Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 210 | página 06-07

Conclusão da página 1

O INVICTO CABO DE GUERRA

lançaram-na às águas, pedindo-lhe por escárnio que os conduzisse à Bahia. O Santo atendeu àquele pedido, de maneira por certo bem diversa da que desejariam os hereges: uma tempestade arrastou-os ao litoral sergipano, onde naufragaram, sendo aprisionados e conduzidos à Bahia. Em meio do caminho encontraram de pé na praia, como que à sua espera, a imagem profanada, sem que mão humana a houvesse transportado e erguido. A notícia desse milagre espalhou-se logo, e os baianos tomaram o Santo por seu Padroeiro, sentando-lhe praça de soldado, como ficou dito. Deu-se o fato em 1595.

Não descuidou o novo militar de suas obrigações; antes, fez jus ao soldo que lhe pagavam, como refere o Padre Antônio Vieira no sermão que pregou em Salvador, a 13 de junho de 1640, na Igreja do Taumaturgo, em ação de graças por terem "os holandeses levantado o sítio que tinham posto à Bahia, assentando os seus quartéis e baterias em frente da mesma Igreja".

Estava renhida a luta entre portugueses e hereges invasores, comenta o famoso pregador, e "no mesmo tempo em que as praças artilhadas e presidiadas espontaneamente se entregavam", era digno de admiração que "só a trincheirinha de Santo Antônio, arruinada, aberta e quase rasa com a terra, mostrasse espíritos de resistência". "Os tiros da artilharia inimiga que se contaram, foram mais de mil e seiscentos; e chovendo a maior parte deles sobre a cidade, que faziam? Uns caíam saltando, e rodavam furiosamente pelas ruas e praças; outros rompiam as paredes, outros destroncavam os telhados, despedindo outras tantas balas, quantas eram as pedras e as telhas; e foi coisa verdadeiramente milagrosa, que a nenhuma pessoa matassem, nem ferissem [...]. Chegou enfim a noite decretória e fatal de 18 de maio, em que acometeram a requestada trincheira três mil holandeses ajuramentados de ou ganhar ou morrer, dos quais muitos cumpriram a segunda parte do juramento, mas nenhum a primeira. E posto que depois foram socorridos com todo o grosso do exército, sendo já na campanha batalha, o que na trincheira era assalto, e durando a porfia do combate três horas inteiras, foi o sucesso tão desigual, que eles sem escrúpulos de perjuros, em boa consciência se retiraram vencidos". "Bem suponho eu logo, e devemos supor todos, que todos os Santos do Céu por si mesmos podiam defender a nossa, ou a sua Bahia de Todos os Santos".

Mas como Deus queria que fossem representados por um só Santo para com ele repartir a glória, desta proteção, escolheu “Santo Antônio pela eminência com que êste Santo contém em si as jerarquias e dignidades de todos" ("Sermões", Lello & Irmão, Editôres, Porto, 1908, vol. VII, pp. 27-54).

A Câmara da Cidade da Bahia, em reunião de 20 de novembro de 1645, fez voto de celebrar solenemente a festa do glorioso Taumaturgo e de "mandar fazer ao mesmo hua Imagem de vulto vazado tôda de prata do mesmo tamanho da que de presente há em seo altar", caso "Deos seja servido Restaurar e Restituir a nosso domínio a Capitania de Pernambuco e as mais da banda do Norte" (Macedo Soares, pp. 28-29).

De fato, libertada dos holandeses a Capitania de Pernambuco em 27 de janeiro de 1654, houve na Bahia solene festa em honra de Santo Antônio, com a assistência da Câmara, Cabido, nobreza e povo, festa essa que depois se repetiu por muitos anos.

Não cumpriram, contudo, os nobres senadores por inteiro o voto feito ao Santo, e afinal rogaram ao Governador Dom Rodrigo da Costa que o compensasse pela promoção do soldado Santo Antônio a Capitão. Em 16 de julho de 1705 publicava o referido Governador portaria pela qual mandava "assentar praça ao glorioso Santo Antonio de Capitão intertenido do dito forte de Santo Antonio da Barra, e se entregará todos os anos ao Sindico do convento de São Francisco desta cidade o mesmo soldo, que se costuma pagar aos mais Capitães intertenidos desta praça" ( Macedo Soares, p. 30). Esse ato foi confirmado pela Carta Régia de 7 de abril de 1707.

Durante o governo de Dom Vasco Fernandes Cezar de Menezes, depois Conde de Sabugosa, que foi o quarto Vice-Rei do Brasil (1720-1735), foi erecta em Salvador a Capela de Santo Antônio da Mouraria - assim chamada por ficar no bairro dos ciganos — cujo Orago recebeu o posto de Alferes de Infantaria. O Príncipe Regente Dom João, mais tarde Dom João VI, em 1800 fixou-lhe o soldo em 120 mil réis anuais.

