Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 492 | página 20-21
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Assim, se um Carlos Chagas, ou um Oswaldo Cruz, estivesse vivo hoje, ele se destacaria certamente como representante natural da classe médica em todo o País. Na Câmara, pela natureza de sua celebridade, e pelo cunho específico de seu mandato, seria ele o porta-voz dos colegas. Porém não só deles. Os habitantes da região onde nasceu, seus companheiros e amigos no campo das relações sociais e do lazer etc., todos os brasileiros inteirados de seus feitos e de seus méritos através da mídia, se sentiriam - a um título ou a outro - representados por ele.

Análoga coisa se pode dizer de outras profissões, como comerciantes, industriais, agricultores, professores, militares, diplomatas, bem como funcionários públicos das mais diferentes atividades, engenheiros, advogados e técnicos de toda ordem.

Esta enumeração, meramente exemplificativa, de modo nenhum exclui, a seu modo, os representantes de quaisquer outros grupos sociais ou profissionais, desde os mais elevados na escala social, até os mais modestos: proprietários rurais tanto como bóias-frias ou colonos, proprietários urbanos tanto quanto locatários, empresários industriais ou comerciais como trabalhadores na indústria ou comércio. E há que incluir ainda, nessa lista, grupos ou categorias naturais de outra índole, como associações de filatelia, de enxadrismo, de esportistas, de atividades recreativas honestas etc.

Enfim, as pessoas notáveis de todos os ramos de atividade devem ser particularmente viáveis como candidatos a um mandato eletivo, especialmente quando este tem missão constituinte.

Por sua vez, estes não aspiram naturalmente a ser deputados ou senadores ad aeternum.

A eleição para um mandato legislativo lhes é honrosa, lhes enriquece o curriculum vitae. Mas a necessidade de estar sempre na vanguarda da profissão ou campo de atividade em que adquiriram destaque, impede que eles dediquem toda a sua existência à política. Sua notabilidade profissional é o pedestal de seu êxito político.

E, portanto, é só excecionalmente que eles limitam tal atividade em benefício de sua notoriedade política. A notoriedade é a causa do seu mandato; não é o mandato a causa de sua notoriedade.

É a esse elevado tipo de profissional que se deve designar honrosamente de profissional-político.

Já aludi anteriormente à missão das grandes instituições sociais, em tal matéria. Convém tratar mais especialmente de duas delas.

Em primeiro lugar, cumpre ressaltar o papel de uma instituição de importância ímpar, ainda mesmo nos dias que correm, isto é, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Este organismo episcopal se vem utilizando do enorme prestígio - do qual gozou antes de eclodir a atual crise na Santa Igreja, e que, em certa medida, ainda conserva - para modelar a seu gosto a opinião pública, no tocante a determinados problemas socioeconômicos de relevo. Entretanto, com isto tem ele relegado para segundo plano uma série de temas de primordial importância religiosa e moral no que diz respeito, não só ao bem comum espiritual, como ao bem comum temporal.

Essa inversão de valores é gravemente responsável pelo minguamento progressivo do prestígio da CNBB.

Fizesse ela cessar essa inversão, e reprimisse eficazmente tantas extravagâncias e abusos que, sob a ação da crise na Igreja, se tem alastrado no Brasil como alhures, e esse prestígio poderia voltar ao seu primitivo esplendor.

Em segundo lugar, cabe falar da mídia, a qual se tem mostrado muito uniforme.

Uma mídia mais ricamente diferenciada, do ponto de vista ideológico, doutrinário e cultural, poderia servir de meio de expressão e de consequente aglutinação de inúmeras almas que se calam. E a vida pública brasileira adquiriria assim a amplitude e a vitalidade que lhe faltam.

Não é difícil admitir que toda essa vida, comprimida pelo anonimato a que a relega capitalismo publicitário, se "vingue", recolhendo dentro de si as riquezas de pensamento que muitas vezes possui.

Daí resulta em parte a monotonia da nossa vida pública: "monotonia" no sentido etimológico do termo. A "mono-tonia", sim, que instila o tédio político no grande público. E produz a "a-tonia" de considerável parte do eleitorado.

