(continuação)
Capítulo XII
A Igreja e a Contra-Revolução
A Revolução nasceu, como vimos, de uma explosão de paixões desregradas, que vai conduzindo à destruição de toda a sociedade temporal, à completa subversão da ordem moral, à negação de Deus. O grande alvo da Revolução é, pois, a Igreja, Corpo Místico de Cristo, Mestra infalível da verdade, tutora da Lei natural e, assim, fundamento último da própria ordem temporal.
Isto posto, cumpre estudar a relação entre a Instituição divina que a Revolução quer destruir, e a Contra-Revolução.
1. A Igreja é algo de muito mais alto e mais amplo do que a Revolução e a Contra-Revolução
A Revolução e a Contra-Revolução são episódios importantíssimos da História da Igreja, pois constituem o próprio drama da apostasia e da conversão do Ocidente cristão. Mas, enfim, são meros episódios.
A missão da Igreja não se estende só ao Ocidente, nem se circunscreve cronologicamente na duração do processo revolucionário. “Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas” (*) , poderia ela dizer ufana e tranquila em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje.
(*) Cícero, Familiares, 12, 25, 5.
Seu objetivo consiste em exercer seu poder espiritual direto e seu poder temporal indireto, para a salvação das almas. A Revolução foi um obstáculo que se levantou contra o exercício dessa missão. A luta contra tal obstáculo concreto, entre tantos outros, não é para a Igreja senão um meio circunscrito às dimensões do obstáculo - meio importantíssimo, é claro, mas simples meio.
Assim, ainda que a Revolução não existisse, a Igreja faria tudo quanto faz para a salvação das almas.
Poderemos elucidar o assunto se compararmos a posição da Igreja, em face à Revolução e à Contra-Revolução, com a de uma nação em guerra.
Quando Aníbal estava às portas de Roma, foi necessário levantar e dirigir contra ele todas as forças da República. Era uma reação vital contra o potentíssimo e quase vitorioso adversário. Roma era apenas a reação a Aníbal? Como pretendê-lo?
Igualmente absurdo seria imaginar que a Igreja é só a Contra-Revolução.
Aliás, cumpre esclarecer que a Contra-Revolução não é destinada a salvar a Esposa de Cristo. Apoiada na promessa de seu Fundador, não precisa Esta dos homens para sobreviver.
Pelo contrário, a Igreja é que dá vida à Contra-Revolução, que, sem Ela, nem seria exequível, nem sequer concebível.
A Contra-Revolução quer concorrer para que se salvem tantas almas ameaçadas pela Revolução, e para que se afastem os cataclismos que ameaçam a sociedade temporal. E para isto deve apoiar-se na Igreja, e humildemente servi-la, em lugar de imaginar orgulhosamente que A salva.
2. A Igreja tem o maior interesse no esmagamento da Revolução
Se a Revolução existe, se ela é o que é, está na missão da Igreja, é do interesse da salvação das almas, é capital para maior glória de Deus que a Revolução seja esmagada.
3. A Igreja é, pois, uma força fundamentalmente contra-revolucionária
Tomado o vocábulo Revolução no sentido que lhe damos, a epígrafe é conclusão óbvia do que dissemos acima. Afirmar o contrário seria dizer que a Igreja não cumpre sua missão.
4. A Igreja é a maior das forças contra-revolucionárias
A primazia da Igreja entre as forças contra-revolucionárias é óbvia, se considerarmos o número dos católicos, sua unidade, sua influência no mundo. Mas esta legítima consideração de recursos naturais tem uma importância muito secundária. A verdadeira força da Igreja está em ser o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.
5. A Igreja é a alma da Contra-Revolução
Se a Contra-Revolução é a luta para extinguir a Revolução e construir a cristandade nova, toda resplendente de fé, de humilde espírito hierárquico e de ilibada pureza, é claro que isto se fará sobretudo por uma ação profunda nos corações. Ora, esta ação é obra própria da Igreja, que ensina a doutrina católica e a faz amar e praticar. A Igreja é, pois, a própria alma da Contra-Revolução.
6. A exaltação da Igreja é o ideal da Contra-Revolução
Proposição evidente. Se a Revolução é o contrário da Igreja, é impossível odiar a Revolução (considerada globalmente, e não em algum aspecto isolado) e combatê-la, sem ipso facto ter por ideal a exaltação da Igreja.
7. O âmbito da Contra-Revolução ultrapassa, de algum modo, o da Igreja
Pelo que ficou dito, a ação contra-revolucionária envolve uma reorganização de toda a sociedade temporal: “Há todo um mundo a ser reconstruído até em seus fundamentos”, disse Pio XII (*) , diante dos escombros de que a Revolução cobriu a terra inteira.
(*) Exortação aos fiéis de Roma, de 10-II-1952 – Discorsi e Radio-messaggi, vol. XIII, p. 471.
Ora, esta tarefa de uma fundamental reorganização contra-revolucionária da sociedade temporal, se de um lado deve ser toda inspirada pela doutrina da Igreja, envolve de outro um sem número de aspectos concretos e práticos que estão propriamente na ordem civil. E a este título a Contra-Revolução transborda do âmbito eclesiástico, continuando sempre profundamente ligada à Igreja no que diz respeito ao Magistério e ao poder indireto desta.
8. Se todo católico deve ser contra-revolucionário
Na medida em que é apóstolo, o católico é contra-revolucionário. Mas ele o pode ser de modos diversos.
A. O contra-revolucionário implícito
Pode sê-lo implícita e como que inconscientemente. É o caso de uma Irmã de Caridade num hospital. Sua ação direta visa a cura dos corpos, e sobretudo o bem das almas. Ela pode exercer esta ação sem falar de "Revolução e Contra-Revolução". Pode até viver em condições tão especiais que ignore o fenômeno Revolução e Contra-Revolução. Porém, na medida em que realmente fizer bem às almas, estará obrigando a retroceder nelas a influência da Revolução, o que é implicitamente fazer Contra-Revolução.
B. Modernidade de uma explicitação contra-revolucionária
Numa época como a nossa, toda imersa no fenômeno Revolução e Contra-Revolução, parece-nos condição de sadia modernidade conhecê-lo a fundo e tomar diante dele a atitude perspicaz e enérgica que as circunstâncias pedem.
Assim, cremos sumamente desejável que todo apostolado atual, sempre que for o caso, tenha uma intenção e um tônus explicitamente contra-revolucionário.
Em outros termos, julgamos que o apóstolo realmente moderno, qualquer que seja o campo a que se dedique, acrescerá muito a eficácia de seu trabalho se souber discernir a Revolução nesse campo, e marcar correspondentemente de um cunho contra-revolucionário tudo quanto fizer.
C. O contra-revolucionário explícito
Entretanto, ninguém negará que seja lícito que certas pessoas tomem como tarefa própria desenvolver nos meios católicos e não católicos um apostolado especificamente contra-revolucionário. Isto, elas o farão proclamando a existência da Revolução, descrevendo-lhe o espírito, o método, as doutrinas, e incitando todos à ação contra-revolucionária.
Fazendo-o, estarão pondo suas atividades a serviço de um apostolado especializado tão natural e meritório (e por certo mais profundo) quanto o dos que se especializam na luta contra outros adversários da Igreja, como o espiritismo ou o protestantismo.
Exercer influência nos mais variados meios católicos ou não católicos, a fim de alertar os espíritos contra os males do protestantismo, por exemplo, é certamente legítimo, e necessário a uma ação antiprotestante inteligente e eficaz. Análogo procedimento terão os católicos que se entreguem ao apostolado da Contra-Revolução.
Os possíveis excessos desse apostolado - que os pode ter como outro qualquer - não invalidam o princípio que estabelecemos. Pois “abusus non tollit usum”.
D. Ação contra-revolucionária que não constitui apostolado
Contra-revolucionários há, enfim, que não fazem apostolado em senso estrito, pois se dedicam à luta em certos campos como o da ação especificamente cívico-partidária, ou do combate à Revolução por meio de empreendimentos econômicos. Trata-se, aliás, de atividades muito relevantes, que só podem ser vistas com simpatias.
9. Ação Católica e Contra-Revolução
Se empregarmos a palavra Ação Católica no sentido legítimo que lhe deu Pio XII, isto é, conjunto de associações que, sob a direção da Hierarquia, colaboram com o apostolado desta, a Contra-Revolução em seus aspectos religiosos e morais é, a nosso ver, parte importantíssima do programa de uma Ação Católica sadiamente moderna.
A ação contra-revolucionária pode ser feita, naturalmente, por uma só pessoa, ou pela conjugação, a título privado, de várias. E, com a devida aprovação eclesiástica, pode até culminar na formação de uma associação religiosa especialmente destinada à luta contra a Revolução.
É óbvio que a ação contra-revolucionária no terreno estritamente partidário ou econômico não faz parte dos fins da Ação católica.
10. A Contra-Revolução e os não católicos
A Contra-Revolução pode aceitar a cooperação de não católicos? Podemos falar de contra-revolucionários protestantes, muçulmanos, etc.? A resposta precisa ser muito matizada. Fora da Igreja não existe autêntica Contra-Revolução (*) . Mas podemos admitir que determinados protestantes ou muçulmanos, por exemplo, se achem no estado de alma de quem começa a perceber toda a malícia da Revolução e a tomar posição contra ela. De pessoas assim é de esperar-se que venham a opor à Revolução barreiras por vezes muito importantes: se corresponderem à graça, poderão tornar-se católicos excelentes e, portanto, contra-revolucionários eficientes. Enquanto não o forem, em todo caso obstam em alguma medida à Revolução e podem até fazê-la recuar. No sentido pleno e verdadeiro da palavra, eles não são contra-revolucionários. Mas pode-se e até se deve aproveitar a sua cooperação, com o cuidado que, segundo as diretrizes da Igreja, tal cooperação exige. Particularmente devem ser tomados em linha de conta pelos católicos os perigos inerentes às associações interconfessionais, segundo sabiamente advertiu São Pio X: “Com efeito, sem falar de outros pontos, são incontestavelmente graves os perigos a que, por causa de associações desta espécie, os nossos expõem ou com certeza podem expor, quer a integridade de sua fé, quer a justa obediência às leis e preceitos da Igreja Católica” (**) .
(*) cfr. no 5, supra.
(**) Encíclica Singulari Quadam, de 24-IX-1912, Bonne Presse, Paris, vol. VII, p. 275.
O melhor apostolado dito “de conquista” deve ter por objeto esses não católicos de tendências contra-revolucionárias.
CONCLUSÃO
Na realidade, por tudo quanto aqui se disse, para uma mentalidade posta na lógica dos princípios contra-revolucionários, o quadro de nossos dias é muito claro. Estamos nos lances supremos de uma luta, que chamaríamos de morte se um dos contendores não fosse imortal, entre a Igreja e a Revolução. Filhos da Igreja, lutadores nas lides da Contra-Revolução, natural é que, ao cabo deste trabalho, o consagremos filialmente a Nossa Senhora.