Por sua vez, a imagem do Convento de São Francisco de Salvador foi mais tarde elevada a Major, ou Sargento-Mor, de Infantaria: "Tendo o Céo abençoado os meus esforços para salvar a monarquia da grande e diffícil crise a que tem estado exposta — declara o Príncipe Regente no Decreto de 13 de setembro de 1810 — esperando ainda maior auxílio para a sua final e inteira restauração, concorrendo, como devo esperar, a intercessão do glorioso Santo: hei por bem eleval-o ao posto de Major de Infantaria naquela Capitania, e que vença o seu competente soldo" (Macedo Soares, pp. 31-32). Em 4 de fevereiro de 1811 passava Dom João a Carta Patente respectiva.

A carreira militar de Santo Antônio na Bahia se completou com a sua promoção a Tenente-Coronel de Infantaria por Decreto de 25 de novembro de 1814 e Carta-Patente de 22 de outubro de 1816.

O Império respeitou todas as nomeações e promoções de Santo Antônio, que recebia, naquela Província, por quatro patentes: Capitão intertenido da Fortaleza da Barra, mais tarde promovido sucessivamente a Sargento-Mor (Major) e Tenente-Coronel; Alferes de trem, em Santo Antônio da Mouraria; soldado raso na Sé; Alferes no Presídio do Morro de São. Paulo.

Até 1907 continuou o Doutor Evangélico a receber os seus soldos; naquele ano a inclusão de seu nome nas folhas de pagamento foi impugnada pelo 1.o escriturário do Tesouro Nacional exercendo em comissão o cargo de Delegado Fiscal. O processo relativo ao pagamento do soldo de Tenente-Coronel foi parar nas mãos do Ministro da Fazenda, o qual resolveu, a 18 de maio de 1912, aprovar o ato daquele funcionário.

Soldado em Pernambuco (como na Paraíba e Espírito Santo); saiu contra os Palmares

Foi o Santo Franciscano alistado como soldado pelo Governador de Pernambuco em 13 de setembro de 1685, para acompanhar as tropas que partiam para destruir os Palmares. O soldo e a importância correspondente ao fardamento deveriam ser pagas ao Síndico do Convento dos Frades Menores de Olinda. Dom Lourenço de Almeida, que governou Pernambuco de 1715 a 1718, promoveu o celeste Soldado a Tenente (ou Alferes) de Artilharia da Fortaleza do Buraco, sendo esse ato confirmado por El-Rei Dom João V em 1717, com soldo de 2$700 mensais.

Em 1819 pretenderam os Franciscanos a promoção do Santo a Sargento-Mor, mas o Governador Luiz do Rego foi de parecer contrário, e o seu despacho honra as luzes que asseguraram ao século XIX o título de estúpido: "A esmola que estes Religiosos pedem do soldo de Sargento-mor, tendo gozado até agora da do posto de Alferes, parece-me excessiva, e muito mais porque sendo pedida a título de postos conferidos a Santo Antônio, oficial que nunca morre, hão de necessariamente chegar um dia a gozar debaixo deste título o soldo de Marechal do Exército, e do que mais puderem inventar, e então serão sustentados à custa da Real Fazenda, o que me não parece preciso" (Macedo Soares, pp. 121-124).

Bem mais modesta foi a carreira post mortem do nosso Taumaturgo nas tropas do Espírito Santo e da Paraíba do Norte: não passou de soldado raso.

Procurou o Guardião do Convento de Santo Antônio da Paraíba obviar de algum modo essa falta, representando ao Governador João de Maya da Gama no sentido de que fosse aumentada a "limitada praça que êste Glorioso Santo vence de hum soldado raso". O Governador encaminhou o caso ao Rei; Dom João V, que acolheu benigno a representação, como declara na Carta Régia de 13 de dezembro de 1709: “Fui servido haver por bem de que o bem-aventurado Antonio vença nessa capitânia duas praças de soldado, dobrandose-lhe a que já tem, para que desta maneira se possão ajudar os seus Religiosos para a sua celebridade e culto do mesmo santo” (Macedo Soares, pp. 57-59).

Nessa Capitania o Patriarca São Bento e o Apóstolo das índias, São Francisco Xavier, recebiam também soldo de uma praça de soldado.

Tendo por sua vez o Guardião do Convento de São Francisco da Vila de Nossa Senhora dia Vitória, no Espírito Santo, requerido a matrícula de seu celeste irmão de hábito como soldado, concordaram os Capitães e a tropa em que "o glorioso Santo Antonio collocado no Convento de São Francisco d'esta villa" vencesse "soldo de soldado, de hoje em diante, cujo soldo se lhe hade pagar dos sobreditos à razão de hum vintem por mez de cada soldado e dous vintens de cada official athe [que] por ordem de S. M. se lhe pague seu soldo pela Fazenda Real" (ob, cit., p. 57).

Capitão de Infantaria em Goyaz, de Cavalaria nas Minas Geraes

Também os habitantes da longínqua Villa Boa de Goyaz não quiseram ficar sem a proteção de tão poderoso Militar. Em fins de 1749 apresentaram ao Governador e Capitão-General da Capitania, Dom Marcos de Noronha, "uma petição em nome de Santo Antonio de Pádua, para que se lhe houvesse de mandar sentar praça de soldado, e fazer pagamento do seu soldo como a qualquer outro soldado" (parecer do Conselho Ultramarino).

