitude e perfeição”.24
Esta é a genuína doutrina católica, sempre ensinada na Igreja. Já dizia o Apóstolo Virgem: “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia. Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos. Aquele que não ama, permanece na morte. [...] Nisto conhecemos o amor de Deus: em ter dado a sua vida por nós; igualmente nós devemos também dar a vida pelos nossos irmãos. O que tiver bens deste mundo, e vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração, como está nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade. Por isto conhecemos que somos da verdade, e tranquilizaremos os nossos corações diante de Deus” (I Jo 3, 13 a 19).