Concluindo. Um país que fosse movido muito mais por intuições do que por um pensamento político e por uma cogitação doutrinária séria, não poderia chamar-se um país-de-ideias. A ser ele democrático, constituiria uma democracia-sem-ideias.

O texto deste artigo é uma condensação bastante sucinta da primeira parte da obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira Projeto de Constituição angustia o País, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1987. Esta obra empolgou a opinião pública a tal ponto, que os propagandistas da TFP chegaram a vender, dela, mais de mil exemplares diários.


Plinio Corrêa de Oliveira: o que a TFP pensa da Democracia-sem-ideias

O Brasil-Império foi muito mais autenticamente uma democracia-com-ideias, do que o é, ao cabo de cem anos, o Brasil-República

Visconde de Abaeté, Visconde do Rio Branco, os Conselheiros João Alfredo e Zacarias de Góis Vasconcelos, o Duque de Caxias e o Visconde do Cruzeiro, na abertura da Assembleia Geral em 1872.

A distinção entre democracia-com-ideias e democracia-sem-ideias leva a um tema que deve ser analisado com particular objetividade.

Extrapartidária por definição, a TFP não opta por formas de governo. Ela aceita o ensinamento de Leão XIII, confirmado por São Pio X, de que nenhuma das três formas de governo - monarquia, aristocracia ou democracia - é intrinsecamente injusta. Segundo a doutrina tradicional da Igreja, qualquer dessas formas é legítima, "desde que saiba caminhar retamente para seu fim, a saber, o bem comum, para o qual a autoridade social á constituída" (Leão XIII, Encíclica Au Milieu des Solicitudes, de 16-2-1892, Bonne Presse, Paris, vol. III, p. 116).

A tese de que "só a democracia inaugurará o reino da perfeita justiça!", esposada pelo movimento modernista Le Sillon, foi explicitamente condenada pelo Papa São Pio X, em princípios deste século: "Não é isto uma injúria às outras formas de governo que são rebaixadas, por este modo, à categoria de governos impotentes, apenas toleráveis?" – exclama, em candente apóstrofe, o imortal Pontífice (Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, de 25-8-1910 - Coleção Documentos Pontifícios, Vozes, Petrópolis, 1953, 2ª ed., vol. 53, p. 14. Cfr. também Leão XIII, Encíclica Diuturnum IlIud, de 29-6-1881. Coleção Documentos Pontifícios, Vozes, Petrópolis, 1951, 3ª ed., vol. 12, pp. 5-6).

A TFP não exorbita de sua posição extrapardária ao pleitear que, uma vez instalada uma forma de governo, esta seja aplicada com coerência.

Assim, posto que estamos em regime democrático, cumpre que seja ele coerente. O que certamente conduz à vigência da democracia-com-ideias, E à rejeição da democracia-sem-ideias.

Manda a verdade que se reconheça não ter o regime republicano, nestes cem anos de vigência, conseguido formar, nas camadas profundas do País, um conjunto de hábitos intelectuais e morais, bem como de instituições partidárias, culturais e outras, que criassem entre nós um ambiente cívico-político denso de cogitações patrióticas, quer filosóficas, religiosas e culturais, como também políticas, econômicas, sócio-políticas e socioeconômicas, voltadas para os grandes problemas do mundo contemporâneo, bem como para as realidades concretas do País.

Cumpre confessar - sem qualquer eiva de partidarismo - que o ambiente político do Brasil-Império apresentava, a esse respeito, maior riqueza de conteúdo intelectual. Questões como a libertação dos escravos, ou a alternativa monarquia-república, interessavam muito mais ao quadro eleitoral, nos dias remotos do Brasil-Império, do que a Reforma Agrária, a Urbana e a Empresarial vão interessando a massa da população nas grandes cidades do País.

O Brasil-Império foi muito mais autenticamente uma democracia-com-ideias, do que o é, ao cabo de cem anos, o Brasil-República.


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