Não podendo atender por inteiro a tão piedoso pedido, em virtude das Ordens régias, mandou o Capitão-General sentar praça ao Santo, com declaração de que não se lhe faria pagamento de soldo enquanto El-Rei não o autorizasse, como autorizara nos Governos da Bahia, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco.

O Procurador da Fazenda, em Lisboa, deu parecer favorável, vendo em tal requerimento "piedade e graça"; de igual opinião foram os membros do Conselho Ultramarino, acrescentando que, sendo Sua Majestade servida de deferir a súplica, seria mais digno que fosse com a praça e soldo de Capitão. Dom José I, por Carta Régia de 19 de novembro de 1750, mandou "assentar praça ao dito Santo de Capitão de Infantaria Ligeira com o soldo que a este posto he dado" (ob. cit., pp. 44-45).

Havia já Santo Antônio recebido patentes de oficial e praças de soldado na Infantaria de várias localidades do Brasil; igualmente, fora feito Alferes de Artilharia na Fortaleza do Buraco, em Pernambuco. Faltava-lhe ainda um posto nas fileiras da Cavalaria.

Em 1786 os "Irmãos da Irmandade do Glorioso Santo Antonio de Padua Erecta na Matriz de Nossa Senhora do Pilar da Capital de Vila Rica, Capitania de Minas Geraes do Estado do Brazil", atendendo "a visível decadencia do Payz e por esse respeito ao pequeno numero de Irmãos, o que occasiona a falta de culto a um Santo que he credito da Nasção e Pratotipo de Santidade", requereram pelo seu Procurador, o Capitão João de Souza Benavides, ao Capitão-General respectivo que mandasse sentar praça ao seu celeste Padroeiro. Juntaram à petição certidões das Cartas Régias pelas quais os Soberanos de Portugal haviam concedido praça e soldo ao Santo em outras Capitanias. Respondeu-se-lhes que recorressem a Sua Majestade.

Dirigiram-se, assim, os Irmãos a Dona Maria I, salientando a necessidade que tinham as Geraes de "Protecção, e de um Braço Superior" que as defendesse, "pelo pequeno numero dos seus habitadores". Pediam à Rainha que mandasse "assentar praça naquella Capital ao Gloriozo Chefe das Suas Armas e declarar-lhe o Soldo". Ofereciam em troca "os mesmos irmaons para os soldados pagos que falescerem naquella Capital (onde não tem Irmandade alguma) Sepultura, e juntamente o acompanhamento".

Por Carta Régia de 26 de fevereiro de 1799 foi Santo Antônio da Matriz do Pilar nomeado Capitão de Cavalaria na Vila Rica, com soldo de 480 mil réis anuais. E assim foi que Santo Antônio ficou oficial da Arma Ligeira, vencendo soldo de Capitão, cujo pagamento foi suspenso apenas no governo do Marechal Hermes da Fonseca (Macedo Soares, pp. 112-117).

Coronel das tropas da Capitania de São Paulo por ato do Morgado de Mateus

Foi na Capitania de São Paulo que o glorioso filho de São Francisco alcançou a sua mais alta patente militar em terras brasileiras. Concedeu-a o Morgado de Mateus, Dom Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, Governador e Capitão-General da mesma Capitania, através de um documento que revela uma arraigada piedade; por essa razão o transcrevemos (integralmente:

"Patente porq' S. Exa. há por bem offerecer ao Invicto, e glorioso Santo Antonio o posto de Coronel das tropas desta Capitania, para que abençoando-as, e tomando-as debaixo de Seu patrocinio as ampare, e proteja em todos os seus movimentos.

Dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, Morgado de Mateus, Fidalgo da Caza de S. Mage., e do Seu Conselho, Senhor Donatario da Villa de Ovelha de Marão, Alcaide-mór, e Comendador da Comenda de Santa Maria de Vimioza, da Ontem de Christo, Governador actual do Castello da Barra de Vianna, Governador e Capitão General da Capitania de São Paulo, etc.

Faço saber aos que esta minha Carta Patente virem, que Sendome prezente por parte do Provedor, e mais Irmãos da Irmandade do Senhor Santo-Antonio, erecta pelo Ordino na Capela filial da Sé desta Cidade, que para augmento da devoção do mesmo Santo e á imitação do que se tem praticado nas mais Capitanias deste Brazil, me pedião lhe mandasse passar a Patente de Coronel dos Regimentos desta Capitania; attendendo a que o sobredito Santo hé admiravel em milagres, e Singular Protector dos Portuguezes, e Santo do meu nome, m.to poderoso para com Senhor dos Exercitos, q' tem na Sua mão: Hey por bem de lhe offerecer como por esta lhe offereço, humildem.te e com toda a devoção, o posto de Coronel das Tropas desta Capitania de S. Paulo, e lhe rogo queira recebelas debaixo de Sua grande protecção, abençoando-as, fazendo-as triumphar e dilatar os Dominios de S. Mag.e Fidelissima com gloria da Nasção q' lhe deu o ser. Pelo que ordeno aos Officiais e Soldados das Tropas de toda esta Capitania reconheção ao Gloriozo, e Invicto Santo-Antonio por seu Coronel, e como à tal recorrerão para os prover de Remedio em todas as Suas Necessidades assim Temporaes como Espirituaes" (Macedo Soares, p. 43).