A primeira, a grande, a eterna revolucionária, inspiradora e fautora suprema desta Revolução, como das que a precederam e lhe sucederem, é a Serpente, cuja cabeça foi esmagada pela Virgem Imaculada. Maria é, pois, a Padroeira de quantos lutam contra a Revolução.
A mediação universal e onipotente da Mãe de Deus é a maior razão de esperança dos contra-revolucionários. E em Fátima Ela já lhes deu a certeza da vitória, quando anunciou que, ainda mesmo depois de um eventual surto do comunismo no mundo inteiro, “por fim seu Imaculado Coração triunfará”.
Aceite a Virgem, pois, esta homenagem filial, tributo de amor e expressão de confiança absoluta em seu triunfo.
Não quereríamos dar por encerrado o presente artigo, sem um preito de filial devotamento e obediência irrestrita ao “doce Cristo na terra”, coluna e fundamento infalível da Verdade, Sua Santidade o Papa João XXIII.
“Ubi Ecclesia ibi Christus, ubi Petrus ibi Ecclesia”.
É pois para o Santo Padre que se volta todo o nosso amor, todo o nosso entusiasmo, toda a nossa dedicação. É com estes sentimentos, que animam todas as páginas de “Catolicismo” desde sua fundação, que nos abalançamos também a publicar este trabalho.
Sobre cada uma das teses que o constituem, não temos em nosso coração a menor dúvida. Sujeitamo-las todas, porém, irrestritamente ao juízo do Vigário de Jesus Cristo, dispostos a renunciar de pronto a qualquer delas, desde que se distancie, ainda que de leve, do ensinamento da Santa Igreja, nossa Mãe, Arca da Salvação e Porta do Céu.
NOTA DA REVISÃO: "Revolução e Contra-Revolução", publicada em primeira mão em Catolicismo n° 100, de abril de 1959, foi posteriormente ampliada pelo Autor, o qual lhe acrescentou análises da evolução do processo revolucionário naqueles quase vinte anos decorridos desde a primeira edição.
Transcrevemos como Apêndice, para comodidade do leitor, esses acréscimos, que não constam da versão em imagem do Catolicismo n° 100.
APÊNDICE
PARTE III - REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO: VINTE ANOS DEPOIS (*)
(*) NOTA DA EDITORA - Em 1976, foi solicitado ao Autor que redigisse um prólogo para a 3ª edição italiana desta obra. Ele, porém, julgou mais oportuno apresentar ao público uma análise da evolução do processo revolucionário naqueles quase vinte anos decorridos desde a primeira edição. E acrescentou então uma terceira parte ao seu livro, a qual veio a lume, em primeira mão, no Brasil, no mensário "Catolicismo", em janeiro de 1977.
Em 1992, após a queda da cortina de ferro, o Autor atualizou esta parte 3ª com alguns comentários à margem.
Capítulo I - A Revolução, um processo em transformação contínua
Aqui terminava, em suas anteriores edições, o ensaio "Revolução e Contra-Revolução"; seguiam-se apenas as rápidas palavras de piedade e entusiasmo que constituíam a “Conclusão”.
Transcorrido tão largo tempo de 1959 para cá - repleto de acontecimentos -, caberia perguntar se, sobre as matérias de que o ensaio trata, haveria algo mais a dizer hoje. A resposta não poderia deixar de ser afirmativa. É o que se apresenta em seguida ao leitor.
1. “Revolução e Contra-Revolução” e TFPs: vinte anos de ação e de luta
...“Vinte anos depois”: o título do romance de Alexandre Dumas - tão apreciado pelos adolescentes do Brasil até o momento, já distante, em que profundas transformações psicológicas destruíram o gosto por esse gênero literário - uma associação de imagens o traz a nosso espírito quando começamos a escrever estas notas.
Voltamo-nos, há pouco, ao ano de 1959. Estamos terminando o ano de 1976. Já não está longe, pois, o fim da segunda década em que este livro circula. - Vinte anos...
Neste período, as edições deste ensaio se têm multiplicado (*) .
(*) NOTA DA EDITORA: "Revolução e Contra-Revolução" foi editado em sete línguas e em treze países, com tiragem total de mais de 125.000 exemplares.
"Revolução e Contra-Revolução": não tivemos o intuito de fazer dele um mero estudo. Escrevemo-lo também com a intenção de que fosse um livro de cabeceira para cerca de uma centena de jovens brasileiros que nos pediram que lhes orientássemos e coordenássemos os esforços com vistas aos problemas e aos deveres com que então se defrontavam. Esse pugilo inicial - semente da futura TFP - se estendeu em seguida pelo território brasileiro, de dimensões continentais. Circunstâncias propícias favoreceram, pari passu, a formação e o desenvolvimento de entidades coirmãs e autônomas por toda a América do Sul. O mesmo foi acontecendo, depois, nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e França. Afinidades de pensamento e relações cordiais promissoras vêm começando a ligar, mais recentemente, essa extensa família de entidades, a personalidades e associações de outros países da Europa. O Bureau Tradition, Famille, Propriété, fundado em Paris no ano de 1973, se vem dedicando a fomentar quanto possível os contatos e aproximações daí decorrentes.
Estes vinte anos foram, pois, de expansão. De expansão, sim, mas também de intensa luta contra-revolucionária.
Os resultados por essa forma alcançados vêm sendo consideráveis. Não é este o momento de os enumerar todos (*) . Cingimo-nos a dizer que, em cada um dos países onde existe uma TFP ou organização afim, vem esta combatendo sem tréguas a Revolução, ou seja, mais especialmente no campo religioso, o chamado esquerdismo católico; e no temporal, o comunismo. Incluímos como genuíno combate ao comunismo a luta contra todas as modalidades de socialismo, pois estas são apenas etapas preparatórias ou formas larvadas daquele. Tal combate tem-se desenvolvido sempre segundo os princípios, as metas e as normas da Parte II deste estudo (**) .
(*) NOTA DA EDITORA: Ver o livro Um homem, uma obra, uma gesta - Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1989, que inclui amplos dados históricos a cerca da TFP brasileira e das TFPs ou Bureaux-TFP existentes em 22 países, nos cinco continentes.
(**) NOTA DA EDITORA: A respeito do combate às formas de socialismo mais recentemente difundidas, merece especial destaque a Mensagem do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, O socialismo autogestionário - em vista do comunismo: barreira ou cabeça-de-ponte?, amplissimamente divulgada em 1982 (publicada em 50 grandes jornais e revistas do Ocidente, com um total de mais de 33 milhões de exemplares).
Os frutos assim obtidos bem demonstram o acerto do que, sobre os temas indissociáveis da Revolução e da Contra-Revolução, está dito na presente obra.
2. Em um mundo que se vem transformando contínua e aceleradamente, permanece atual, nos presentes dias, “Revolução e Contra-Revolução”? - A resposta é afirmativa
Ao mesmo tempo que se multiplicavam nos cinco continentes as edições e os frutos de "Revolução e Contra-Revolução" (*) , o mundo - impelido pelo processo revolucionário que há quatro séculos o vem sujeitando - passou por tão rápidas e profundas transformações que, ao lançar esta nova edição, cabe perguntar, conforme já consignamos, se em função delas deveria ser retificado ou acrescentado algo em relação ao que foi por nós escrito em 1959.
(*) NOTA DA EDITORA: "Revolução e Contra-Revolução" teve também expressiva difusão na Austrália, na África do Sul, nas Filipinas e na Nova Zelândia.
"Revolução e Contra-Revolução" se situa ora no campo teórico, ora em um campo teórico-prático muito próximo da pura teoria. Assim, não é de surpreender se, a nosso juízo, nenhum fato sobreveio de molde a alterar o que no estudo se contém.
Por certo, muitos métodos e estilos de ação usados pela TFP brasileira, entidade em vias de se constituir em 1959 - como por suas coirmãs - foram substituídos, ou adaptados a circunstâncias novas. E outros foram inovados. Mas eles se situam, todos, num campo inferior, executivo e prático. Deles não trata, portanto, "Revolução e Contra-Revolução". De onde não haver modificações a introduzir na obra.
Sem embargo de tudo isto, muito haveria a acrescentar se quiséssemos relacionar "Revolução e Contra-Revolução" com os novos horizontes que a História vem abrindo. Tal não caberia neste simples aditamento. Pensamos, contudo, que uma resenha do que fez a Revolução nestes vinte anos, uma mise au point do panorama mundial transformado por ela pode ser útil para que o leitor relacione fácil e comodamente o conteúdo do livro com a realidade presente. É o que passaremos a fazer.
Capítulo II - Apogeu e crise da Terceira Revolução
1. Apogeu da III Revolução
Como vimos (*) , três grandes revoluções constituíram as etapas capitais do processo de demolição gradual da Igreja e da civilização cristã: no século XVI, o Humanismo, a Renascença e o protestantismo (I Revolução); no século XVIII, a Revolução Francesa (II Revolução); e na segunda década deste século, o Comunismo (III Revolução).
(*) Cfr. Introdução e Parte I - Cap. III, 5, A-D.
Essas três revoluções só são compreensíveis como partes de um imenso todo, isto é, a Revolução.
Sendo a Revolução um processo, obviamente, de 1917 para cá, a III Revolução continuou sua caminhada. Encontra-se ela, no momento, em um verdadeiro apogeu.
Comentário acrescentado pelo Autor em 1992, à margem do texto de 1976:
Crise na III Revolução, fruto inevitável das utopias marxistas
Na mais ampla das escalas, isto é, na escala internacional, esse apogeu era notório. Di-lo o texto um pouco mais adiante. Com o recuo do tempo, o quadro geral desse apogeu pode ser pintado com traços ainda mais vastos, quer pela extensão e pela população das nações efetiva e plenamente sujeitas a regimes comunistas, quer pelas impressionantes dimensões da máquina vermelha de propaganda internacional e pela importância dos partidos comunistas dos países ocidentais, quer, por fim, pela penetração das tendências comunistas nos diversos domínios da cultura desses países. Tudo isso, acrescido pelo pânico mundial gerado pela ameaça atômica que a agressividade soviética, servida por um poder nuclear incontestável, fazia pairar sobre todos os continentes.
Tão múltiplos fatores davam origem a uma política de moleza e de capitulação quase universais em relação a Moscou. As Ostpolitiks alemã e vaticana, o vento mundial de um pacifismo incondicionalmente desarmamentista, o pulular de slogans e de fórmulas políticas que preparavam tantas burguesias ainda não comunistas a aceitar o comunismo como fato a ser consumado em um futuro não distante: todos nós vivemos sob a compressão psicológica desse otimismo de esquerda, que era enigmático como uma esfinge para os centristas indolentes, e ameaçador como um Leviatã para quem, como as TFPs e os seguidores de "Revolução e Contra-Revolução" em tantos países, discernia bem o “apocalipse” a que tudo isso ia conduzindo.
