| REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO | (continuação)
Capítulo III - A 4.a Revolução que nasce
Professores e funcionários da Universidade de Pequim carregam pedras. O trabalho servil obrigatório para todos - inclusive mulheres - é especialidade do comunismo chinês. Apesar do elevado número de fugas da China vermelha, elogios à 'revolução cultural" estruturalista ainda são freqüentes no mundo ocidental".
O panorama que assim se apresenta não seria completo se negligenciássemos uma transformação interna na III Revolução. É a IV Revolução que dela vai nascendo.
Nascendo, sim, à maneira de requinte matricida. Quando a II Revolução nasceu, requintou (cfr. Parte I — Cap. VI, 3), venceu e golpeou de morte a primeira. O mesmo ocorreu quando, por processo análogo, a III Revolução brotou da segunda. Tudo indica ser chegado agora para a III Revolução o momento, ao mesmo tempo pinacular e fatal, em que ela gera a IV Revolução, e por esta se expõe a ser morta.
— No entrechoque entre a III Revolução e a Contra-Revolução, haverá tempo para que o processo gerador da IV Revolução se desenvolva por inteiro? Está última abrirá efetivamente uma etapa nova na história da Revolução? Ou será simplesmente um fenômeno abortivo, a surgir e desaparecer sem influência capital, no entrechoque entre a III Revolução e a Contra-Revolução? O maior ou menor espaço a ser reservado para a IV Revolução nascente, nestas notas tão apressadas e sumárias, estaria na dependência da resposta a essa pergunta. Resposta essa, aliás, que, de modo cabal só o futuro poderá dar.
Ao que é incerto, não convém tratar como se tivesse uma importância certa. Consagremos aqui, pois, um espaço muito limitado ao que parece ser a IV Revolução.
A IV REVOLUÇÃO "PROFETIZADA" PELOS AUTORES DA III REVOLUÇÃO
Paris, maio de 1968 - A revolução da Sorbonne foi o ponto de partida para a 4a. Revolução, estruturalista.
Terroristas agem em Milão. Etapa transitória no processo revolucionário, visando estabelecer a sociedade utópica.
Como é bem sabido, nem Marx, nem a generalidade de seus mais notórios sequazes, tanto "ortodoxos", como "heterodoxos", viram na ditadura do proletariado o lance terminal do processo revolucionário. Esta não é, segundo eles, senão o aspecto mais quintessenciado, dinâmico, da Revolução universal. E, na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução não terá termo. Da I Revolução já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...
É impossível prever, dentro da perspectiva marxista, como seria uma Revolução no XX ou L. Não é impossível, entretanto, prever como será a IV Revolução. Essa previsão, os próprios marxistas já a fizeram.
Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado em consequência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual — dizem os comunistas — o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável.
2. IV REVOLUÇÃO E TRIBALISMO: UMA EVENTUALIDADE
Charles Manson, chefe do bando hippie que cometeu assassínios macabros e requintados, representa um estágio avançado da 4a. Revolução... e abre caminho para o culto público ao demônio, como já o faz a igreja satânica de Anton La Vey (de chifres), em San Francisco, Califórnia.
— Como? — É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas atuais correntes estruturalistas não dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários "eus" ou as pessoas individuais, com o seu pensamento, sua vontade e seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem — segundo eles — na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.
Bem entendido, o caminho rumo a este estado de coisas tem de passar pela extinção dos velhos padrões de reflexão, volição e sensibilidade individuais, gradualmente substituídos por formas de sensibilidade, pensamento e deliberação cada vez mais coletivos. É, portanto, neste campo, que principalmente a transformação se deve dar.
— De que forma? — Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. A razão individual, nelas, fica circunscrita a quase nada, isto é, aos primeiros e mais elementares movimentos que seu estado atrofiado lhe consente. "Pensamento selvagem"(*), pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto.
(*) Cfr. Claude Lévy-Strauss, "La pensée sauvage", Plon, Paris, 1969.
Tal é o preço da fusão coletivista tribal. Ao pajé incumbe manter esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de "mensagens" confusas, mas "ricas" dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes do misterioso mundo da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas "riquezas" que o homem compensaria a atrofia da razão.
Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo, etc., divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais franco abuso em toda escola de pensamento comunista, e agora, por fim, atrofiada e tomada escrava a serviço do totemismo transpsicológico e parapsicológico...
IV Revolução e preternatural
O Arcebispo de Mirineápolis (EUA). D. John Roach, paramenta-se com ornamentos indígenas para celebrar a Missa. A nobre estrutura eclesiástica vai se transformando em tecido mole, amorfo, de grupos religiosos indefinidos, guiados no por Pastores autênticos, mas por pajés do estruturalismo... ou por seus congêneres, os "profetas" do pentecostalismo. Na foto, reunião de pentecostalistas católicos nos EUA.
