mais claro um ponto da Mensagem de Fátima, evidentemente relacionado com os interesses da Religião?
O Cardeal Alfredo Ottaviani quando esteve em Fátima, no dia 13 de maio de 1955. No dia 17 ele visitou o Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, e conversou com a Irmã Lúcia.
O Pe. Joaquín Maria Alonso, cordimariano espanhol, foi encarregado pelo segundo Bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio, de publicar uma edição crítica dos documentos relativos a Fátima.
Os três videntes — Jacinta, Lúcia e Francisco — numa foto tirada por ocasião das aparições.
No livro "Rapporto sulla fede" (1985), o Cardeal Joseph Ratzinger aborda a atual crise da Igreja e responde a uma pergunta sobre o Segredo de Fátima.
No início da década de 60, a crise na Igreja se tornou evidente para todo o mundo
A maioria dos peritos em Fátima, como se viu, é concorde em afirmar que o 3º Segredo trata da crise na Igreja.
Tentando relacionar o Segredo de Fátima com o que se passou no mundo no início da década de 60, é impossível não pensar no Concílio Vaticano II, com o qual veio a furo a atual crise na Igreja. Este é um fato histórico que independe de qualquer avaliação — favorável ou contrária — que se faça, do ponto de vista dogmático, moral, pastoral ou canônico, e mesmo político, do mérito intrínseco do Concílio.
Com efeito, é notório que o Concílio desencadeou uma turbulência dentro da Igreja, cujos primeiros ímpetos os espíritos mais atilados vinham percebendo há décadas, mas que o público só então passou a notar. A propósito das resoluções conciliares, se desataram impulsos até esse momento represados, seguindo-se um relaxamento geral da disciplina, de religiosos e seculares, de eclesiásticos e leigos, como nunca se vira. A Liturgia anarquizou-se, a vida paroquial alterou-se profundamente. De força oposta ao comunismo, numerosas organizações católicas passaram a fazer frente comum com os adeptos do marxismo, propugnando os mesmos objetivos.
Enfim, não é o caso de descrever aqui os múltiplos aspectos da crise da Igreja, mas apenas de registrar que eles foram se tornando cada vez mais patentes à medida que se desenrolavam as sessões do Concílio, e principalmente depois que ele foi promulgado.
Não cabe igualmente analisar se estes eram frutos necessários da forma como foi conduzido e aplicado o Concílio, ou se as coisas poderiam ter corrido de outra maneira. Cumpre apenas registrar o fato histórico, em vista de relacioná-lo com o Segredo de Fátima.
E a pergunta então se impõe:
— Tudo isto não poderia estar enunciado no 3º Segredo? — Pode-se conjecturar que sim. A indicação da Irmã Lúcia de que este se tornaria mais claro a partir de 1960, fala fortemente nesse sentido.
Alguém poderia objetar que, a priori, tal suposição é injuriosa ao Concílio, e importa numa avaliação extremamente negativa de seus frutos, quiçá mesmo numa rejeição de seus documentos e decretos.
Sem entrar na vexata quaestio de se todo o Concílio Vaticano II é interpretável ou não de acordo com a Tradição da Igreja, e, portanto, se pode ou não ser rejeitado por um católico fiel à Igreja — questão controvertida nos próprios meios tradicionalistas — importa considerar aqui que o mesmo Pontífice Paulo VI, que promulgou o Concílio e dele esperava os melhores frutos, em sucessivos pronunciamentos se mostrou decepcionado e mesmo amargurado. Suas palavras são de uma eloquência insofismável (como o Pontífice falava de improviso, a Poliglotta Vaticana apresenta um resumo da Alocução, citando entre aspas apenas as palavras textuais):
Referindo-se à situação da Igreja de hoje, o Santo Padre afirma ter a sensação de que "por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus". Há a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, a insatisfação, o confronto. (...)
Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. (...)
Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. O seu nome é diabo, este misterioso ser a que também alude São Pedro em sua Epístola [que o Pontífice comenta na Alocução]. Tantas vezes, por outro lado, retorna no Evangelho, nos próprios lábios de Cristo, a menção a este inimigo dos homens. "Cremos — observa o Santo Padre — que alguma coisa de preternatural veio ao mundo justamente para perturbar, para sufocar os frutos do Concilio Ecumênico, e para impedir que a Igreja prorrompesse num hino de alegria por ter readquirido a plenitude da consciência de si" (Alocução Resistire fortes in fide, de 29 de junho de 1972, Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, pp. 709-710).