Quão poucos eram, então, os que percebiam estar esse Leviatã carregando em si uma crise in crescendo que ele não conseguia resolver, porque era o fruto inevitável das utopias marxistas! A crise veio crescendo e parece ter desintegrado o Leviatã. Mas, como adiante se verá, essa desintegração difundiu por sua vez, por todo o universo, uma clima de crise ainda mais letal.
Considerados os territórios e as populações sujeitos a regimes comunistas, dispõe a III Revolução de um império mundial sem precedentes na História. Este império é fator contínuo de insegurança e de desunião entre as maiores nações não comunistas.
De outro lado, estão nas mãos dos líderes da III Revolução os cordéis que movimentam, em todo o mundo não comunista, os partidos declaradamente comunistas e a imensa rede de criptocomunistas, para-comunistas, inocentes-úteis, infiltrados não só nos partidos não declaradamente comunistas - socialistas e outros - como ainda nas igrejas (*) , nas organizações profissionais e culturais, nos bancos, na imprensa, na televisão, no rádio, no cinema, etc.
(*) Falamos na infiltração do comunismo nas várias igrejas. É indispensável registrar que tal infiltração constitui um perigo supremo para o mundo, especificamente enquanto levada a cabo na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana. Pois esta não é apenas uma espécie no gênero "igrejas". É a única Igreja viva e verdadeira do Deus vivo e verdadeiro, a única Esposa mística de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual não está para as outras igrejas como um brilhante maior e mais rútilo em relação a brilhantes menores e menos rútilos. Mas como o único brilhante verdadeiro em relação a “congêneres” feitos de vidro...
E, como se tudo isto não bastasse, a III Revolução maneja com terrível eficácia as táticas de conquista psicológica de que adiante falaremos. Por meio destas, o comunismo vem conseguindo reduzir a um torpor displicente e abobado imensas parcelas não comunistas da opinião pública ocidental. Tais táticas permitem à III Revolução esperar, neste terreno, sucessos ainda mais marcantes, e desconcertantes para os observadores que analisam os fatos de fora dela.
A inércia, quando não a ostensiva e substanciosa colaboração de tantos governos “democráticos” e sorrateiras forças econômicas particulares do Ocidente, com o comunismo assim poderoso, compõe um terrível quadro de conjunto diante do qual vive o mundo de hoje.
Nestas condições, se o curso do processo revolucionário continuar como até aqui, é humanamente inevitável que o triunfo geral da III Revolução acabe se impondo ao mundo inteiro. - Dentro de quanto tempo? Muitos se assustarão caso, a título de mera hipótese, sugiramos mais vinte anos. Parecer-lhes-á surpreendentemente exíguo o prazo. Na realidade, quem poderá garantir que esse desenlace não sobrevenha dentro de dez ou cinco anos, ou antes ainda?
A proximidade, a eventual iminência desta grande hecatombe é sem dúvida uma das notas que, comparados os horizontes de 1959 com os de 1976, indicam maior transformação na conjuntura mundial.
A. Na rota do apogeu, a III Revolução evitou com cuidado as aventuras totais e inúteis
Se bem que esteja nas mãos dos mentores da III Revolução lançar-se, de um momento para outro, numa aventura para a conquista completa do mundo por uma série de guerras, de cartadas políticas, de crises econômicas e de revoluções sangrentas, é bem de ver que tal aventura apresenta consideráveis riscos. Os mentores da III Revolução só aceitarão de os correr caso isto lhes pareça indispensável.
Com efeito, se o emprego contínuo dos métodos clássicos levou o comunismo ao atual fastígio de poder sem expor o processo revolucionário senão a riscos cuidadosamente circunscritos e calculados, é explicável que os guias da Revolução mundial esperem alcançar a cabal dominação do mundo sem sujeitar sua obra ao risco de catástrofes irremediáveis, inerente a toda grande aventura.
B. Aventura, nas próximas etapas da III Revolução?
Ora, o sucesso dos costumeiros métodos da III Revolução está comprometido pelo surgimento de circunstâncias psicológicas desfavoráveis, as quais se acentuaram fortemente ao longo dos últimos vinte anos. - Tais circunstâncias forçarão o comunismo a optar, daqui por diante, pela aventura?
“Perestroika” e “glasnost”: desmantelamento da III Revolução, ou metamorfose do comunismo?
No ocaso do ano de 1989, aos supremos dirigentes do comunismo internacional, pareceu afinal chegado o momento de lançar uma imensa cartada política, a maior da história do comunismo. Esta consistiria em derrubar a cortina de ferro e o Muro de Berlim, o que, produzindo seus efeitos de forma simultânea à execução dos programas “liberalizantes” da glasnost (1985) e da perestroika (1986), precipitaria o aparente desmantelamento da III Revolução no mundo soviético.
Por sua vez, tal desmantelamento atrairia para seu supremo promotor e executor, Mikhail Gorbachev, a simpatia enfática e a confiança sem reservas das potências econômicas estatais e de muitos dos poderes econômicos privados do Primeiro Mundo.
A partir disto, o Kremlin poderia esperar um fluxo assombroso de recursos financeiros a favor de suas vazias arcas. Essas esperanças foram muito amplamente confirmadas pelos fatos, proporcionando a Gorbachev e à sua equipe a possibilidade de continuar flutuando, com o timão na mão, sobre o mar de miséria, de indolência e de inação, em face do qual a infeliz população russa, sujeita até há pouco ao capitalismo de Estado integral, vai se havendo, até o momento, com uma passividade desconcertante. Passividade esta propícia à generalização do marasmo, do caos, e quiçá à formação de uma crise conflitual interna suscetível, por sua vez, de degenerar em uma guerra civil... ou mundial (*) .
(*) NOTA DA EDITORA: Sob o título "Comunismo e anticomunismo na orla da última década deste milênio", foi lançada, a partir de fevereiro de 1990, firme interpelação do Autor aos líderes comunistas russos e ocidentais, a propósito da perestroika. Publicada em 21 jornais de oitos países, alcançou grande repercussão, especialmente na Itália (Cfr. “Catolicismo” de março/90).
Foi neste quadro que irromperam os sensacionais e brumosos acontecimentos de agosto de 1991, protagonizados por Gorbachev, Yeltsin e outros coautores dessa jogada, que abriram caminho à transformação da URSS numa frouxa confederação de Estados e depois ao seu desmantelamento.
Fala-se da eventual queda do regime de Fidel Castro em Cuba e da possível invasão da Europa Ocidental por hordas de famintos vindos do Leste e do Magreb. As diversas tentativas de incursão de desvalidos albaneses na Itália teriam sido como que um primeiro ensaio desta nova “invasão de bárbaros” na Europa.
Não falta quem, na Península Ibérica como em outros países da Europa, veja estas hipóteses em um comum panorama com a ação de presença de multidões de maometanos, despreocupadamente admitidos em anos anteriores em vários pontos desse continente, e com os projetos de construção de uma ponte sobre o Estreito de Gibraltar, ligando o Norte da África ao território espanhol, o que favoreceria por sua vez mais outras invasões muçulmanas na Europa.
Curiosa semelhança de efeitos da derrubada da cortina de ferro e da construção dessa tal ponte: ambas abririam o continente europeu para invasões análogas às que Carlos Magno repeliu vitoriosamente, isto é, as de hordas bárbaras ou semibárbaras vindas do leste e hordas maometanas provenientes de regiões ao Sul do continente europeu.
Dir-se-ia quase que o quadro pré-medieval se recompõe. Mas algo falta: é o ardor de fé primaveril nas populações católicas chamadas a fazer frente simultaneamente a estes dois impactos. Mas, sobretudo, falta alguém: onde encontrar hoje em dia um homem com o estofo de Carlos Magno?
Se imaginarmos o desenvolvimento das hipóteses acima enunciadas, cujo principal cenário seria o Ocidente, sem dúvida nos assombrarão a magnitude e a dramaticidade das consequências que as mesmas trariam consigo.
Entretanto, esta visão de conjunto nem de longe abarca a totalidade dos efeitos que vozes autorizadas, procedentes de círculos intelectuais sensivelmente opostos entre si e de imparciais órgãos de comunicação, nos anunciam nestes dias.
Por exemplo, a crescente oposição entre países consumidores e países pobres. Ou, em outros termos, entre nações ricas industrializadas e outras que são meras produtoras de matérias-primas.
Nasceria daí um entrechoque de proporções mundiais entre ideologias diversas, agrupadas, de um lado em torno do enriquecimento indefinido, e de outro do subconsumo miserabilista. À vista desse eventual entrechoque, é impossível não recordar a luta de classes preconizada por Marx. E daí surge naturalmente uma pergunta: será essa luta uma projeção, em termos mundiais, de um embate análogo ao que Marx concebeu sobretudo como um fenômeno socioeconômico dentro das nações, conflito este no qual participaria cada uma destas com características próprias?
Nessa hipótese, a luta entre o Primeiro Mundo e o Terceiro passará a servir de camuflagem mediante a qual o marxismo, envergonhado de seu catastrófico fracasso socioeconômico e metamorfoseado, trataria de obter, com renovadas possibilidades de êxito, a vitória final? Vitória essa que, até o momento, escapou das mãos de Gorbachev, o qual, embora certamente não seja o doutor, é pelo menos uma mescla de bardo e de prestidigitador da perestroika...
Da perestroika, sim, da qual não é possível duvidar que seja um requinte do comunismo, pois o confessa seu próprio autor no ensaio propagandístico “Perestroika – Novas ideias para o meu país e o mundo” (Ed. Best Seller, São Paulo, 1987, p. 35): “A finalidade desta reforma é garantir .... a transição de um sistema de direção excessivamente centralizado e dependente de ordens superiores para um sistema democrático baseado na combinação de centralismo democrático e autogestão”. Autogestão esta que, de mais a mais, era “o objetivo supremo do Estado soviético”, segundo estabelecia a própria Constituição da ex-URSS em seu Preâmbulo.
2. Obstáculos inesperados para a aplicação dos métodos clássicos da III Revolução
A. Declínio do poder persuasivo
Examinemos antes de tudo essas circunstâncias.
A primeira delas é o “declínio do poder persuasório do proselitismo comunista”.
Tempo houve em que a doutrinação explícita e categórica foi, para o comunismo internacional, o principal meio de recrutamento de adeptos.
Em largos setores da opinião pública e em quase todo o Ocidente, por motivos que seria longo enumerar, as condições se tornaram hoje, em muito ponderável medida, infensas a tal doutrinação. Decresceu visivelmente o poder persuasivo da dialética e da propaganda comunista doutrinária integral e ostensiva.
Assim se explica que, em nossos dias, a propaganda comunista procure cada vez mais fazer-se de modo camuflado, suave e lento. Tal camuflagem se faz ora difundindo os princípios marxistas, esparsos e velados, na literatura socialista, ora insinuando na própria cultura que chamaríamos “centrista” princípios que, à maneira de germens, se multiplicam levando os centristas à inadvertida e gradual aceitação de toda a doutrina comunista.