Por iniciativa ainda desse piedoso fidalgo — que tanto auxiliou o Servo de Deus Frei Antônio de Sant'Ana Galvão na fundação do Mosteiro da Luz — foi instituída uma Irmandade de Santo Antônio dos Militares. Aliás, muitas capelas se ergueram no Brasil nessa época com a invocação de "Santo Antônio dos Militares", entre as quais a da distante Villa Bela do Mato Grosso (Gen. R. Silveira de Mello, "Os Santos Militares", Rio de Janeiro, 1953, p. 138) .

Não sabemos se o Coronel Santo Antônio recebia soldo em São Paulo, ou se pertencia ao quadro das tropas Auxiliares, não remuneradas, organizadas pelo Morgado de Mateus para a defesa do território de sua jurisdição. Não há dúvida, porém, de que lhe eram prestadas as honras devidas ao posto. Disto é prova a ordem dada pelo mesmo Capitão-General ao Almoxarife da Fazenda Real, em 1771, para entregar "ao Sargento-mór Manoel Caetano Zuniga quinze libras e meya de polvora e huma mão de papel que hé para as descargas de mosquetaria que ha de dar a dita Tropa no dia da celebridade de Santo Antonio, Coronel das Tropas desta Capitania" (Macedo Soares, p. 44).

General dos Campos, salva o Rio de Janeiro dos corsários

Não temos notícia da época em que Santo Antônio foi alistado como soldado raso no Rio de Janeiro. Foi promovido a Capitão quando a cidade se viu atacada pelo corsário Jean-François Du Clerc, em 1710.

Partira o francês do porto de Brest com sete navios para fazer a guerra de corso no Brasil, por ordem de Luís XIV. Ao aparecer na entrada da barra do Rio de Janeiro foi hostilizado pela artilharia da costa, sendo obrigado a velejar para o sul; a 11 de setembro desembarcou com mais de mil homens em Guaratiba, e marchou por terra sobre a cidade, tendo por guias alguns negros escravos, que tomou na Ilha Grande.

A manobra do corsário distraiu os defensores da praça, que julgavam ter ele desistido da empresa. Ao dar-se conta do seu avanço, chamou o Governador Francisco de Castro Moraes a seu irmão, o Mestre de Campo Gregório de Castro Moraes (que pereceria na luta), para organizar a defesa, convocando, além dos milicianos, os nobres, estudantes, populares, negros e mulatos, e até índios das aldeias, com seus arcos e flechas.

Não se sentindo com forças suficientes para resistir à tropa francesa, procurou o Governador obter o auxílio celeste: São Sebastião foi nomeado comandante das praias, com seu posto de comando no Morro do Castelo, de onde devia vigiar a baía e a entrada da barra; Nossa Senhora da Conceição e São Bento, do alto dos seus Morros, guardavam o porto; Nossa Senhora do Outeiro da Glória, São João e Santa Bárbara (esta última, Padroeira da Artilharia) tinham sob sua responsabilidade a barra; enquanto Santo Antônio foi incumbido de defender a cidade de um ataque por terra, recebendo o título de "General dos Campos" (Gen. Silveira de Mello, p. 140).

À véspera do assalto, pediu o Governador ao Clero secular e regular que celebrasse as Missas do dia seguinte pelo bom êxito das armas portuguesas. Comunicou ao mesmo tempo ao Provincial dos Franciscanos que havia promovido o soldado Santo Antônio a Capitão de Infantado, com o respectivo soldo. Por seu lado, o Provincial, Frei Serafino de Santa Rosa, mandou a Francisco de Castro Moraes o bastão de comando que o antigo Governador da Colônia do Sacramento, Sebastião Xavier da Veiga Cabral, havia oferecido ao mesmo Santo por tê-lo livrado de um cerco de mais de seis meses que lhe tinham imposto os espanhóis, em 1704. Castro Moraes beijou reverentemente o bastão, que colocou sobre a própria cabeça e devolveu ao Frade, pedindo-lhe que o pusesse na mão do Santo, cuja imagem queria que estivesse a postos sobre a muralha do Convento, voltada para o campo de batalha, a fim de que dali presidisse ao combate.

A vitória dos nossos foi completa, porque, como diz uma "Relaçam da Batalha" composta na época, eles "tinham por si a razão, a justiça e os Santos Capitaens" (Macedo Soares, p. 68). Tendo os franceses atacado por terra, a derrota deles foi atribuída especialmente ao General dos Campos.