Já anteriormente, o mesmo Pontífice manifestara análoga perplexidade:
A Igreja atravessa hoje um momento de inquietude. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. E como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas posto que "bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu", fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que dela fazem parte (Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, em 7 de dezembro de 1968, Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
O historiador de Fátima fica, pois, perfeitamente à vontade para estabelecer a correlação entre o 3º Segredo, a crise na Igreja e o Concílio Vaticano II, sem entrar, de forma alguma, na avaliação do mérito do Concílio enquanto tal.
A grande razão: a revelação do Segredo alentaria os tradicionalistas e prejudicaria gravemente os progressistas
Fica, entretanto, de pé a pergunta inicial: por que não é revelado o Segredo? Se ele trata da crise na Igreja, e esta é patente aos olhos de todos, qual o inconveniente em divulgá-lo?
O maior perito nos assuntos de Fátima, Pe. Joaquín Maria Alonso CMF, dedicou ao tema vários estudos. E acabou sendo atraído a dar resposta a esta pergunta. Seu pensamento a respeito foi se fixando, à medida em que ele progredia em suas pesquisas.
No livro La verdad sobre el secreto de Fátima, publicado em 1976, ele pondera:
"E bem possível que [o 3º Segredo] não fale apenas de uma verdadeira 'crise da fé' na Igreja (...) , mas que, como o faz, por exemplo, o segredo de La Salette, tenha referências mais concretas às lutas intestinas entre os católicos; às deficiências de sacerdotes e religiosos; talvez se insinuem até as deficiências da alta Hierarquia da Igreja. (...)
"Uma fenomenologia elementar dos acontecimentos internos da Igreja pós conciliar demonstra um estado lastimável, bem apontado pelo Papa Paulo VI, (...) em que a Igreja se encontra sem alegria, sem firmeza, sem apoio e sem força interior para agir diante de um mundo invasor que pretende reduzi-la a uma instituição secular. (...)
"Uma conclusão parece certa: o conteúdo da parte inédita não se refere a novos cataclismos político-bélicos, mas a acontecimentos de índole religiosa intereclesial, ainda muito mais graves em si mesmos" (op. cit., Centro Mariano, Madrid, pp. 72 a 75).
Como se vê, o Pe. Alonso estabelece a mesma correlação entre o 3º Segredo, a crise da Igreja e os acontecimentos internos na Igreja pós conciliar. E, ademais, aduz, em apoio de suas considerações, o mesmo pronunciamento de Paulo VI que acaba de ser citado. Seu pensamento se volta, em particular, para as "lutas intestinas entre os católicos", outro fato, aliás, que está ao alcance da vista de qualquer fiel.
Desse modo é que o Pe. Alonso foi conduzido a formular, algumas semanas antes de sua morte, ocorrida em 12 de dezembro de 1981, a explicação mais cabal das razões que tolhem à Santa Sé a divulgação do Segredo:
"O conteúdo do texto inédito do Segredo não poderia ser entendido — como dizia Lúcia ao Cardeal Ottaviani — senão por volta do ano de 1960, isto é, quando na Igreja se manifestam as fortes tensões que haveriam de precipitar a convocação do Concilio; que nele se manifestariam fortemente, e teriam repercussões tremendas na vida da igreja de nosso dias. Uma revelação extemporânea do texto somente teria produzido uma exasperação maior entre as duas tendências que continuam dilacerando a Igreja: um tradicionalismo que se creria assistido pelas profecias de Fátima, e um progressismo que clamaria contra as aparições de Fátima, as quais, de uma maneira tão escandalosa, pareciam vir a frear os avanços da Igreja Conciliar... O Papa Paulo VI julgou oportuno e prudente dilatar a revelação do texto para melhores tempos. (...) E os Pontífices seguintes ainda não consideraram chegado o momento de levantar o véu do mistério, numa situação da Igreja que ainda não superou o impacto tremendo de vinte anos de pós-concilio, nos quais a crise apoderou-se de todas as camadas da fé. (...)