B. Declínio do poder de liderança revolucionária
À diminuição do poder persuasivo direto do credo vermelho sobre as multidões, que o recurso a esses meios oblíquos, lentos e trabalhosos denota, junta-se um correlato declínio no poder de liderança revolucionária do comunismo.
Examinemos como se manifestam esses fenômenos correlatos e quais os frutos deles.
a. Ódio, luta de classes, revolução
Essencialmente, o movimento comunista é e se considera uma revolução nascida do ódio de classes. A violência é o método mais coerente com ela. É o método direto e fulminante, do qual os mentores do comunismo esperavam, com o mínimo de riscos de fracasso, o máximo de resultados, no mínimo de tempo.
O pressuposto deste método é a capacidade de liderança dos vários PCs, pela qual lhes era dado criar descontentamentos, transformar estes descontentamentos em ódios, articular estes ódios numa imensa conjuração, e levar assim a cabo, com a força “atômica” do ímpeto desses ódios, a demolição da ordem atual e a implantação do comunismo.
b. Declínio da liderança do ódio, e do uso da violência
Ora, também esta liderança do ódio vai escapando das mãos dos comunistas.
Não nos alongamos aqui na explicação das complexas causas do fato. Limitamo-nos a notar que, no transcurso destes vinte anos, a violência foi dando aos comunistas vantagens cada vez menores. Para prová-lo, basta lembrar o malogro invariável das guerrilhas e do terrorismo disseminados por Cuba em toda a América Latina.
É bem verdade que, na África, a violência vem arrastando quase todo o continente em direção ao comunismo. Mas esse fato muito pouco diz a respeito das tendências da opinião pública no resto do mundo. Pois o primitivismo da maior parte das populações aborígines daquele continente as coloca em condições peculiares e inconfundíveis. E a violência ali não tem obtido adeptos por motivações principalmente ideológicas, mas também por ressentimentos anticolonialistas, dos quais a propaganda comunista soube valer-se com sua costumeira astúcia.
c. Fruto e prova desse declínio: a III Revolução se metamorfoseia em revolução risonha
A prova mais clara de que a III Revolução vem perdendo nos últimos vinte ou trinta anos sua capacidade de criar e liderar o ódio revolucionário é a metamorfose que ela se impôs.
Quando do degelo pós-stalianiano com o Ocidente, a III Revolução afivelou uma sorridente máscara, de polêmica se tornou dialogante, simulou estar mudando de mentalidade e de atitude, e se abriu para toda espécie de colaborações com os adversários que antes tentava esmagar pela violência.
Na esfera internacional, a Revolução passou assim, sucessivamente, da guerra fria para a coexistência pacífica, depois para a “queda das barreiras ideológicas”, e por fim para a franca colaboração com as potências capitalistas, rotulada, no linguajar publicitário, de Ostpolitik ou de détente.
Na esfera interna dos vários países do Ocidente, a “politique de la main tendue”, que fora, na era de Stalin, um mero artifício para embair pequenas minorias católicas esquerdistas, transformou-se numa verdadeira détente entre comunistas e pró-capitalistas, meio ideal usado pelos vermelhos para entabular relações cordiais e aproximações dolosas com todos os seus adversários, quer pertençam estes à esfera espiritual, quer à temporal. Veio daí uma série de táticas “amistosas”, como a dos companheiros de viagem, a do eurocomunismo legalista, afável e prevenido em relação a Moscou, a do compromisso histórico, etc.
Como já dissemos, todos estes estratagemas apresentam, hoje em dia, vantagens para a III Revolução. Mas estas são lentas, graduais, e subordinadas, em sua frutificação, a mil fatores variáveis.
No auge de seu poder, a III Revolução deixou de ameaçar e agredir, e passou a sorrir e pedir. Ela deixou de avançar em cadência militar e usando botas de cossaco, para progredir lentamente, com passo discreto. Ela abandonou o caminho reto - sempre o mais curto - e escolheu um ziguezague no decurso do qual não faltam incertezas.
- Que imensa transformação em vinte anos!
C. Objeção: os sucessos comunistas na Itália e na França
Mas - dirá alguém - os sucessos alcançados pelo comunismo por meio da aludida tática, quer na Itália, quer na França, não permitem afirmar que o mesmo esteja em retrocesso no mundo livre. Ou que, pelo menos, seu progresso seja mais lento do que o do carrancudo comunismo das eras de Lenine e de Stalin.
Antes de tudo, a tal objeção deve-se responder que as eleições gerais na Suécia, Alemanha Ocidental e Finlândia, bem como as eleições regionais e a atual instabilidade do gabinete trabalhista na Inglaterra, falam bem da inapetência das grandes massas em relação aos “paraísos” socialistas, à violência comunista, etc. (*)
(*) Essa tão vasta saturação antissocialista na Europa Ocidental, se bem que seja fundamentalmente um revigoramento do centro e não da direita, tem um alcance indiscutível na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução. Pois na medida em que o socialismo europeu sinta que vai perdendo as suas bases, seus chefes terão de ostentar distanciamento e até desconfiança em relação ao comunismo. Por sua vez, as correntes centristas, para não se confundirem, perante os seus próprios eleitorados, com os socialistas, terão que manifestar uma posição anticomunista ainda mais acentuada que a destes últimos. E as alas direitas dos partidos centristas terão de se declarar até militantemente antissocialistas.
Em outros termos, passar-se-á com as correntes esquerdistas e centristas favoráveis à colaboração com o comunismo o mesmo que ocorre com um trem quando a locomotiva é freada de modo brusco. O vagão imediatamente seguinte a esta recebe o choque e é projetado em direção oposta ao rumo que vinha seguindo. E, por sua vez, esse primeiro vagão comunica o choque, com análogo efeito, ao segundo vagão. E assim por diante até o fim do comboio.
- A presente acentuação da alergia antissocialista será apenas a primeira manifestação de um fenômeno profundo, chamado a depauperar duravelmente o processo revolucionário? Ou será um simples espasmo ambíguo e passageiro do bom senso, dentro do caos contemporâneo? - É o que os fatos até aqui ocorridos não nos permitem ainda dizer.
Há expressivos sintomas de que o exemplo desses países já começou a repercutir naquelas duas grandes nações católicas e latinas da Europa Ocidental, prejudicando assim os progressos comunistas.
Mas, a nosso ver, é preciso sobretudo pôr em dúvida a autenticidade comunista das crescentes votações obtidas pelo PC italiano ou pelo PS francês (e falamos do PS, já que o PC francês se acha estagnado).
Quer um quer outro partido (PSF e PCI) está longe de se ter beneficiado apenas do voto de seu próprio eleitorado. Apoios católicos certamente consideráveis - e cuja amplitude real só a História revelará um dia em toda a extensão - têm criado, em torno do PC italiano, ilusões, fraquezas, atonias e cumplicidades inteiramente excepcionais. A projeção eleitoral dessas circunstâncias espantosas e artificiais explica, em larga medida, o crescimento do número de votantes pró-PC, muitos dos quais não são de nenhum modo eleitores comunistas. E cumpre não esquecer, na mesma ordem de fatos, a influência na votação, direta ou indireta, de certos Cresos, cuja atitude francamente colaboracionista em relação ao comunismo dá ocasião a manobras eleitorais das quais a III Revolução tira óbvio proveito. Análogas observações podem ser feitas em relação ao PS francês.
3. O ódio e a violência, metamorfoseados, geram a guerra psicológica revolucionária total
Para melhor apreendermos o alcance dessas imensas transformações ocorridas no quadro da III Revolução nos últimos vinte anos, será necessário analisarmos em seu conjunto a grande esperança atual do comunismo, que é a guerra revolucionária psicológica.
Embora nascido necessariamente do ódio, e voltado por sua própria lógica interna para o uso da violência exercida por meio de guerras, revoluções e atentados, o comunismo internacional se viu compelido por grandes modificações em profundidade da opinião pública, a dissimular seu rancor, bem como a fingir ter desistido das guerras e das revoluções. Já o dissemos.
Ora, se tais desistências fossem sinceras, de tal maneira ele se desmentiria a si próprio, que se autodemoliria.
Longe disto, usa ele o sorriso tão-somente como arma de agressão e de guerra, e não extingue a violência, mas a transfere do campo de operação do físico e palpável, para o das atuações psicológicas impalpáveis. Seu objetivo: alcançar, no interior das almas, por etapas e invisivelmente, a vitória que certas circunstâncias lhe estavam impedindo de conquistar de modo drástico e visível, segundo os métodos clássicos.
Bem entendido, não se trata aqui de efetuar, no campo do espírito, algumas operações esparsas e esporádicas. Trata-se, pelo contrário, de uma verdadeira guerra de conquista - psicológica, sim, mas total - visando o homem todo, e todos os homens em todos os países.
Guerra psicológica revolucionária: “revolução cultural” e Revolução nas tendências
Como uma modalidade de guerra psicológica revolucionária, a partir da rebelião estudantil da Sorbonne, em maio de 1968, numerosos autores socialistas e marxistas em geral passaram a reconhecer a necessidade de uma forma de revolução prévia às transformações políticas e socioeconômicas, que operasse na vida cotidiana, nos costumes, nas mentalidades, nos modos de ser, de sentir e de viver. É a chamada “revolução cultural”.
Consideram eles que esta revolução, preponderantemente psicológica e tendencial, é uma etapa indispensável para se chegar à mudança de mentalidade que tornaria possível a implantação da utopia igualitária, pois, sem tal preparação, a transformação revolucionária e as consequentes “mudanças de estrutura” tornar-se-iam efêmeras.
O referido conceito de “revolução cultural” abarca, com impressionante analogia, o mesmo campo já designado por "Revolução e Contra-Revolução", em 1959, como próprio da Revolução nas tendências (Cfr. parte I, cap. 5.).
Insistimos neste conceito de guerra revolucionária psicológica total.
Com efeito, a guerra psicológica visa a psique toda do homem, isto é, “trabalha-o” nas várias potências de sua alma, e em todas as fibras de sua mentalidade.
Ela visa todos os homens, isto é, tanto partidários ou simpatizantes da III Revolução, quanto neutros ou até adversários.
Ela lança mão de todos os meios, a cada passo é-lhe necessário dispor de um fator específico para levar insensivelmente cada grupo social e até cada homem a se aproximar do comunismo, por pouco que seja. E isto em qualquer terreno: nas convicções religiosas, políticas, sociais e econômicas, nas impostações culturais, nas preferências artísticas, nos modos de ser e de agir em família, na profissão, na sociedade.
A. As duas grandes metas da guerra psicológica revolucionária
Dadas as atuais dificuldades do recrutamento ideológico da III Revolução, o mais útil de suas atividades se exerce, não sobre os amigos e simpatizantes, mas sobre os neutros e os adversários:
a) iludir e adormecer paulatinamente os neutros ;
b) dividir a cada passo, desarticular, isolar, aterrorizar, difamar, perseguir e bloquear os adversários;
- essas são, a nosso ver, as duas grandes metas da guerra psicológica revolucionária.