"Para conservar a memória de tão gloriosa data e da proteção visível do grande Taumaturgo, a imagem foi colocada no frontispício da igreja. Graças a essa circunstância, isto é, por estar exposta ao tempo, o povo, sempre propenso em alcunhar as coisas, chamou-a Santo. Antônio do Relento" (Frei Basílio Röwer, O. F. M., "O Convento de Sto. Antônio do Rio de Janeiro" Vozes, 1945, p. 373); a imagem tornou-se também conhecida por Santo Antônio da Garoa. Suspendeu-se diante dela uma lâmpada votiva, mantida acesa até os nossos dias, para recordar o especial patrocínio do Santo sobre a Cidade.

O Provedor da Fazenda da Capitania do Rio de Janeiro comunicou ao Rei como, "nas vesporas do asalto que deram os Francezes nessa Praça achandosse o Povo della em grande confuzão vendo tam Visinho o Inimigo e tão intrepido, se recorrera tambem aos Sanctos e Se mandara nesta ocasiam sentar Praça de Capitam tendoa já de Soldado o Glorioso Sancto Antonio mostrando se q. neste comflicto desempenhara bem a obrigação de seu posto".

Dom João V, ouvidos o Procurador da Fazenda e o Conselho Ultramarino, respondeu, por Carta Régia de 21 de março de 1711: "Me pareceo dizervos fui servido de aprovar esta Praça que se deu a Sancto Antonio de Capitam de Infantaria com declaração q. a importancia destes Soldos se apliquem para Sua festa e ornato da Sua Capella cujos Soldos ham de ser os mesmos que se pagam a dinheiro aos mais Capitans".

Apesar da ordem del-Rei, foi, durante anos, pago ao Santo o soldo de apenas vinte cruzados, enquanto os outros Capitães recebiam quarenta. Ante a reclamação a propósito feita pelo Provincial Frei Fernando de Santo Antônio, e considerando ser o Santo "tão merecedor como os mais" e "muito mais antigo nos serviços que tem feito não só nesse Estado [do Brasil], mas em todo este reino, como largamente consta, nem pretende faltar no dito serviço", determinou o mesmo Monarca que se lhe pagassem quarenta cruzados, como aos de seu posto (Macedo Soares, pp. 81-82).

Dom João VI lhe ofereceu seu próprio bastão de comando

Permaneceu Santo Antônio com a patente de Capitão de Infantaria durante cem anos, até que o Príncipe Regente resolveu mandar promovê-lo a Sargento-Mor — o que equivale a Major — pouco depois da vinda da Família Real portuguesa para o Brasil.

Assim reza a Carta Patente de 25 de outubro de 1810: "Sendo-me presente a viva devoção do Povo do Rio de Janeiro para o Glorioso Santo Antonio, que moveo hum dos meos Augustos Predecessores a dar ao mesmo Santo em mil setecentos e onze o Posto de Capitão, tendo antes Praça de Soldado, depois do feliz assalto, em que os Habitantes da Cidade resistirão ao ataque dos Francezes, e tendo o Céu abençoado os Meus esforços para salvar a monarchia da grande e diffícil crize, a que se tem achado exposta, Esperando ainda maior auxilio para a sua final e inteira Restauração, para o que muito há, de concorrer, como devo piamente esperar, a intercessão do mesmo Glorioso Santo, a quem tenho particular devoção: Hei por bem que se eleve ao Posto de Sargento Mór da Infantaria desta Capitania, e com elle haverá mensalmente o soldo de trinta e seis mil reis, que será pago na forma das Minhas Reaes Ordens" (Macedo Soares, p. 85).

Em 1814, tendo o Céu concedido a paz a Portugal, depois da tempestade napoleônica que o havia assolado, o Príncipe Dom João, "crendo piamente que a efficaz intercessão do mesmo Santo tem concorrido para tão felizes resultados", houve por bem promovê-lo a Tenente-Coronel de Infantaria.

Ao mesmo tempo, conferiu o Regente ao grande Taumaturgo português a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, e lhe ofereceu um rico bastão de autoridade, de seu próprio uso. Até hoje é a imagem do altar-mor da Igreja do Convento do Rio adornada com essas insígnias, por ocasião da festa de 13 de junho, tendo-se estabelecido o costume de reservar o Guardião para si a honra de pôr-lhe a Grã-Cruz e na mão o bastão de Dom João VI (Frei Basílio Röwer, p. 374).

O soldo de Santo Antônio foi pago pelo Exército até 1911

A imagem de Santo Antônio do Convento do Rio de Janeiro recebeu até a Independência o soldo que lhe era devido como soldado e oficial do Exército português. O Governo imperial reconheceu-lhe as patentes de nomeação e promoção, pagando-lhe igualmente o soldo.

Com o advento da República e a separação entre a Igreja e o Estado houve uma certa dúvida quanto a Continuar-se esse pagamento. Conta-se que, tendo o Ministério da Guerra levantado dificuldades a respeito, o Provincial dos Franciscanos, Frei João do Amor Divino da Costa, procurou o Ministro, que era o Marechal Floriano Peixoto. Este, depois de uma explicação um tanto confusa do Religioso, perguntou-lhe intrigado que dinheiro era esse que reclamava; esclarecida a dúvida, o Marechal respondeu: — "Ah! já sei; o Sr. se refere ao soldo de Santo Antônio!" E expediu em seguida Aviso mandando "continuar o abono do soldo a Santo Antônio, enquanto não for por ato especial anulado o Decreto de 26 de junho de 1814" (Macedo Soares, pp. 91-92; Frei Basílio Röwer, pp. 379-380 ) .

