Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 787 | página 36-37
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

enganarem mais facilmente os espíritos incautos, tenham adotado o costume de o torcerem em proveito de sua opinião, entretanto a divergência entre as suas doutrinas depravadas e a puríssima doutrina de Cristo é tamanha, que maior não podia ser. Pois, ‘que pode haver de comum entre a justiça e a iniqüidade? Ou que união entre a luz e as trevas?’ (2 Cor 6, 14)”.20

Se em vez de uma doutrina materialista, nossos pastores pregassem verdadeiramente o Evangelho, “esta verdade evangélica praticada em toda sua extensão e de acordo com todas suas exigências, é o maior complemento da justiça e a única solução estável e definitiva para estabelecer no mundo a paz e o bem-estar social”, diz o moralista, Pe. Royo Marin.21

Misericórdia e justiça

O Rei da França, Luís XVI, distribui esmolas aos pobres perto do Palácio de Versalhes – Louis Hersent, 1817. Museu do Palácio de Versalhes.

Aparentemente, há certa incompatibilidade entre a misericórdia e a justiça. Por exemplo, quando se trata de castigar um malfeitor. Em que ponto deve a justiça cessar para dar lugar à misericórdia? Entretanto, como explica Santo Tomás de Aquino, tal incompatibilidade não existe. Pois quando Deus usa de misericórdia, não obra contra sua justiça, mas faz algo que está acima dela. Por onde se vê que a misericórdia não destrói a justiça, mas, ao contrário, é a sua plenitude e perfeição. Por isso, diz o Apóstolo São Tiago: “Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13).22

Convém notar que em nossos dias, nos quais tanto se fala de “justiça social”, fala-se também, de modo equivocado, de misericórdia e de caridade. Pois, segundo certas correntes progressistas, os pobres e os necessitados “têm direito” às mesmas oportunidades que os outros. Omitem que os homens foram criados não para galgar postos nesta Terra, mas para se santificarem e assim alcançarem o Céu. Daí os chamados “movimentos sociais”, de inspiração marxista, pregarem a luta de classes, invadirem propriedades, roubarem e danificarem o bem alheio. É por isso que muitos da ala esquerdista do clero afirmam a necessidade de “menos caridade e mais justiça”, como eles a concebem.

Bem entendidas, a misericórdia e a caridade em nada se opõem ao exercício da mais estrita justiça, antes constituem o seu complemento. Pois, “longe de os diminuir, a caridade urge e apressa os direitos e exigências da justiça, já que, à luz da caridade evangélica, as relações humanas não se estabelecem unicamente no plano meramente natural de homem a homem, mas no plano sobrenatural de filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo”. 23

Um verdadeiro católico que vê seu irmão sofrer é levado, pelo amor que tem a Deus e ao próximo, a socorrê-lo na medida de suas possibilidades. Aliás, “as exigências da justiça podem cumprir-se de uma maneira fria e desumana, inclusive desprezando interiormente seu beneficiário, coisa que jamais poderá fazer a caridade cristã, obrigada como está em ver no necessitado um verdadeiro irmão e um membro padecente do Corpo místico de Cristo. Por outro lado, a justiça cumpre plenamente seu cometido quando dá estritamente o que deve e nada mais; a caridade, por sua vez, não se contenta com isto, mas vai muito mais longe, atendendo o próximo com generosidade e largueza até exceder as exigências da justiça. Por isso a caridade ou misericórdia não se opõem à justiça, mas, pelo contrário, é sua plenitude e perfeição”.24

Esta é a genuína doutrina católica, sempre ensinada na Igreja. Já dizia o Apóstolo Virgem: “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia. Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos. Aquele que não ama, permanece na morte. [...] Nisto conhecemos o amor de Deus: em ter dado a sua vida por nós; igualmente nós devemos também dar a vida pelos nossos irmãos. O que tiver bens deste mundo, e vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração, como está nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade. Por isto conhecemos que somos da verdade, e tranquilizaremos os nossos corações diante de Deus” (I Jo 3, 13 a 19).

Notas: 1. Plinio Corrêa de Oliveira, em sua obra Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo, (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1974, pp. 13 e ss.) explica que algumas palavras, em torno de seu significado legítimo, começaram a ser utilizadas pela imprensa “de um modo tão forçado e artificial, com ousadias tão desconcertantes e sentidos subjacentes tão vários”, que causava a impressão de que havia nisso algo de intencional, uma lógica interna, planejada e metódica, em que “cada palavra constituía um como que talismã a exercer sobre as pessoas um efeito psicológico próprio. E o conjunto dos efeitos dessa constelação de talismãs nos parecia de molde a operar nas almas uma transformação paulatina, mas profunda”. A isso o Autor qualificou de “palavras talismãs”. Assim, são usadas hoje em dia, entre outras, as palavras “justiça social” e “misericórdia”. 2. Pe. Mauricio Meschler, S.J., Historia de la Misericordia de Dios, in Explanación de las Meditaciones del Libro de los Ejercicios de San Ignacio de Loyola, Editorial Razon y Fe, S.A., Madri, 1951, p. 190. 3. Id. Ib. 4. Cfr. Pe. Royo Marin, O.P., Misericordia, Obrigatoriedad de las obras de misericórdia, in Gran Enciclopedia Rialp, tomo XVI, p. 16. 5. Pe. Royo Marin, O.P., Id. ib. 6. J.M. Casciaro Ramírez, V. Vegazo Sánches, Justicia, Sagrada Escritura, in Gran Enciclopedia Rialp, Ediciones Rialp, S.A., Madri, 1973, tomo XIII, p. 679. 7. Ramirez,Sanches,, Id.p. 680. 8. Id. Ib. 9. Bernardino Linares Montejano, Justicia, Filosofia, in Gran Enciclopedia Rialp, vol.cit., p. 681. 10. E.Brunner, o.c. La Justicia, México, 1961, p.173, apud Montejano, op.cit. p. 682. 11. Pe. Antonio Royo Marin, O.P., The Virtue of Justice and its Parts, in The Theology of Christian Perfection, The Foundation for a Christian Civilization, Inc., Nova York, 1987, pp. 378-379. 12. Miguel Angel Monge, op. cit., p. 697. 13. Luis Recaséns Siches, Justicia, Filosofia del Derecho, in Gran Enciclopedia Rialp, vol. cit., p. 683. 14. A Justiça está na desigualdade cristã, in “Jornal da Tarde” (SP), 9 de junho de 1979. 15. D. Geraldo de Proença Sigaud, S.V.D., D. Antônio de Castro Mayer, Plínio Corrêa de Oliveira e Luiz Mendonça de Freitas, Reforma Agrária – Questão de Consciência, Editora Vera Cruz Ltda., São Paulo, 1962, pp. 31, 32. 16. In Coleccion Completa de Enciclicas Pontificias, Editorial Poblet, Buenos Aires, p. 121. 17. Pe. Royo Marin, Theology of Christian Perfection, p. 643, nota 2. 18. Miguel Angel Monge, Justicia, Teologia Moral, in Gran Enciclopedia Rialp, vol. cit., p. 696. 19. Encíclica Humanum Genus, de 20 de abril de 1884, Editora Vozes, Petrópolis, pp. 20 e 21. 20. Encíclica Quod Apostolici Muneris, de 28 de dezembro de 1878, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, p. 8. 21. Pe. Royo Marin, Misericordia, in Gran Enciclopedia Rialp, Tomo XIV, p. 17. 22. Cfr. Pe. Royo Marin, Misericordia, in Gran Enciclopedia Rialp, p. 17. 23. Id. Ib. 24. Id. Ib.
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