Desta maneira, a III Revolução torna-se capaz de vencer, porém mais pelo aniquilamento do adversário do que pela multiplicação dos amigos.
Obviamente, para conduzir esta guerra, mobiliza o comunismo todos os meios de ação com que conta, nos países ocidentais, graças ao apogeu em que nestes se acha a ofensiva da III Revolução.
B. A guerra psicológica revolucionária total, uma resultante do apogeu da III Revolução e dos embaraços por que esta passa
A guerra psicológica revolucionária total é, portanto, uma resultante da composição dos dois fatores contraditórios que já mencionamos: o auge de influência do comunismo sobre quase todos os pontos-chaves da grande máquina que é a sociedade ocidental, e de outro lado o declínio da capacidade de persuasão e de liderança dele sobre as camadas profundas da opinião pública do Ocidente.
4. A ofensiva psicológica da III Revolução, na Igreja
Não seria possível descrever esta guerra psicológica sem tratar acuradamente do seu desenrolar naquilo que é a própria alma do Ocidente, ou seja, o cristianismo, e mais precisamente a Religião Católica, que é o cristianismo em sua plenitude absoluta e em sua autenticidade única.
A. O Concílio Vaticano II
Dentro da perspectiva de "Revolução e Contra-Revolução", o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.
Este Concílio se quis pastoral e não dogmático. Alcance dogmático ele realmente não o teve. Além disto, sua omissão sobre o comunismo pode fazê-lo passar para a História como o Concílio a-pastoral.
Explicamos o sentido especial em que tomamos esta afirmação.
Figure-se o leitor um imenso rebanho enlanguescendo em campos pobres e áridos, atacado de todas as partes por enxames de abelhas, vespas, aves de rapina.
Os pastores se põem a regar a pradaria e a afastar os enxames. - Esta atividade pode ser qualificada de pastoral? - Em tese, por certo. Porém, na hipótese de que, ao mesmo tempo, o rebanho estivesse sendo atacado por matilhas de lobos vorazes, muitos deles com peles de ovelha, e os pastores se omitissem completamente de desmascarar ou de afugentar os lobos, enquanto lutavam contra insetos e aves, sua obra poderia ser considerada pastoral, ou seja, própria de bons e fiéis pastores?
Em outros termos, atuaram como verdadeiros Pastores aqueles que, no Concílio Vaticano II, quiseram espantar os adversários minores, e impuseram livre curso - pelo silêncio - a favor do adversário maior?
Com táticas aggiornate - das quais, aliás, o mínimo que se pode dizer é que são contestáveis no plano teórico e se vêm mostrando ruinosas na prática - o Concílio Vaticano II tentou afugentar, digamos, abelhas, vespas e aves de rapina. Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida.
É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja (*) . A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição.
(*) Cfr. Sermão de Paulo VI, de 29/6/1972.
Surpreendentes calamidades na fase pós-conciliar da Igreja
Sobre as calamidades na fase pós-conciliar da Igreja, é de fundamental importância o depoimento histórico de Paulo VI na Alocução “Resistite fortes in fide”, de 29 de junho de 1972, que citamos aqui na versão da Poliglotta Vaticana: “Referindo-se à situação da Igreja de hoje, o Santo Padre afirma ter a sensação de que ‘por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus’. Há – transcreve a Poliglotta – a dúvida, a incerteza, o complexo dos problemas, a inquietação, a insatisfação, o confronto. Não se confia mais na Igreja; confia-se no primeiro profeta profano [estranho à Igreja] que nos venha falar, por meio de algum jornal ou movimento social, a fim de correr atrás dele e perguntar-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida. E não nos damos conta de já a possuirmos e sermos mestres dela. Entrou a dúvida em nossas consciências, e entrou por janelas que deviam estar abertas à luz. ....
“Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos afastamos sempre mais uns dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de soterrá-los.
“Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. Seu nome é diabo, este misterioso ser a que também alude São Pedro em sua Epístola” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, pp. 707-709).
Alguns anos antes, o mesmo Pontífice, na Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, havia afirmado que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas, posto que ‘bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu’, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que dEla fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
Sua Santidade João Paulo II traçou também um panorama sombrio da situação da Igreja: “É necessário admitir realisticamente e com profunda e sentida sensibilidade que os cristãos hoje, em grande parte, sentem-se perdidos, confusos, perplexos e até desiludidos: foram divulgadas prodigamente ideias contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras e próprias heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia; imersos no ‘relativismo’ intelectual e moral e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetiva” (Alocução de 6-2-81 aos Religiosos e Sacerdotes participantes do I Congresso Nacional Italiano sobre o tema “Missões ao Povo para os Anos 80”, in “L’Osservatore Romano”, 7-2-81).
Em sentido semelhante pronunciou-se posteriormente o Emmo. Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé: “Os resultados que se seguiram ao Concílio parecem cruelmente opostos às expectativas de todos, a começar do papa João XXIII e depois de Paulo VI. .... Os Papas e os Padres conciliares esperavam uma nova unidade católica e, pelo contrário, se caminhou para uma dissensão que – para usar as palavras de Paulo VI – pareceu passar da autocrítica à autodemolição. Esperava-se um novo entusiasmo e, em lugar dele, acabou-se com demasiada frequência no tédio e no desânimo. Esperava-se um salto para a frente e, em vez disso, encontramo-nos ante um processo de decadência progressiva ....”. E conclui: “Afirma-se com letras claras que uma real reforma da Igreja pressupõe um inequívoco abandono das vias erradas que levaram a consequências indiscutivelmente negativas” (cfr. Vittorio Messori, A coloquio con il cardinale Ratzinger, Rapporto sulla fede, Edizioni Paoline, Milano, 1985, pp. 27-28).
A História narra os inúmeros dramas que a Igreja vem sofrendo nos vinte séculos de sua existência. Oposições que germinaram fora dela, e de fora mesmo tentaram destruí-la. Tumores formados dentro dela, por ela cortados, e que já então de fora para dentro tentaram destruí-la com ferocidade.
- Quando, porém, viu a História, antes de nossos dias, uma tentativa de demolição da Igreja, já não mais feita por um adversário, mas qualificada de “autodemolição” em altíssimo pronunciamento de repercussão mundial? (*)
(*) Cfr. Alocução de Paulo VI ao Seminário Lombardo, em 7/12/1968.
Daí resultou para a Igreja e para o que ainda resta de civilização cristã, uma imensa derrocada. A Ostpolitik vaticana, por exemplo, e a infiltração gigantesca do comunismo nos meios católicos, são efeitos de todas estas calamidades. E constituem outros tantos êxitos da ofensiva psicológica da III Revolução contra a Igreja.
A Ostpolitik vaticana: efeitos também surpreendentes
Hoje em dia, lendo estas linhas sobre a Ostpolitik, alguém poderia perguntar, ante a enorme transformação que houve na Rússia, se esta não resulta de uma jogada “genial” da Hierarquia eclesiástica. O Vaticano, baseado em informações do melhor quilate, teria previsto que o comunismo, corroído por crises internas, começaria por sua vez a autodemolir-se. E, para estimular o quartel-general mundial do ateísmo materialista a praticar essa autodemolição, a Igreja Católica, situada no outro extremo do panorama ideológico, teria simulado sua própria autodemolição. Com isto teria atenuado muito sensivelmente a perseguição que então sofria da parte do comunismo: entre moribundos certas conivências seriam concebíveis. A flexibilização da Igreja teria, pois, criado condições para a flexibilização do mundo comunista.
Caberia responder que, se a Sagrada Hierarquia tinha noção de que o comunismo estava em condições tais de indigência e de ruína que seria obrigado a se autodemolir, ela deveria denunciar essa situação e convocar todos os povos do Ocidente a preparar as vias do que seria o saneamento da Rússia e do mundo, quando o comunismo caísse efetivamente, e não deveria calar sobre o fato deixando que o fenômeno se produzisse à margem da influência católica e da cooperação generosa e solícita dos governos ocidentais. Pois só fazendo tal denúncia seria possível evitar que o desmoronamento soviético chegasse à situação na qual se encontra hoje, isto é, um beco sem saída, onde tudo é miséria e imbloglio.
De qualquer forma, é falso que a autodemolição da Igreja tenha apressado a autodemolição do comunismo, a menos que se suponha a existência de um tratado oculto entre ambos nesse sentido – uma espécie de pacto suicida -, tratado esse, para dizer pouco, carente de legitimidade e utilidade para o mundo católico. Isto para não mencionar tudo quanto essa mera hipótese contém de ofensivo aos Papas em cujos pontificados esta dupla eutanásia se teria verificado.
B. A Igreja, moderno centro de embate entre a Revolução e a Contra-Revolução
Em 1959, quando escrevemos "Revolução e Contra-Revolução", a Igreja era tida como a grande força espiritual contra a expansão mundial da seita comunista. Em 1976, incontáveis eclesiásticos, inclusive Bispos, figuram como cúmplices por omissão, colaboradores e até propulsores da III Revolução. O progressismo, instalado por quase toda parte, vai convertendo em lenha facilmente incendiável pelo comunismo a floresta outrora verdejante da Igreja Católica.
Em uma palavra, o alcance desta transformação é tal, que não hesitamos em afirmar que o centro, o ponto mais sensível e mais verdadeiramente decisivo da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução se deslocou da sociedade temporal para a espiritual, e passou a ser a Santa Igreja, na qual, de um lado, progressistas, criptocomunistas e pró-comunistas, e de outro lado, antiprogressistas e anticomunistas se confrontam (*) .
(*) Desde os anos 30, com o grupo que mais tarde fundou a TFP brasileira, empregamos o melhor de nosso tempo e de nossas possibilidades de ação e de luta, nas batalhas precursoras do grande prélio interior da Igreja. O primeiro lance de envergadura nessa luta foi a publicação do livro Em Defesa da Ação Católica (Editora Ave Maria, São Paulo, 1943), que denunciava o ressurgimento dos erros modernistas incubados na Ação Católica do Brasil. Cabe mencionar também nosso posterior estudo A Igreja ante a escalada da ameaça comunista - Apelo aos Bispos silenciosos (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1976).
C. Reações baseadas em “Revolução e Contra-Revolução”
À vista de tantas transformações, a eficácia de "Revolução e Contra-Revolução" ficou anulada? - Pelo contrário.
Em 1968, as TFPs até então existentes na América do Sul, inspiradas na Parte II deste ensaio - “A Contra-Revolução” - organizaram um conjunto de abaixo-assinados a Paulo VI, pedindo providências contra a infiltração esquerdista no Clero e no laicato católico da América do Sul.