Em 1911, quando o Ministério da Justiça ordenou o seqüestro do Convento com todos os seus bens, foi suspenso o pagamento que Santo Antônio recebia há mais de duzentos anos.

Nenhum ato oficial foi baixado, anulando os Decretos e Patentes que conferiam ao glorioso Tenente-Coronel o direito ao soldo. No livro 486, n.o 5, referente aos "oficiais reformados", existente na Diretoria de Contabilidade da Guerra, há uma declaração escrita a lápis azul, sem assinatura, que alguns dizem ter sido mandada lançar pelo Ministro da Guerra General Emigdio Dantas Barreto: "Privado do soldo até 2.a ordem" (Macedo Soares, p. 94; Frei Basílio Röwer, p. 380).

Reintegrados na posse do Convento pela Suprema Corte, tentaram os Franciscanos obter que a tradição desse pagamento fosse restabelecida, já que nenhuma medida legal havia determinado a Sua suspensão. O Consultor-Geral da República, Rodrigo Octavio de Langard Menezes, em 1923, foi de parecer que, sendo manifesta a inspiração religiosa dos atos que garantiam o referido soldo, constituíam eles benefícios, e não direitos; podiam por isso ser alterados por atos posteriores, já que ocorrera uma profunda modificação no espírito da legislação a respeito das relações entre a Igreja e o Estado. Opinava que não se deveria atender ao requerimento dos Religiosos, desde que se apurasse que as ordens anteriores haviam sido revogadas. — O fato é que o soldo continua suspenso (Macedo Soares, pp. 94-95).

Como observa o General Silveira de Mello, uma vez que Benjamin Constant (que morreu em 1891) continua a figurar no Almanaque do Exército, como se fora vivo, por análoga razão poderia Santo Antônio aí também aparecer como Veterano do Império, já que a República não lhe deu baixa do serviço (op. cit., p. 140).

Em 1934 a União Católica dos Militares instituiu, no Convento de seu santo Camarada de armas, Missa em sufrágio da alma dos que tombaram a serviço da Pátria, a ser celebrada no "Dia do Soldado", 25 de agosto, natalício do Duque de Caxias. Essa Missa passou depois a figurar nos programas oficiais do "Dia do Soldado", e cada unidade da guarnição do Rio se fazia representar nela por um oficial, três sargentos e três praças. Foi instituído também o pagamento simbólico do soldo de Santo Antônio: o oficial de maior graduação entregava ao Guardião do Convento uma carteira com a importância correspondente a um mês de soldo de um Tenente-Coronel do Império (Gen. Bandeira de Mello, loc. cit.).

A algum leitor terá causado estranheza ver o suave discípulo do "Poverello" transformado, post mortem, em autêntico cabo de guerra; terá, talvez, parecido uma irreverência cingir da espada a quem em vida outro gládio não empunhou que o da palavra divina (cf: Efes. 6, 17), não se revestiu de outra couraça que a da fé e da caridade (cf. 1 Tess. 5, 8) e não usou outra farda que o austero burel dos Frades Menores.

Quem estudar melhor a vida do glorioso Taumaturgo verá que esse modo de mostrar-lhe devoção, hoje tão esquecido, é perfeitamente legítimo e adequado.

Com efeito, a Fernando de Bulhões — que assim se chamava Frei Antônio antes de fazer-se Franciscano — não faltavam virtudes guerreiras e espírito combativo. Trazia nas veias o sangue dos cruzados, já que descendia do grande Godofredo de Bouillon, libertador do Santo Sepulcro, que recusou o título de Rei de Jerusalém para não ostentar uma coroa de ouro onde o Senhor fora coroado de espinhos. E esse sangue generoso haveria de inspirar ao nosso Santo o desejo do terrível combate que é o martírio, o qual a Providência não permitiu que se cumprisse, pois o havia reservado para ser o martelo dos hereges e o pavor dos infiéis (como o chamaram os Papas). Não é sem razão que uma piedosa ladainha invoca o grande Santo português como batalhador contra a falsidade, extirpador dos crimes, terror dos demônios.

Invoquemos, pois, o invictíssimo general Santo Antônio, para que nos livre do perigo comunista, sem dúvida pior do que todas as heresias das quais ele tem sido o martelo — perpetuus haereticorum malleus.


Conclusão da página 2

RESPOSTA A UMA ENTREVISTA

A TFP tem divulgado largamente o estudo "Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo", de autoria do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira (publicado em "Catolicismo", n.o 178-179, de outubro-novembro de 1965, e editado também em forma de livro no Brasil, Argentina, Chile e. Espanha). Este estudo representa a posição da TFP em matéria de diálogo. Nele se afirma que há um diálogo lícito e louvável e outro suspeito, perigoso e. até censurável. Carece pois de fundamento a afirmativa da entrevista, de que recusamos o diálogo. E ainda aqui perguntamos: no que se fundaria V. Revma. para fazer tal acusação?