"A melhor maneira de contribuir para que essa parte [do Segredo] seja dada a conhecer será um intento sério de restabelecer a paz interna da Igreja, sobre a qual ele fala" (De nuevo el secreto de Fátima, "Ephemerides Mariologicae", Madrid, 1982, vol. XXXII, fasc. 1, p. 93).
Tratando-se de um Sacerdote que timbra em não ser chamado de tradicionalista, bem como também não de progressista, como, aliás, se depreende de seu próprio modo de expressar-se, a ponderação adquire o valor de um depoimento insuspeito.
Portanto, o 3º Segredo de Fátima é de tal índole que os seguidores da tradição se creriam aprovados em sua orientação, e os progressistas gravemente prejudicados, vendo estes últimos esvair-se de suas mãos os trunfos que acreditavam ter adquirido para sempre com o Concílio.
Em outras palavras, o 3º Segredo conteria uma desaprovação de todos os desmandos ocorridos na era pós-conciliar.
Para os tradicionalistas, entretanto, os efeitos da revelação do Segredo poderiam ser ainda mais salutares. Como se sabe, os grupos ou organismos tradicionalistas se apresentam profundamente divididos entre si. A revelação do Segredo poderia apontar para eles uma diretriz única de pensamento e de ação, em torno da qual se aglutinarem. Isso representaria a possibilidade de se concretizar, por fim, a tão almejada Union Sacrée — preconizada pelos melhores dentre eles — na luta pela extirpação da heresia progressista de dentro da Igreja.
Estas perspectivas não podem ser, evidentemente, do agrado dos progressistas. E assim se compreende que eles exerçam toda espécie de injunções, junto ao Vaticano, para que o Segredo não seja revelado.
Enganar-se-ia muito quem pensasse que essas injunções são de pouca monta. Para quem duvidasse, bastaria lembrar o recente caso, de repercussão internacional, em que a Congregação para a Doutrina da Fé convocou Frei Leonardo Boff para explicações a respeito de um de seus livros. Dois Cardeais brasileiros e o Presidente da CNBB se deslocaram para Roma, a fim de dar todo apoio a Frei Boff. Eles fizeram sem êxito gestões no sentido de estar presentes à audiência. Porém lhes foi concedido que os dois Cardeais entrassem ao término desta, para participar da redação do comunicado final.
E quando a Congregação para a Doutrina da Fé, insatisfeita com as explicações de Frei Boff, resolveu aplicar-lhe a suavíssima pena de um ano de "silêncio reverencial", 17 Arcebispos e Bispos se levantaram, no Brasil, manifestando publicamente sua "inconformidade" com a decisão da Santa Sé. A palavra cisma roçou pelos lábios de muitos observadores...
Como não recear que a revelação do Segredo de Fátima, tão prejudicial aos progressistas, levantasse, entre estes últimos, uma onda de oposição de consequências imprevisíveis?
Isto explicaria também por que a Santa Sé prefere enfrentar o burburinho universal, que reclama, nem sempre muito respeitosamente, a divulgação do Segredo, a arcar com as consequências do desconcerto que essa mesma revelação provocaria nas hostes progressistas, com elementos colocados até em altas posições dentro da Igreja.
Consistiriam talvez nisso as "razões sérias" — muito sérias na verdade — continuamente alegadas para justificar a extrema cautela com que a Santa Sé tem procedido na matéria.
Para o católico fiel, devoto de Fátima, o que fazer?
Até aqui foram aduzidas considerações humanas. Mas é claro que o católico fiel tem suas vistas voltadas principalmente para o Céu.
Nosso Senhor Jesus Cristo governa a Igreja, seu Corpo Místico. Nossa Senhora prometeu em Fátima que, por fim, o seu Imaculado Coração triunfaria.
O tecido das ações humanas — sem dúvida livres — se dispõe, entretanto, de acordo com os desígnios da Providência.
Quando chegar o momento marcado pela Providência, o Segredo de Fátima será pois revelado.
Nesse momento, podemos imaginar Jacinta acompanhando do Céu o desenrolar de todos estes acontecimentos. Ela, então, animaria Lúcia, lembrando-lhe talvez as palavras com que se despediu dela, nesta terra: "Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isto, não te escondas..."
Nossa Senhora, contemplando a cena e lançando para Jacinta um olhar de profundo amor, daria ordem aos Anjos para que se cumprisse a vontade d'Ela.