No seu total, esses abaixo-assinados alcançaram durante o período de 58 dias, no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, 2.060.368 assinaturas. Foi, até aqui, ao que nos conste, o único abaixo-assinado de massa que - sobre qualquer tema - tenha englobado filhos de quatro nações da América do Sul. E em cada um dos países nos quais ele se realizou, foi - também ao que nos conste - o maior abaixo-assinado da respectiva história (*) . A resposta de Paulo VI não foi apenas o silêncio e a inação. Foi também - quanto nos dói dizê-lo - um conjunto de atos cujo efeito perdura até hoje, os quais dotam de prestígio e de facilidade de ação a muitos propulsores do esquerdismo católico.
(*) NOTA DA EDITORA: Posteriormente, em 1990, as TFPs então existentes, reunidas, levaram a cabo o maior abaixo-assinado da História, pela libertação da Lituânia, então sob jugo soviético, obtendo a impressionante cifra de 5.212.580 assinaturas.
Diante desta maré montante da infiltração comunista na Santa Igreja, as TFPs e entidades afins não desanimaram. E, em 1974, cada uma delas publicou uma declaração (*) na qual exprimiam a sua inconformidade com a Ostpolitik vaticana e seu propósito de “resistir-lhe em face” (*) . Uma frase da declaração, relativa a Paulo VI, exprime o espírito do documento: “E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade. Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”
(*) NOTA DA EDITORA: Sob o título “A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas - Para a TFP: omitir-se? ou resistir?, essa declaração - verdadeiro manifesto - foi publicada a partir de abril de 1974, sucessivamente em 57 jornais de onze países.
Não satisfeitas com esses lances, as TFPs e entidades afins promoveram nos respectivos países, no decurso deste ano, nove edições do best-seller da TFP andina, A Igreja do Silêncio no Chile - A TFP proclama a verdade inteira (*) .
(*) Esta obra, monumental por sua documentação, por sua argumentação e pelas teses que defende, teve uma precursora, e verdadeiramente épica, antes ainda da instalação do comunismo no Chile.
Trata-se do livro de Fábio Vidigal Xavier da Silveira, “Frei, o Kerensky chileno”, que denunciou a colaboração decisiva do Partido Democrata Cristão do país andino, e do falecido líder pedecista Eduardo Frei, então Presidente da República, na preparação da vitória marxista.
O livro teve dezessete edições, transpondo a casa dos cem mil exemplares, nos seguintes países: Brasil, Argentina, Equador, Colômbia, Venezuela e Itália.
Em quase todos esses países, a respectiva edição foi precedida de um prólogo descrevendo múltiplos e impressionantes fatos locais consoantes com o que ocorrera no Chile.
A acolhida desse grande esforço publicitário pode-se dizer vitoriosa: ao todo foram impressos 56 mil exemplares, só na América do Sul, onde, nos países mais populosos, a edição de um livro dessa natureza, quando boa, costuma consistir em cinco mil exemplares.
Na Espanha, foi efetuado um impressionante abaixo-assinado de mais de mil sacerdotes seculares e regulares de todas as regiões do país manifestando à Sociedade Cultural Covadonga seu decidido apoio ao corajoso prólogo da edição espanhola.
D. Utilidade da atuação das TFPs e entidades afins, inspirada em “Revolução e Contra-Revolução”
Que utilidade prática tem tido, neste campo específico da batalha, a atividade contra-revolucionária das TFPs, inspirada em "Revolução e Contra-Revolução"?
Denunciando à opinião católica o perigo da infiltração comunista, elas lhe têm aberto os olhos para as urdiduras dos Pastores infiéis. O resultado é que estes vão levando cada vez menos ovelhas nos caminhos da perdição em que se embrenharam. É o que uma observação dos fatos, ainda que sumária, permite constatar.
Não é isto, só por si, uma vitória. Mas é uma preciosa e indispensável condição para ela. As TFPs dão graças a Nossa Senhora por estarem prestando, desta maneira, dentro do espírito e dos métodos da segunda parte de "Revolução e Contra-Revolução", o seu contributo para a grande luta em que também outras forças sadias - uma ou outra de grande envergadura e capacidade de ação - se encontram empenhadas.
5. Balanço de vinte anos de III Revolução, segundo os critérios de “Revolução e Contra-Revolução”
Fica assim delineada a situação da III Revolução e da Contra-Revolução, como elas se apresentam pouco antes do vigésimo aniversário da publicação do livro.
De um lado, o apogeu da III Revolução torna mais difícil do que nunca um êxito da Contra-Revolução a breve prazo.
De outro lado, a mesma alergia antissocialista, que constitui presentemente grave óbice para a vitória do comunismo, cria a médio prazo, para a Contra-Revolução, condições acentuadamente propícias. Cabe aos vários grupos contra-revolucionários esparsos pelo mundo a nobre responsabilidade histórica de as aproveitar.
As TFPs têm procurado realizar sua parte do esforço comum, difundindo-se ao longo destes quase vinte anos pela América, com uma novel TFP na França, suscitando uma dinâmica organização afim na Península Ibérica e projetando seu nome e seus contatos em outros países do Velho Mundo, com vivos anseios de colaboração voltados para todos os grupos contra-revolucionários que nele pelejam.
Vinte anos depois do lançamento de "Revolução e Contra-Revolução", as TFPs e entidades afins se acham ombro a ombro com as organizações de primeira fila, na luta contra-revolucionária.
Capítulo III - A Quarta Revolução que nasce
O panorama que assim se apresenta não seria completo se negligenciássemos uma transformação interna na III Revolução. É a IV Revolução que dela vai nascendo.
Nascendo, sim, à maneira de requinte matricida. Quando a II Revolução nasceu, requintou (*) , venceu e golpeou de morte a primeira. O mesmo ocorreu quando, por processo análogo, a III Revolução brotou da segunda. Tudo indica ter chegado agora para a III Revolução o momento, ao mesmo tempo pinacular e fatal, em que ela gera a IV Revolução, e por esta se expõe a ser morta.
(*) Cfr. Parte I - Cap. VI, 3.
- No entrechoque entre a III Revolução e a Contra-Revolução, haverá tempo para que o processo gerador da IV Revolução se desenvolva por inteiro? Esta última abrirá efetivamente uma etapa nova na história da Revolução? Ou será simplesmente um fenômeno abortivo, que vai surgindo e desaparecerá sem influência capital, no entrechoque entre a III Revolução e a Contra-Revolução? O maior ou menor espaço a ser reservado para a IV Revolução nascente, nestas notas tão apressadas e sumárias, estaria na dependência da resposta a essa pergunta. Resposta essa, aliás, que, de modo cabal, só o futuro poderá dar.
Ao que é incerto, não convém tratar como se tivesse uma importância certa. Consagremos aqui, pois, um espaço muito limitado ao que parece ser a IV Revolução.
1. A IV Revolução prevista pelos autores da III Revolução
Como é bem sabido, nem Marx, nem a generalidade de seus mais notórios sequazes, tanto “ortodoxos”, como “heterodoxos”, viram na ditadura do proletariado a etapa terminal do processo revolucionário. Esta não é, segundo eles, senão o aspecto mais quintessenciado e dinâmico da Revolução universal. E, na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução não terá termo. Da I Revolução já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...
É impossível prever, dentro da perspectiva marxista, como seria uma Revolução n.º XX ou n.º L. Não é impossível, entretanto, prever como será a IV Revolução. Essa previsão, os próprios marxistas já a fizeram.
Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado em consequência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual - dizem os comunistas - o homem terá alcançado um grau de liberdade, de igualdade e de fraternidade até aqui insuspeitável.
2. IV Revolução e tribalismo: uma eventualidade
- Como? - É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas atuais correntes estruturalistas dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Segundo tal coletivismo, os vários “eus” ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e consequentemente seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.
Bem entendido, o caminho rumo a este estado de coisas tribal tem de passar pela extinção dos velhos padrões de reflexão, volição e sensibilidade individuais, gradualmente substituídos por modos de pensamento, deliberação e sensibilidade cada vez mais coletivos. É, portanto, neste campo que principalmente a transformação se deve dar.
- De que forma? - Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum pensar e sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. Nelas, a razão individual fica circunscrita a quase nada, isto é, aos primeiros e mais elementares movimentos que seu estado atrofiado lhe consente. “Pensamento selvagem” (*) , pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto. Tal é o preço da fusão coletivista tribal. Ao pajé incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de “mensagens” confusas, mas “ricas” dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas “riquezas” que o homem compensaria a atrofia da razão.
(*) Cfr. Claude Lévy-Strauss, La pensée sauvage, Plon, Paris, 1969.
Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo, etc., divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista, e agora, por fim, atrofiada e feita escrava a serviço do totemismo transpsicológico e parapsicológico...
A. IV Revolução e o preternatural
“Omnes dii gentium dæmonia”, diz a Escritura (*) . Nesta perspectiva estruturalista, em que a magia é apresentada como forma de conhecimento, até que ponto é dado ao católico divisar as fulgurações enganosas, o cântico a um tempo sinistro e atraente, emoliente e delirante, ateu e fetichisticamente crédulo com que, do fundo dos abismos em que eternamente jaz, o príncipe das trevas atrai os homens que negaram Jesus Cristo e sua Igreja?
(*) “Todos os deuses dos pagãos são demônios” - Sl. 95, 5.
É uma pergunta sobre a qual podem e devem discutir os teólogos. Digo os teólogos verdadeiros, ou seja, os poucos que ainda creem na existência do demônio e do inferno. Especialmente os poucos, dentre esses poucos, que têm a coragem de enfrentar os escárnios e as perseguições publicitárias, e de falar.
B. Estruturalismo - Tendências pré-tribais
Seja como for, na medida em que se veja no movimento estruturalista uma figura - mais exata ou menos, mas em todo caso precursora - da IV Revolução, determinados fenômenos afins com ele, que se generalizaram nos últimos dez ou vinte anos devem ser vistos, por sua vez, como preparatórios e propulsores do próprio ímpeto estruturalista.
Assim, a derrocada das tradições indumentárias do Ocidente, corroídas cada vez mais pelo nudismo, tende obviamente para o aparecimento ou consolidação de hábitos nos quais se tolerará, quando muito, a cintura de penas de ave de certas tribos, alternada, onde o frio o exija, com coberturas mais ou menos à maneira das usadas pelos lapões.
O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta (para empregar só esse qualificativo) do trato tribal.
A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua e fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada, também ela, com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida.
A aversão ao esforço intelectual, notadamente à abstração, à teorização, ao pensamento doutrinário, só pode induzir, em última análise, a uma hipertrofia dos sentidos e da imaginação, a essa “civilização da imagem” para a qual Paulo VI julgou dever advertir a humanidade (*) .
(*) “Nós sabemos bem que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos, que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil; e estar a viver, hoje em dia, na civilização da imagem” (cfr. Exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi”, 8/12/1975, Documentos Pontifícios, nº 188, Vozes, Petrópolis, 1984, 6ª ed., p. 30).