* * *

Não só não recusamos o diálogo, mas, pelas perguntas contidas nesta carta, pretendemos precisamente abri-lo. Com respeitosa franqueza externamos a V. Revma. quanto nos magoou a entrevista que lhe é atribuída, e lhe pedimos que — caso não a desminta — queira dialogar conosco cordial e cristãmente sobre o fundamento das acusações nela contidas. Cremos, Revmo. Sr. Pe. Paulo Fernandes, que não há caso em que o diálogo seja mais indeclinável do que o é êste, da parte de V. Revma. Pois uma entidade que foi objeto de acusações vagas e violentas, apresentadas sem provas, bate à porta de V. Revma. para lhe pedir que as desautore ou que enuncie os fundamentos que julgue ter para tão graves asserções. A tal pedido nenhum cavalheiro, e menos ainda um Sacerdote, pode furtar-se.

E como as acusações da entrevista foram públicas, público deve ser também o nosso diálogo. Pedimos, pois, que V. Revma. obtenha acolhida para a presente carta no "Diário de Minas", onde foi publicada a entrevista atribuída a V. Revma., ou em "O Diário", do qual V. Revma. é Assistente Eclesiástico e redator da Página Religiosa.

Temos a esperança de que V. Revma. atenda a tão justo pedido. Pois tendo "O Diário" publicado as críticas do Revmo. Frei Cláudio Van Balen ao Sr. João Camilo de Oliveira Tôrres, em 9 de março p. p. o mesmo jornal publicou a defesa daquele professor, acompanhada por uma nota assinada por V. Rvma. que explicava que, "por dever de ética", acolhia na "mesma página" a citada defesa. V. Revma. enuncia aí uma regra de ética o qual, por certo, não poderá faltar no presente caso. Pois uma regra de ética é um princípio de conduta universal. E haveria, diríamos, fanatismo em considerar que, dos beneficiados desse princípio, só a TFP pudesse ser excluída.

É verdade que a defesa, neste caso, ocupa uma [...]Nada mais difícil e mais longo, no entanto, do que refutar acusações genéricas e carentes de provas

Não cremos, entretanto, que esta circunstância exima V. Revma. de publicar a presente

de modo conciso a acusações definidas e documentadas.

Apresentamos a V. Revma. nossos antecipados agradecimentos, bem como a afirmação de todo o respeito que nos merece sua qualidade de Sacerdote, pela atenção que der à presente, e pedimos que se lembre de nós no Santo Sacrifício e aos pés de Maria Santíssima,

Pela Secção de Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, aa) Antonio Rodrigues Ferreira — Presidente, Milton Luiz de Salles Mourão — Vice-Presidente, Vicente José Ferreira Netto — Secretário, Aloízio Augusto Barbosa Tôrres Pereira — Tesoureiro.

■ P.S. — Na introdução que o "Diário de Minas" fez à entrevista atribuída a V. Revma., está afirmado, entre outras coisas, que "os rapazes da TFP [...], porque não quiseram pagar a empregada, tiveram que ir à Justiça". A imputação é caluniosa. De fato a cozinheira Da. Narcisa Cândida Pereira moveu contra uma "república" habitada por universitários militantes da Tradição, Família e Propriedade uma ação trabalhista na qual pretendia indenizações por ter sido dispensada da dita "república".. Por acórdão do Tribunal Regional do Trabalho com jurisdição no Estado de Minas Gerais (cf. "Minas Gerais" de 28-3-67, em "Diário da Justiça", ref. Justiça do Trabalho), ficou decidido, em instância definitiva, que ela não fazia jus às indenizações que pretendia. E foi só o que houve. Poderia V. Revma. pedir ao "Diário de Minas" que esclarecesse seus leitores sobre o assunto? Quanto às outras referências da nota introdutória do "Diário de Minas", julgamos supérfluo dar resposta".

"Reflexões (do Revmo. Pe. Paulo Fernandes.) sobre o TFP"

No dia imediato ao da distribuição do folheto, ou seja, no dia 27, o Revmo. Pe. Paulo Fernandes, que há dez dias se mantinha em silêncio, decidiu-se a publicar uma resposta em sua página de "O Diário". Essa resposta, intitulada "Reflexões sobre a TFP", dispensa comentários, como se verá pela leitura do texto integral que passamos a reproduzir:

"Representantes da "Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade", seção de Minas Gerais, escreveram-me há pouco uma longa carta em que falavam de uma entrevista injuriosa que eu teria dado contra aquela organização.

A resposta, que seria enviada reservadamente e não de público, perdeu toda a sua razão de ser, porque a referida carta acaba de ser distribuída aí, pela cidade, à guisa de uma publicidade não só desnecessária, mas sobretudo bastante incômoda ao meu modesto nome de padre.

De qualquer modo, se a Comissão Central dos Bispos do Brasil não quis dar qualquer resposta à T.F.P., não seria eu, um simples padre e um simples fiel, que agora viria a público para iniciar uma polêmica — estéril e inútil — com aqueles que, em nome da mesma T.F.P., há pouco me interpelaram.

