não havia mudado um século depois. Razão pela qual Bento resolveu deixar casa, bens paternos e estudos, a fim de procurar um lugar em que pudesse servir melhor a Deus. Acompanhado de sua governante, que não quis separar-se dele, retirou-se então para Efide, modesta aldeia nas montanhas de Sabina.
Foi aí que ele operou seu primeiro milagre, reconstituindo uma jarra de barro quebrada por sua governante, que lamentava em prantos seu estabanamento por tê-la deixado cair no chão.
Para fugir à popularidade que se seguiu, Bento retirou-se, desta vez só, para as montanhas de Subiaco. Nesse lugar inóspito encontrou um monge de um mosteiro vizinho, Romão, que lhe conferiu o hábito monástico. Ele encarregou-se de sua alimentação, fazendo chegar à sua gruta, por meio de uma corda, a provisão diária de pão, que pegava em seu mosteiro.
Nesse isolamento, desconhecido de todos, exceto de Romão, Bento entregou-se à direção do Espírito Santo, que foi o seu verdadeiro guia espiritual e mestre de noviços.
Ele, entretanto, não estava só, pois o pai da mentira aparecia para provar o novo discípulo de Cristo. E tentou-o uma vez tão fortemente contra a virtude da pureza, que Bento se lançou entre urtigas e espinhos para que a dor fizesse calar os ardores da carne. A partir de então, não sentiu jamais as solicitações da luxúria.
O cálice que se parte
São Bento acompanhado de São Mauro e São Plácido, no momento em que um corvo leva no bico o pão envenenado com o qual tentavam matar o Santo.
A partir do momento em que Bento foi descoberto por caçadores, começaram a surgir seus primeiros discípulos, que levando como ele vida solitária, se reuniram em torno de sua cova. Os monges de um mosteiro vizinho forçaram-no depois a ser seu abade. Mas logo se arrependeram, pois o novo superior os fazia andar estritamente no caminho da observância monástica e do dever. Quiseram então envenená-lo, mas ele, abençoando o cálice em que com o vinho estava a peçonha, ele se partiu. O santo voltou então para sua cova.
Superior de doze mosteiros
Entretanto, os discípulos continuaram a afluir, mas desta vez em tão grande número, que foi preciso dividi-los em grupos de doze monges, em doze mosteiros diferentes, cada um deles regido por um abade sob a supervisão de Bento.
Sob a direção do grande abade, a existência dos primeiros monges beneditinos transcorria pacífica e prosperamente, dedicada por inteiro à oração e ao trabalho. Os milagres, a doutrina, a santidade de Bento lhe atraíam numerosas vocações. Mesmo de Roma afluíam nobres varões, desejosos de se tornarem seus discípulos, enquanto patrícios lhe entregavam seus filhos para que os educasse. Foi o caso dos meninos Mauro e Plácido, posteriormente também elevados à honra dos altares, que ficaram famosos na história de São Bento.
O Mosteiro de Monte Cassino
Novos dissabores fizeram com que Bento resolvesse partir, desta feita para um local entre Roma e Nápoles denominado Cassinum, antiga vila fortificada dos romanos. Ali se instalou com os que o seguiram na fortaleza abandonada, que ele reformou, dando origem à célebre Abadia de Monte Cassino.
Sob a direção do santo, o novo mosteiro floresceu. “Pai bondoso e ao mesmo tempo mestre rigoroso, o homem de Deus os corrige [os monges] e repreende sempre que necessário; nem uma só falta de seus discípulos, seja coletiva, seja pessoal, lhe passa inadvertida. Todos no mosteiro sabem por experiência que têm um abade extraordinário, a quem nada se pode ocultar de quanto pensam no mais recôndito da alma (Diálogos), de quanto fazem fora de casa. [...] Já em Subiaco, vários de seus milagres ressaltaram com força o valor da oração, da confiança na Providência, do trabalho, da obediência”6.
Os últimos anos de São Bento transcorreram no Monte Cassino. “A morte, ou melhor, o trânsito de São Bento – como é descrito por São Gregório Magno – tem a majestade, a elegância e a placidez de uma cerimônia litúrgica” 7. Ela ocorreu provavelmente no dia 21 de março de 547.
A Regra de São Bento
Para Bossuet, o erudito bispo e teólogo do século XVII, a Regra de São Bento é “uma suma de cristianismo, um douto compêndio de toda a doutrina do Evangelho, de todas as instituições dos Santos Padres, de todos os conselhos de perfeição. Nela sobressaem eminentemente a prudência e a simplicidade, a humildade e o valor, a severidade e a mansidão, a liberdade e a dependência; nela a correção desdobra todo o seu vigor, a condescendência todo o seu atrativo, a autoridade a sua robustez, a sujeição a sua tranquilidade, o silêncio a sua gravidade, a palavra as sua graça, a força o seu exercício, e a debilidade o seu sustentáculo” 8.
Figura moral de São Bento
Com o subtítulo “A figura Moral”, Dom Garcia M. Colombas, monge de Montserrat, na sua Introdução à Vida e Regra de São Bento, que estamos seguindo, nos oferece em rápidas pinceladas alguns traços da personalidade do santo, baseado no que este diz em sua Regra. Citaremos alguns deles.
Gravidade
“Uma das características que chama a atenção ao contemplar a figura moral do santo é a austeridade, a dureza, a virilidade de seu caráter, marcado pelo selo