São sintomáticos também os idílicos elogios, sempre mais frequentes, a um tipo de “revolução cultural” geradora de uma futura sociedade pós-industrial, ainda incompletamente esboçada, e da qual o comunismo chinês seria - conforme por vezes é apresentado - um primeiro espécimen.
C. Despretensioso contributo
Bem sabemos quanto são passíveis de objeções, em muitos de seus aspectos, os quadros panorâmicos, por sua natureza vastos e sumários como este.
Necessariamente abreviado pelas delimitações de espaço do presente capítulo, este quadro oferece seu despretensioso contributo para as elucubrações dos espíritos dotados daquela ousada e peculiar finura de observação e de análise que, em todas as épocas, proporciona a alguns homens prever o dia de amanhã.
D. A oposição dos banais
Os outros farão, a esse propósito, o que em todas as épocas fizeram os espíritos banais e sem ousadia. Sorrirão e tacharão de impossíveis tais transformações, porque são de molde a alterar seus hábitos mentais. Porque elas aberram do bom senso, e aos homens banais o bom senso parece a única via normal do acontecer histórico. Sorrirão incrédulos e otimistas ante essas perspectivas, como Leão X sorriu a propósito da trivial “querela de frades”, que foi só o que conseguiu discernir na I Revolução nascente. Ou como o feneloniano Luís XVI sorriu ante as primeiras efervescências da II Revolução, as quais se lhe apresentavam em esplêndidos salões palacianos, embaladas por vezes ao som argênteo do cravo. Ou então luzindo discretamente nos ambientes e nas cenas bucólicas à maneira do “Hameau” de sua esposa. Como sorriem, ainda hoje, otimistas, céticos, ante os manejos do risonho comunismo pós-staliniano, ou as convulsões que prenunciam a IV Revolução, muitos representantes altos, e até dos mais altos, da Igreja e da sociedade temporal no Ocidente.
Se algum dia a III ou a IV Revolução tomar conta da vida temporal da humanidade, acolitada na esfera espiritual pelo progressismo ecumênico, devê-lo-ão mais à incúria e colaboração destes risonhos e otimistas profetas do “bom senso”, do que a toda a sanha das hostes e dos serviços de propaganda revolucionários.
A oposição dos “profetas do bom senso”
Profetas estes de um estranho gênero, pois suas profecias consistem em afirmar invariavelmente que “nada acontecerá”.
Essas várias formas de otimismo acabarão por contrastar de tal maneira com os fatos que se seguiram às anteriores edições de "Revolução e Contra-Revolução" que, para sobreviver, os espíritos adeptos delas refugiar-se-ão na esperança falaz e meramente hipotética de que os últimos acontecimentos no Leste europeu determinarão o desaparecimento definitivo do comunismo, e portanto do processo revolucionário do qual este era, até há pouco, a ponta de lança. Sobre tais esperanças, ver os incisos acrescentados nesta edição ao capítulo II desta III Parte.
Continuação do texto de 1976:
E. Tribalismo eclesiástico - Pentecostalismo
Falemos da esfera espiritual. Bem entendido, também a ela a IV Revolução quer reduzir ao tribalismo. E o modo de o fazer já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a modelaram magnificamente, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos “profetas” mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalo-tribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista.
“Desmonarquização” das autoridades eclesiásticas
Nesta perspectiva, que tem algo de histórico e de conjectural, certas modificações de si alheias a esse processo poderiam ser vistas como passos de transição entre o status quo pré-conciliar e o extremo oposto aqui indicado. Por exemplo, a tendência ao colegiado como modo de ser obrigatório de todo poder dentro da Igreja e como expressão de certa “desmonarquização” da autoridade eclesiástica, a qual ipso facto ficaria, em cada grau, muito mais condicionada do que antes ao escalão imediatamente inferior.
Tudo isto, levado às suas extremas consequências, poderia tender à instauração estável e universal, dentro da Igreja, do sufrágio popular, que em outros tempos foi por Ela adotado às vezes para preencher certos cargos hierárquicos; e, num último lance, poderia chegar, no quadro sonhado pelos tribalistas, a uma indefensável dependência de toda a Hierarquia em relação ao laicato, suposto porta-voz necessário da vontade de Deus. “Da vontade de Deus”, sim, que esse mesmo laicato tribalista conheceria através das revelações “místicas” de algum bruxo, guru pentecostalista ou feiticeiro; de modo que, obedecendo ao laicato, a Hierarquia supostamente cumpriria sua missão de obedecer à vontade do próprio Deus.
3. Dever dos contra-revolucionários ante a IV Revolução nascente
Quando incontáveis fatos se apresentam suscetíveis de serem alinhados de maneira a sugerir hipóteses como a do nascimento da IV Revolução, o que resta ao contra-revolucionário fazer?
Na perspectiva de "Revolução e Contra-Revolução", toca-lhe, antes de tudo, acentuar a preponderante importância que no processo gerador desta IV Revolução, e no mundo dela nascido, cabe à Revolução nas tendências (*) . E preparar-se para lutar, não só no intuito de alertar os homens contra esta preponderância das tendências - fundamentalmente subversiva da boa ordem humana - que assim se vai incrementando, como a usar, no plano tendencial, de todos os recursos legítimos e cabíveis para combater essa mesma Revolução nas tendências. Cabe-lhe também observar, analisar e prever os novos passos do processo, para ir opondo, tão cedo quanto possível, todos os obstáculos contra a suprema forma de Revolução tendencial, como de guerra psicológica revolucionária, que é a IV Revolução nascente.
(*) Cfr. Parte I - Cap. V, 1 a 3.
Se a IV Revolução tiver tempo para se desenvolver antes que a III Revolução tente sua grande aventura, talvez a luta contra ela exija a elaboração de um novo capítulo de "Revolução e Contra-Revolução". E talvez esse capítulo ocupe por si só um volume igual ao aqui consagrado às três revoluções anteriores.
Com efeito, é próprio aos processos de decadência complicar tudo, quase ao infinito. E por isso cada etapa da Revolução é mais complicada que a anterior, obrigando a Contra-Revolução a esforços paralelamente mais pormenorizados e complexos.
* * *
Nessas perspectivas sobre a Revolução e a Contra-Revolução, e sobre o futuro do trabalho que cumpre levar a cabo em função de uma e de outra, encerramos as presentes considerações.
Incertos, como todo o mundo, sobre o dia de amanhã, erguemos em atitude de prece os nossos olhos até o trono excelso de Maria, Rainha do Universo. E ao mesmo tempo nos sobem aos lábios, adaptadas a Ela, as palavras do Salmista dirigidas ao Senhor:
“Ad te levavi oculos meos, qui habitas in Caelis. Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum. Sicut oculi ancillae in manibus dominae suae; ita oculi nostri ad Dominam Matrem nostram donec misereatur nostri” (*) .
(*) “Levanto meus olhos para ti, que habitas nos céus. Assim como os olhos dos servos estão fixos nas mãos dos seus senhores, e os olhos da escrava nas mãos de sua senhora, assim nossos olhos estão fixos na Senhora, Mãe nossa, até que Ela tenha misericórdia de nós” - Cfr. Ps. 122, 1-2.
Sim, voltamos nossos olhos para a Senhora de Fátima, pedindo-Lhe quanto antes a contrição que nos obtenha os grandes perdões, a força para travarmos os grandes combates, e a abnegação para sermos desprendidos nas grandes vitórias que trarão consigo a implantação do Reino d'Ela. Vitórias estas que desejamos de todo coração, ainda que, para chegar até elas, a Igreja e o gênero humano tenham de passar pelos castigos apocalípticos - mas quão justiceiros, regeneradores e misericordiosos - por Ela previstos em 1917 na Cova da Iria.
CONCLUSÃO (*)
(*) NOTA DA EDITORA: Os três primeiros parágrafos desta Conclusão foram redigidas em 1976. O restante é transcrição literal da Conclusão redigida em 1959.
Interrompemos a parte final de "Revolução e Contra-Revolução", edição brasileira de 1959, para atualizar, nas páginas que precedem, o texto original
Isto feito, perguntamo-nos se a pequena Conclusão do texto original de 1959 e das edições posteriores ainda merece ser mantida, ou se comporta, pelo menos, alguma modificação. Relemo-la com cuidado. E chegamos à persuasão de que não há motivo para não mantê-la, bem como não há razão para alterá-la no que quer que seja.
Dizemos, hoje, como dissemos então:
Na realidade, por tudo quanto aqui se disse, para uma mentalidade posta na lógica dos princípios contra-revolucionários, o quadro de nossos dias é muito claro. Estamos nos lances supremos de uma luta, que chamaríamos de morte se um dos contendores não fosse imortal, entre a Igreja e a Revolução. Filhos da Igreja, lutadores nas lides da Contra-Revolução, natural é que, ao cabo deste trabalho, o consagremos filialmente a Nossa Senhora.
A primeira, a grande, a eterna revolucionária, inspiradora e fautora suprema desta Revolução, como das que a precederam e lhe sucederem, é a Serpente, cuja cabeça foi esmagada pela Virgem Imaculada. Maria é, pois, a Padroeira de quantos lutam contra a Revolução.
A mediação universal e onipotente da Mãe de Deus é a maior razão de esperança dos contra-revolucionários. E em Fátima Ela já lhes deu a certeza da vitória, quando anunciou que, ainda mesmo depois de um eventual surto do comunismo no mundo inteiro, “por fim seu Imaculado Coração triunfará”.
Aceite a Virgem, pois, esta homenagem filial, tributo de amor e expressão de confiança absoluta em seu triunfo.
Não quereríamos dar por encerrado o presente artigo, sem um preito de filial devotamento e obediência irrestrita ao “doce Cristo na terra”, coluna e fundamento infalível da Verdade, Sua Santidade o Papa João XXIII.
“Ubi Ecclesia ibi Christus, ubi Petrus ibi Ecclesia”.
É pois para o Santo Padre que se volta todo o nosso amor, todo o nosso entusiasmo, toda a nossa dedicação. É com estes sentimentos, que animam todas as páginas de “Catolicismo” desde sua fundação, que nos abalançamos também a publicar este trabalho.
Sobre cada uma das teses que o constituem, não temos em nosso coração a menor dúvida. Sujeitamo-las todas, porém, irrestritamente ao juízo do Vigário de Jesus Cristo, dispostos a renunciar de pronto a qualquer delas, desde que se distancie, ainda que de leve, do ensinamento da Santa Igreja, nossa Mãe, Arca da Salvação e Porta do Céu.
POSFÁCIO DE 1992
Com as palavras anteriores concluí as várias edições de "Revolução e Contra-Revolução" publicadas desde 1976. Ao ler essas palavras, quem tem em mãos a presente edição, aparecida em 1992, se perguntará necessariamente em que pé se encontra hoje o processo revolucionário. Vive ainda a III Revolução? Ou a queda do império soviético permite afirmar que a IV Revolução já está em vias de irromper no mais profundo da realidade política do Leste europeu, ou mesmo que já venceu?