Sobre o assunto, que me parece pouco relevante, eu apenas prestaria os seguintes esclarecimentos:

1) O "Diário de Minas", em sua edição do dia 9 do corrente mês, divulgou uma notícia que, pelo seu contexto, é, antes de tudo, da responsabilidade do próprio jornal. O repórter, após fazer considerações pessoais sobre a T.F.P., de fato intercalou frases e expressões que me foram atribuídas, mas que, na realidade, eu não havia pronunciado. O tom irônico que o repórter usa em seu noticiário também não é de minha responsabilidade. Assim, numa conversa muito rápida e por telefone, não me lembro de ter falado sobre a momentosa questão da "propriedade privada", não disse que o jornal "Catolicismo" esteja corrompendo os seus leitores, não afirmei que só dois bispos aqui do Brasil subscrevem o fanatismo da T.F.P.

Numa redação que agora é de minha responsabilidade, acredito que, em essência, declarei ao repórter o seguinte:

- Apoio totalmente os padres que, nesta Arquidiocese de Belo Horizonte, não querem que, o "Catolicismo" seja vendido às portas de igrejas em horários de missa. Esta, aliás, tem sido a atitude da maioria absoluta dos sacerdotes dessa Capital.

- Considero a T.F.P., uma organização reacionária e conservadora, sobretudo no plano religioso e social. Bastaria lembrar que ela se insurge constantemente contra o comunismo, mas quase nada fala sobre o capitalismo, segundo a linha da "Populorum Progressio".

- Que me conste, apenas dois bispos do Brasil estão profundamente ligados à T.F.P. Isto não é segredo para ninguém, e muito menos para os integrantes daquela entidade.

* * *

Seria difícil, numa simples nota de imprensa, citar fatos, palavras ou atitudes que demonstram na realidade um certo fanatismo por parte de vários membros da T.F.P. — Já desde o tempo do Concílio, eu tentei, aqui na redação de O DIÁRIO, dialogar com jovens que me vinham trazer notícias bastante tendenciosas sobre os trabalhos do Vaticano II. Com alguns rapazes, eu cheguei mesmo a dizer que negar a evidência só pode ser uma atitude típica de fanatismo. Um outro fato: a carta que me foi dirigida cita a opinião do Pró-Secretário do Bispado de Campos o Côn. Artur Salvador — para quem a NOTA oficial e pública da Comissão Central da C.N.B.B., "deixou de ter vigência". Mas, no caso, "data vênia", parece tratar-se de uma opinião isolada, pois só os bispos do Brasil, em outra NOTA pública e oficial, é que poderiam contestar ou modificar o primeiro documento em que a Comissão Central da C.N.B.B. censura a T.F.P.

- Um leigo, um padre ou um cônego certamente não são as pessoas indicadas para refutar ou contestar uma nota oficial da Comissão Central da C.N.B.B., Comissão, aliás, constituída. de Cardeais e de expressivas figuras do Episcopado Brasileiro.

Enfim, como não desejo fazer polêmica, encerro aqui, minhas considerações. Lamento que o repórter do "Diário de Minas" não tenha sido bem fiel ao meu pensamento. E foi por isto e por causa de uma carta ontem distribuída em alguns bairros aqui de nossa Capital — que eu tentei expressar melhor minhas ideias.

Eu gostaria imensamente de dialogar com a T.F.P. — Mas, para isto, eu desejaria que essa organização desse provas concretas de uma efetiva integração no Plano de Pastoral dos Bispos do Brasil, Que fosse realmente pioneira, na aplicação de TODOS OS DOCUMENTOS CONCILIARES.

Porque, para mim, não é com carta ou interpelação a bispos que serviremos melhor à Igreja. E, de minha parte, não entendo um diálogo realmente fraternal, ou entre os católicos ou entre esses e outros homens de boa vontade, a não ser na medida em que, de um e de outro lado, a reflexão não seja perturbada por qualquer tipo de fanatismo".

Repercussões na opinião pública

A atitude da TFP montanhesa repercutiu favoravelmente em amplos setores da opinião pública, e as "reflexões" do Revmo. Pe. Paulo Fernandes foram tomadas como uma tentativa de fugir ao problema. Sobretudo comentava-se sua recusa peremptória do diálogo e o fato de S. Revma. se mostrar incapaz de apontar em pronunciamentos da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade algo que justificasse suas acusações,

Entre as diversas manifestações de solidariedade recebidas pela TFP, registramos aqui a do Sr. Francisco Bilac Pinto, Secretário de Administração deste Estado, que dirigiu à Secção local da entidade um cartão em que "agradece a gentileza da remessa do folheto que traz reproduzido o conteúdo da carta enviada ao Padre Paulo Fernandes, em 15 de março próximo passado, portadora de convite para um diálogo sobre a entrevista publicada pela Imprensa em relação à TFP. Cumprimenta-a pela iniciativa, prudente e acertada nos termos que lhe foram expostos".