"Omnes dii gentium daemonia", diz a Escritura (Sl. 95, 5). Nesta perspectiva estruturalista, em que a magia é apresentada como forma de conhecimento, até que ponto é dado ao católico divisar as fulgurações enganosas, o cântico a um tempo sinistro e atraente, emoliente e delirante, ateu e fetichisticamente crédulo com que, do fundo dos abismos em que eternamente jaz, o príncipe das trevas atrai os homens que negaram a Igreja de Cristo?
É uma pergunta sobre a qual podem e devem discutir os teólogos. Digo os teólogos verdadeiros, ou seja, os poucos que ainda crêem na existência do demônio. Especialmente os poucos, dentre esses poucos, que têm a coragem de enfrentar os escárnios e as perseguições publicitárias, e de falar.
Estruturalismo — Tendências pré-tribais
As tendências tribais da 4a. Revolução manifestam-se também na Igreja. Este totem foi impresso no missal composto em Ottawa, no ano de 1976, pela Conferência dos Bispos Canadenses, para ser venerado como crucifixo.
Seja como for, na medida em que se veja no movimento estruturalista uma figura mais ou menos exata, mas em todo caso precursora da IV Revolução, determinados fenômenos afins com ele, que se generalizaram nos últimos dez ou vinte anos, devem ser vistos, por sua vez, como preparatórios e propulsores do ímpeto estruturalista.
Assim, a derrocada das tradições indumentárias do Ocidente, corroídas cada vez mais pelo nudismo, tende obviamente para o aparecimento ou consolidação de hábitos nos quais se tolerará, quando muito, a cintura de penas de ave de certas tribos, alternada, onde o frio o exija, com coberturas mais ou menos à maneira das usadas pelos lapões.
O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta (para empregar só esse qualificativo) do trato tribal.
A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua e fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada, também ela, com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida.
A aversão ao esforço intelectual, à abstração, à teorização, à doutrina, só pode induzir, em fim de linha, a uma hipertrofia dos sentidos e da imaginação, a essa "civilização da imagem" para a qual Paulo VI julgou dever advertir a humanidade (2).
São sintomáticos também os idílicos elogios, sempre mais freqüentes, a um tipo de "revolução cultural" geradora de uma sociedade nova pós-industrial, ainda mal definida, e da qual o comunismo chinês seria — como por vezes é apresentado — um primeiro lampejo.
C. Despretensioso contributo
Bem sabemos quanto são passíveis de objeções, em muitos de seus aspectos, os quadros panorâmicos, por sua natureza vastos e sumários como este.
Necessariamente abreviado pelas delimitações de espaço do presente capítulo, este quadro oferece seu despretensioso contributo para as elucubrações dos espíritos dotados daquela ousada e peculiar finura de observação e análise que, em todas as épocas, proporciona a alguns homens prever o dia de amanhã.
D. A oposição dos banais
Os outros farão, a esse propósito, o que em todas as épocas fizeram os espíritos banais e sem ousadia. Sorrirão e tacharão de impossíveis tais transformações, porque são de molde a alterar seus hábitos mentais. Porque elas aberram do bom senso, e aos homens banais, o bom senso parece a única via normal da História. Sorrirão incrédulos e otimistas ante essas perspectivas, como Leão X sorriu a propósito da trivial "querela de frades", que foi só o que soube discernir na I Revolução nascente. Ou como o feneloniano Luís XVI sorriu ante as primeiras efervescências da II Revolução, as quais se lhe apresentavam em esplêndidos salões palacianos, embaladas por vezes ao som argênteo do cravo, ou luzindo discretamente nos ambientes e nas cenas bucólicas à maneira do "Hameau" de sua esposa. Como sorriem, ainda hoje, otimistas, céticos, ante os manejos do risonho comunismo pós-staliniano, ou as convulsões que prenunciam a IV Revolução, muitos representantes altos, e até dos mais altos, da Igreja e do poder temporal no Ocidente.
Se algum dia a III ou a IV Revolução tomarem conta da vida temporal da humanidade, acolitadas na esfera espiritual pelo progressismo ecumênico, deve-lo-ão mais à incúria e colaboração destes risonhos e otimistas profetas do "bom senso", do que a toda a sanha das hostes e dos serviços de propaganda revolucionários.
E. Tribalismo eclesiástico — Pentecostalismo
Falemos da esfera espiritual. Bem entendido, também a ela a IV Revolução quer reduzir ao tribalismo. E o modo de o fazer já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a modelaram magnificamente, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem território, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos "profetas" mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista.
3. DEVER DOS CONTRA-REVOLUCIONÁRIOS ANTE A IV REVOLUÇÃO NASCENTE
Quando incontáveis fatos se apresentam suscetíveis de serem alinhados de maneira a sugerir hipóteses como a do nascimento da IV Revolução, o que resta ao contra-revolucionário fazer?