É necessário distinguir. Nos presentes dias, as correntes que propugnam a implantação da IV Revolução se estenderam – em formas embora diversas – ao mundo inteiro, e manifestam, mais ou menos por todas as partes, uma sensível tendência a avolumar-se.
Nesse sentido, a IV Revolução vai num crescendo promissor para os que a desejam, e ameaçador para os que se batem contra ela. Mas haveria evidente exagero em dizer que a ordem de coisas atualmente existente na ex-URSS já é totalmente modelada segundo a IV Revolução e que ali nada mais resta da III Revolução.
A IV Revolução, se bem que inclua também o aspecto político, é uma Revolução que a si mesma se qualifica de “cultural”, ou seja, que abarca grosso modo todos os aspectos do existir humano. Assim, os entrechoques políticos que venham a surgir entre as nações que compunham a URSS poderão condicionar fortemente a IV Revolução, mas é difícil que os mesmos se imponham de modo dominante aos acontecimentos, isto é, a todo o conjunto de atos humanos que a “revolução cultural” comporta.
Mas, e a opinião pública dos países que até ontem eram soviéticos (e que em bom número ainda são governados por antigos comunistas)? Não tem ela algo a dizer sobre isto, já que representou, segundo "Revolução e Contra-Revolução", um papel tão grande nas Revoluções anteriores?
A resposta a essa pergunta se dá por meio de outras: Há verdadeiramente opinião pública naqueles países? Pode ela ser engajada num processo revolucionário sistemático? Em caso negativo, qual é o plano dos mais altos dirigentes nacionais e internacionais do comunismo acerca do rumo que se deve dar a essa opinião?
É difícil responder a todas essas perguntas, dado que neste momento a opinião pública daquilo que foi o mundo soviético se apresenta evidentemente átona, amorfa, imobilizada sob o peso de 70 anos de ditadura total, na qual cada indivíduo temia, em muitos ambientes, enunciar sua opinião religiosa ou política a seu parente mais próximo ou a seu mais íntimo amigo, porque uma provável delação – velada ou ostensiva, verídica ou caluniosa – poderia lançá-lo em trabalhos forçados sem fim, nas geladas estepes da Sibéria. Entretanto, em qualquer caso, é necessário responder a essas perguntas antes de elaborar prognósticos sobre o curso dos acontecimentos no que foi o mundo soviético.
Soma-se a isso que os meios internacionais de comunicação continuam a referir-se, como já disse, à eventual migração de hordas famintas, semicivilizadas (o que equivale a dizer semibárbaras) aos bem abastecidos países europeus, que vivem no regime consumista ocidental.
Pobre gente, cheia de fome e vazia de ideias, que então entraria em choque com o mundo livre, sem compreendê-lo – mundo este que, em certos aspectos, poderia ser qualificado de supercivilizado e, em outros, de gangrenado!
O que resultaria desse entrechoque, quer na Europa invadida, quer, por reflexo, no antigo mundo soviético? Uma Revolução autogestionária, cooperativista, estruturalo-tribalista (*) , ou, diretamente, um mundo de anarquia total, de caos e de horror, que não vacilaríamos em qualificar de V Revolução?
(*) Cfr. Comentário de 1992 à Parte III, Capítulo II, sob o título: “Perestroika” e “glasnost”: desmantelamento da III Revolução, ou metamorfose do comunismo?
No momento em que esta edição vem a lume é manifestamente prematuro responder a tais perguntas. Mas o futuro se nos depara tão carregado de imprevistos que amanhã talvez já seja demasiadamente tarde para fazê-lo. Pois, qual seria a utilidade dos livros, dos pensadores, do que, enfim, reste de civilização, em um mundo tribal no qual estivessem desatados todos os furacões das paixões humanas desordenadas e todos os delírios dos “misticismos” estruturalo-tribalistas? Trágica situação essa, na qual ninguém seria alguma coisa, sob o império do Nada...
* * *
Gorbachev continua em Moscou. E lá permanecerá, pelo menos enquanto não se decida a aceitar os convites altamente promocionais que se açodaram a lhe fazer, pouco depois de sua queda, os reitores das prestigiosas Universidades de Harvard, Stanford e Boston (*) . Isto, se ele não preferir aceitar a hospedagem régia que lhe ofereceu Juan Carlos I, Rei da Espanha, no célebre palácio de Lanzarote, nas Ilhas Canárias (**) , ou a cátedra a que fora convidado pelo famoso Collège de France (***) .
(*) Cfr. “Folha de S. Paulo”, 21-12-91.
(**) Cfr. “O Estado de S. Paulo”, 11-1-92.
(***) Cfr. “Le Figaro”, Paris, 12-3-92.
Ante tais alternativas, o ex-líder comunista, derrotado no Oriente, parece só ter o embaraço de escolha entre os convites mais lisonjeiros no Ocidente. Até o momento, ele apenas se decidiu por escrever uma série de artigos para uma cadeia de vários jornais do mundo capitalista, mundo este em cujas altas esferas continua a encontrar um apoio tão fervoroso quanto inexplicável. E a fazer uma viagem aos Estados Unidos, cercado de grande aparato publicitário, a fim de conseguir fundos para a chamada Fundação Gorbachev.
Assim, enquanto Gorbachev está na penumbra em sua própria pátria – e, mesmo no Ocidente, vem tendo seu papel seriamente questionado -, magnatas do ocidente se empenham de diversos modos em manter as luzes de uma lisonjeira publicidade assestadas sobre o homem da perestroika, o qual, entretanto, durante toda a sua carreira política insistiu em dizer que essa reforma por ele proposta não é o oposto do comunismo, mas um requinte deste (*) .
(*) Cfr. Comentário de 1992 à Parte III, Capítulo II, sob o título: “Perestroika” e “glasnost”: desmantelamento da III Revolução, ou metamorfose do comunismo?
Quanto à frouxa federação soviética que agonizava quando Gorbachev foi precipitado do Poder, acabou por se transformar em uma quase imaginária “Comunidade de Estados Independentes”, entre cujos componentes se vêm acendendo sérias fricções, as quais causam preocupação a homens públicos e a analistas políticos. Tanto mais quanto várias dessas repúblicas ou republiquetas possuem armamentos atômicos que podem disparar, umas contra as outras (ou contra os adversários do Islã, cuja influência no mundo ex-soviético cresce dia a dia), com vivas apreensões para os que se preocupam com o equilíbrio planetário.
Os efeitos dessas eventuais agressões atômicas podem ser múltiplos. Entre eles, principalmente, o êxodo de populações contidas outrora pelo que foi a cortina de ferro, e que, premidas pelos rigores de um inverno habitualmente inclemente e pelos riscos de catástrofes imensas, podem sentir redobrados impulsos para “pedir” a hospitalidade da Europa Ocidental. E não só dela, mas também de nações do continente americano...
Em abono dessas perspectivas, no Brasil, o sr. Leonel Brizola, governador do Estado do Rio de Janeiro, com aplauso do ministro da Agricultura do Brasil, propôs atrair lavradores do Leste europeu, dentro dos programas oficiais de Reforma Agrária (*) . Em seguida, o presidente da Argentina, Carlos Menem, em contatos com a Comunidade Econômica Europeia, manifestou-se disposto a que seu país acolha muitos milhares desses imigrantes (**) . E, pouco depois, a titular da Chancelaria colombiana, sra. Nohemí Sanín, disse que o governo de seu país estuda a admissão de técnicos provenientes do Leste (***) . Até estes extremos podem chegar os vagalhões das invasões.
(*) Cfr “Jornal da Tarde”, 27-12-91.
(**) Cfr. “Ambito Financiero”, Buenos Aires, 19-2-92.
(***) Cfr. “El Tiempo”, Bogotá, 22-2-92.
E o comunismo? O que é feito dele? A forte impressão de que ele morrera apoderou-se da maior parte da opinião pública do Ocidente, deslumbrada ante a perspectiva de uma paz universal de duração indeterminada. Ou quiçá de uma duração perene, com o consequente desaparecimento do terrível fantasma da hecatombe nuclear mundial.
Esta “lua de mel” do Ocidente com seu suposto paraíso de desanuviamento e de paz, vem refulgindo gradualmente menos.
Com efeito, referimo-nos pouco atrás às agressões de toda ordem que relampagueiam nos territórios da finada URSS. Cabe-nos, pois, perguntar se o comunismo morreu. De início, as vozes que punham em dúvida a autenticidade da morte do comunismo foram raras, isoladas e escassas em fundamentação.
Aos poucos, de cá e de lá, sombras foram aparecendo no horizonte. Em nações da Europa Central e dos Bálcãs, como do próprio território da ex-URSS, foi-se notando que os novos detentores do Poder eram figuras de destaque do próprio Partido Comunista local. Exceto na Alemanha Oriental, a caminhada para a privatização na maioria das vezes se vem fazendo muito mais na aparência do que na realidade, isto é, a passos de cágado, lentos e sem rumo inteiramente definido.
Ou seja, pode-se dizer que nesses países o comunismo morreu? Ou que ele entrou simplesmente num complicado processo de metamorfose? Dúvidas a este respeito se vêm avolumando, enquanto os últimos ecos da alegria universal pela suposta queda do comunismo se vêm apagando discretamente.
Quanto aos partidos comunistas das nações do Ocidente, murcharam de modo óbvio, ao estampido das primeiras derrocadas na URSS. Mas já hoje vários deles começam a se reorganizar com rótulos novos. Esta mudança de rótulo é uma ressurreição? Uma metamorfose? Inclino-me de preferência por esta última hipótese. Certezas, só o futuro as poderá dar.
Esta atualização do quadro geral em função do qual o mundo vai tomando posição, pareceu-me indispensável como tentativa de pôr um pouco de clareza e de ordem num horizonte em cujos quadrantes o que cresce principalmente é o caos. Qual é o rumo espontâneo do caos senão uma indecifrável acentuação de si próprio?
* * *
Em meio a esse caos, só algo não variará. É, em meu coração e em meus lábios, como no de todos os que veem e pensam comigo, a oração transcrita ao final da Parte III: “Ad te levavi oculos meos, qui habitas in coelis. Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum, sicut oculi ancilae in manibus dominae suae; ita oculi nostri ad Dominam Matrem nostram donec misereatur nostri”. É a afirmação da invariável confiança da alma católica, genuflexa, mas firme, em meio à convulsão geral.
Firme com toda a firmeza dos que, em meio da borrasca, e com uma força de alma maior do que esta, continuarem a afirmar do mais fundo do coração: “Credo in Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam”, ou seja, Creio na Igreja Católica, Apostólica, Romana, contra a qual, segundo a promessa feita a Pedro, as portas do inferno não prevalecerão. (*)
(*) NR: "Revolução e Contra-Revolução" foi publicada em primeira mão no número 100 de Catolicismo, de abril de 1959, e teve depois edições em separata em 16 países da Europa e das três Américas, tendo sido traduzida em nove línguas, num total de 27 edições.