Na perspectiva de “Revolução e Contra-Revolução”, toca-lhe, antes de tudo, acentuar a preponderante importância que no processo gerador desta IV Revolução, e no mundo dela nascido, cabe à Revolução nas tendências (cfr. Parte I — Cap. V, 1 a 3). E preparar-se para lutar, não só no intuito de alertar os homens contra esta preponderância das tendências — fundamentalmente subversiva da boa ordem humana — a que assim se vai procedendo, como a usar, no plano tendencial, de todos os recursos legítimos e cabíveis para combater essa mesma Revolução nas tendências. Cabe-lhe também observar, analisar, prever os novos passos do processo, para ir opondo, tão cedo quanto possível, todos os obstáculos contra a suprema forma de guerra psicológica revolucionária, que é a IV Revolução nascente.
Se a IV Revolução tiver tempo para desenvolver-se antes que a III Revolução tente sua grande aventura, talvez a luta contra ela exija a elaboração de mais um capítulo de "Revolução e Contra-Revolução", e talvez esse capítulo ocupe por si só um volume igual ao aqui consagrado às três revoluções anteriores.
Com efeito, é próprio aos processos de decadência complicar tudo, quase ao infinito. E por isso cada etapa da Revolução é mais complicada que a anterior, obrigando a Contra-Revolução a esforços paralelamente mais pormenorizados e complexos.
Nessas perspectivas sobre a Revolução e a Contra-Revolução, e sobre o futuro deste trabalho em face de uma e de outra, encerramos as presentes considerações.
Incertos, como todo o mundo, sobre o dia de amanhã, erguemos em atitude de prece os nossos olhos até o trono de Maria, Rainha do Universo. Enquanto nos sobem aos lábios, adaptadas a Ela, as palavras do Salmista dirigidas ao Senhor:
"Ad te levavi oculos meos, qui habitas in coelis. Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum, sicut oculi ancillae in manibus domine suae; ita oculi nostri ad Dominam Matrem nostram donec misereatur nostri" (cfr. Sl. 122, 1 e 2).
Sim, voltamos nossos olhos para a Senhora de Fátima, pedindo-Lhe quanto antes os grandes perdões e as grandes vitórias que importarão na implantação do Reino dEla. Ainda que para isso a Igreja e o gênero humano tenham de passar pelos castigos apocalípticos — mas quão justiceiros, regeneradores e misericordiosos — por Ela previstos em 1917 na Cova da Iria.
D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos, "constitui um dos ilustres fanais que ainda brilham para os católicos do Novo e do Velho Mundo".
CONCLUSÃO
Interrompemos a parte final de "Revolução e Contra-Revolução", edição brasileira de 1959 e edição italiana de 1972, para atualizar, nas páginas que precedem, o texto original.
Isto feito, perguntamo-nos se a pequena Conclusão do texto original de 1959 e das edições posteriores ainda merece ser mantida, ou se comporta, pelo menos, alguma modificação. Relemo-la com cuidado. E chegamos à persuasão de que não há motivo para não mantê-la, bem como não há razão para alterá-la no que quer que seja.
Dizemos, hoje, como dissemos então:
"Na realidade, por tudo quanto aqui se disse, para uma mentalidade posta na lógica dos princípios contra-revolucionários, o quadro de nossos dias é muito claro. Estamos nos lances supremos de uma luta, que chamaríamos de morte se um dos contendores não fosse imortal, entre a Igreja e a Revolução. Filhos da Igreja, lutadores nas lides da Contra-Revolução, natural é que, ao cabo deste trabalho, o consagremos filialmente a Nossa Senhora.
A primeira, a grande, a eterna revolucionária, inspiradora e fautora suprema desta Revolução, como das que a precederam e lhe sucederem, é a Serpente, cuja cabeça foi esmagada pela Virgem Imaculada. Maria é, pois, a Padroeira de quantos lutam contra a Revolução.
A mediação universal e onipotente da Mãe de Deus é a maior razão de esperança dos contra-revolucionários. E em Fátima Ela já lhes deu a certeza da vitória, quando anunciou que, ainda mesmo depois de um eventual surto do comunismo no mundo inteiro, "por fim seu Imaculado Coração triunfará".
Aceite a Virgem, pois, esta homenagem filial, tributo de amor e expressão de confiança absoluta em seu triunfo.
Não quereríamos dar por encerrado o presente artigo, sem um preito de filial devotamento e obediência irrestrita ao "doce Cristo na terra", coluna e fundamento infalível da Verdade, Sua Santidade o Papa João XXIII.
"Ubi Ecclesia ibi Christus, ubi Petrus ibi Ecclesia". É pois para o Santo Padre que se volta todo o nosso amor, todo o nosso entusiasmo, toda a nossa dedicação. É com estes sentimentos, que animam todas as páginas de "Catolicismo" desde sua fundação, que nos abalançamos também a publicar este trabalho.
Sobre cada uma das teses que o constituem, não temos em nosso coração a menor dúvida. Sujeitamo-las todas, porém, irrestritamente ao juízo do Vigário de Jesus Cristo, dispostos a renunciar de pronto a qualquer delas, desde que se distancie, ainda que de leve, do ensinamento da Santa Igreja, nossa Mãe, Arca da Salvação e Porta do Céu".